Gabriel Lordello/Estadão
Amanda Dutra, atleta de judô que vai se naturalizar libanesa  Gabriel Lordello/Estadão

Atleta do judô tem de pagar R$ 150 mil se quiser defender outro país

Confederação define taxa de reparação pelo investimento feito no atleta; alternativa é esperar três anos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 04h30

A judoca Amanda Dutra tem passagem aérea marcada para o Líbano para quarta-feira, dia 1.º de maio. O bilhete é só de ida. Insatisfeita com a falta de apoio nos últimos anos, a segunda colocada no ranking brasileiro nos meio-médios (até 63 kg) decidiu se naturalizar libanesa. Seus pais estão apreensivos com a viagem, a filha vai sozinha e nunca morou fora do País. Amanda confessa que foi difícil tomar a decisão, mas está indo atrás do seu grande sonho: a Olimpíada de Tóquio. 

Ela é mais uma atleta do judô que decide trocar de País. Só neste ano, três judocas procuraram a entidade para mudar a bandeira. Preocupada com esse êxodo, a Confederação Brasileira de Judô publicou uma resolução administrativa que determina que competidores da seleção brasileira que queiram trocar de “time” paguem uma taxa administrativa que varia entre R$ 50 mil e R$ 150 mil como forma de reparação pelos investimentos da entidade no desenvolvimento do atleta. Caso contrário, os judocas devem seguir o regulamento internacional de transferências que prevê uma espécie de quarentena de três anos sem competições oficiais antes de o atleta mudar de lado. 

Embora o número de pedidos seja baixo, os dirigentes coçaram a cabeça quando viram a idade dos atletas: todos no início da carreira, com mais ou menos 21 anos. Isso aponta uma mudança no perfil de quem arruma as malas. Não são apenas os mais experientes atrás de novos rumos em uma modalidade concorrida, os juniores também estão seguindo para os aeroportos. 

Até 2018, os casos envolviam atletas mais experientes. Um dos primeiros a partir foi Nacif Elias, meio-médio (até 81 kg) que virou libanês em 2009. Camila Minakawa preferiu ir para Israel em 2013. No fim do ano passado, Rochele Nunes e Barbara Timo se tornaram portuguesas. “Acredito que o Brasil está investindo apenas em poucos atletas, e as pessoas vão se naturalizando pelas oportunidades que surgem na carreira”, diz Nacif. 

Outro fator é a diferença no número de torneios lá fora. Na seleção brasileira, o competidor faz apenas quatro ou cinco competições ao ano. Em uma seleção europeia, consegue fazer até oito torneios por temporada. Quando mais competições, mais chances de somar pontos no ranking internacional e mais convites para as disputas.  

A medida da CBJ é polêmica. Advogados ouvidos pelo Estado questionam a cobrança da taxa. “As normas da CBJ têm aplicação restrita ao Brasil e não podem limitar de qualquer forma a liberdade de trabalho e o direito que possuem os atletas de representar outros países, caso satisfaçam os requisitos de nacionalidade fixados por aquele país e pela federação internacional de judô”, opina Eduardo Carlezzo, advogado especialista em Direito Desportivo em São Paulo. 

A entidade se defende citando as regras da Federação Internacional. “Não impedimos ninguém de sair do Brasil. Os atletas podem sair, mas devem seguir a determinação internacional. São três anos sem competir. Não é uma determinação da CBJ, mas sim da Federação Internacional de Judô”, rebate Ney Wilson, gestor de Alto Rendimento da CBJ

O especialista explica que a determinação brasileira está alinhada ao que fazem hoje países como Canadá, Alemanha e Holanda. “Nós nos inspiramos nesses países para criar essa forma de reparação pelos investimentos. Não saiu da nossa cabeça”. 

Amanda conseguiu escapar da cobrança por ter financiado, do próprio bolso, as competições de que participa desde 2007. Com isso, caiu por terra o argumento de reparação da confederação. Para completar a renda, ela dá aulas de judô em três escolas e já fez bicos em um salão de beleza, como maquiadora e cabeleireira. “Não investiram em mim. Saio frustrada com o País. Para não me frustrar com o esporte, que sempre foi minha paixão, estou buscando outro lugar para defender, outro país”, diz a dona de duas medalhas (prata e bronze) em Pan-Americanos. 

Vários fatores explicam o começo da debandada dos judocas. Em algumas categorias, a concorrência é pesada, pois o Brasil é um grande formador de atletas. Em outros casos, alguns competidores esbarram na idade. “Seria possível chegar à Olimpíada pelo Brasil, mas existe a necessidade de renovar o time. Com isso, as apostas para mim seriam menores e entendo isso”, diz Rochele Nunes, que tem 30 anos e agora compete nos pesados (+ 78 kg) por Portugal.

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Após naturalização, brasileiras têm bons resultados defendendo Portugal

Rochele Nunes e Barbara Timo defendem o Benfica e planejam ir a Tóquio defendendo Portugal

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 04h30

Em agosto de 2018, as judocas Bárbara Timo e Rochele Nunes se mudaram para Lisboa para lutar pelo Benfica, de Portugal. Em novembro, ambas conquistaram o campeonato nacional em suas categorias: médio (-70kg) e pesado (+78kg). Neste ano, a grande mudança: Bárbara e Rochele também passam a defender a seleção portuguesa. As atletas, que representaram o Brasil em diversas competições internacionais ao longo da carreira, obtiveram a naturalização, e a regularização na Federação Internacional de Judô foi concluída recentemente.

"O Benfica é hoje um dos clubes mais ecléticos do mundo. Por isso, estamos sempre atentos aos atletas que melhor poderão representar o nosso emblema. A Bárbara Timo e a Rochele Nunes vieram integrar o nosso projeto Olímpico e os resultados estão à vista, com várias medalhas já conquistadas. Naturalmente, pela sua qualidade, a Federação Portuguesa de Judô aproveitou a oportunidade para passar a contar com mais duas atletas de enorme potencial nas competições internacionais", avalia Fernando Tavares, vice-presidente do Benfica para as Modalidades. 

"Telma Monteiro, a melhor judoca portuguesa de sempre, alcançou a única medalha para Portugal no Rio. Estamos convictos que em Tóquio, teremos três judocas do Benfica com possibilidade de chegar às medalhas e honrar as cores do país", completa.

A gaúcha Rochele também teve uma grande temporada de 2018. Defendendo o Brasil e a Sogipa (RS), ela conquistou quatro medalhas de ouro na categoria pesado (+78kg). Os títulos vieram nos Opens de Santiago, Lima e Buenos Aires, além do Sul-Brasileiro. Também ficou em terceiro lugar no Grand Prix Nacional por equipes mistas.

Por que você decidiu se naturalizar portuguesa?

Pela oportunidade de poder disputar os Jogos Olímpicos.

Não seria possível disputar os Jogos pelo Brasil?

Seria possível sim. Porém com a necessidade de renovar a equipe (da seleção) as apostas em mim seriam menores e eu entendo isso. Com um menor investimento, acredito que se tornaria muito mais difícil a minha ida ao Jogos.

Você enfrentou dificuldades no Brasil?

Não sei se foram dificuldades em competir, mas eu tive um pouco de “azar” ao longo de dois ciclos olímpicos. Eu realizei seis cirurgias, e isso é algo que foge do meu controle. Infelizmente, eu não tinha como evitar, não procuro usar isso como desculpa porém em algumas vezes em que essas lesões ocorreram eram momentos muitos importantes da carreira.

Como você avalia esse período como atleta de Portugal?

Eu me sinto muito mais confiante. Acredito que a credibilidade que a Federação, Comitê Olímpico e Benfica colocaram em mim foi essencial para que aumentasse a minha confiança.

Quais foram seus principais resutlados até agora?

Eu conquistei medalha de bronze no GP Telaviv, bronze no Grand Slam de Ecaterimburgo e bronze GP de Tbilisi.

Quais seus planos para 2019?

Confirmar a vaga na Olimpíada e chegar nos jogos entre as quatro melhores do ranking já pensando no ouro olímpico. Ainda é longo o caminho, temos muitas provas, mas tudo passa muito rápido.

Outros judocas brasileiros também estão se naturalizando. Como você avalia esse movimento?

Vejo para muitos como uma opção de qualidade de vida e poder vivenciar o que, às vezes, não era possível. Por outro lado, não é fácil sair do seu país, deixar família e amigos, sair de uma zona de conforto. Em busca de um sonho, vale a pena.

Como é sua rotina pessoal e profissional?

Eu me vejo muito mais planejada e focada. A rotina com dois treinos diários, cinco vezes por semana, se mantém. Algumas vezes, nós treinamos aos sábados. O que mudou foi a qualidade de treino e a maneira com qual eu tenho treinado, muito mais voltada para competições internacionais. Tenho ido muito aos jogos do Benfica e apoiado as outras modalidades. Vôlei, handebol, futsal e futebol feminino são os que eu mais gosto de assistir. E vou muito ao cinema.

Qual é o apoio que o clube oferece para você?

O clube me ofereceu tudo o que é fundamental para um atleta. A estrutura do Benfica é muito boa. Para o projeto olímpico, eu tenho tudo o que eu preciso! Por isso a minha dedicação está sendo tão grande. Quero poder retribuir todo o apoio que está sendo oferecido.

Você já sente adaptada?

Agora sim. Já tenho mais amizades em Portugal e sinto que já é minha casa. As pessoas que convivo fizeram com que tudo fosse um pouco mais fácil para que eu pudesse me sentir o mais feliz possível.

E sua família?

A família me apoiou 100% e foi fundamental para que eu tivesse coragem de encarar a mudança. Eles vivem meu sonho junto comigo e sempre acreditaram no meu potencial.

A carioca Bárbara Timo teve um grande ano de 2018 pela seleção brasileira e pelo Esporte Clube Pinheiros (SP) na categoria médio (-70kg): ganhou duas medalhas de ouro (Open de Buenos Aires e Sul-Brasileiro), uma de prata (Grand Prix Nacional por equipes mistas) e uma de bronze (Grand Slam de Ecaterimburgo).

Por que você decidiu se naturalizar portuguesa?

Pela oportunidade de ir aos Jogos Olímpicos e buscar medalha. Teria possibilidades no Brasil, mas acredito que poderia surgir o momento de renovação na seleção. Eu entendo isso.

Quais as dificuldades que enfrentou no Brasil?

Representei a seleção de 2013 a 2018. A categoria médio no Brasil tem atletas fortes e cada vez com mais resultados. Sei que fiz tudo que estava ao meu alcance para buscar resultados e evoluir.

Como você avalia esse período como atleta de Portugal?

Está sendo excelente ter experiência nova. Estou aprendendo e curtindo a caminhada rumo aos Jogos Olímpicos.

Quais foram seus principais resultados até agora?

No Brasil, eu fui campeã da Universíade Taipei 2017, terceira colocada no Grand Slam de Ecaterimburgo em 2018 e primeira colocada no GP de Tashkent, em 2013. Também fui pentacampeã brasileira. Em Portugal, fiquei em terceiro no Grand Slam de Paris e primeira colocada no Grand Prix de Tblisi

Quais são seus planos para 2019?

Quero subir ao pódio no europeu e mundial e continuar tenho constância de rsultados para que chegue aos Jogos Olímpicos entre as oito no ranqueamento.

Muitos atletas estão se naturalizando. Como analisa essa questão?

Acho que é uma tendência mundial, que acontece há muitos anos, não só do Brasil.

Como é sua rotina em Portugal?

Desde janeiro parei pouco em casa, em Lisboa. Passo uma média de 10 dias viajando para treinar e competir e 10 dias em casa recuperando e focando no treino físico. Em 2019, eu já participei de seis treinamentos internacionais e cinco competições internacionais. Praticamente não tenho uma rotina. Não é fácil, mas abri mão da minha família, minha casa e meus amigos no Brasil por um sonho e farei tudo que tiver ao meu alcance para conquistá-lo. O que me deixa feliz é que a Federação Portuguesa de Judô e o Benfica acreditam e investem em mim para que eu tenha as melhores condições de preparação rumo aos Jogos. Sinto que estou cada dia mais forte e confiante.

Você se sente adaptada?

Sinto muito adaptada à Portugal. A qualidade de vida melhorou, hoje moro a 5 minutos do Benfica, a comida é excelente. Temos fisioterapia, massagista e mental coach toda semana. E tenho o treinado Jorge Gonçalves que é meu (e da telma monteiro) preparador físico e técnico de judô que planeja todos os nossos treinos e principalmente os descansos. Sou muito grata a ele pois desde o princípio ele acreditou no meu potencial e faz de tudo para que eu busque a minha melhor versão

E sua família?

A parte mais dificil foi deixar minha familia. Desde o início, eles me apoiam e trabalho muito para poder melhorar a vida deles. Sempre ajudei minha irmã a criar meu sobrinho. Agora, estou vendo que ele está crescendo (agora tem 13 anos), mas não está por perto é o que mais dói. Não sou casada. Nem tenho filhos, mas tenho um cachorro que minha irmã está cuidando.

 

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    'O Brasil está investindo em apenas alguns atletas do judô'

    Atleta se naturalizou libanês para competir mais vezes e, segundo ele, ficar mais próximo da Olimpíada

    Entrevista com

    Nacif Elias - judoca brasileiro naturalizado libanês

    Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

    28 de abril de 2019 | 04h30

    Nacif Elias soma seis medalhas de ouro em etapas da Copa do Mundo de Judô. Ele é brasileiro, mas se naturalizou libanês em 2009. Ele decidiu trocar de bandeira porque, no Brasil, não lutava a quantidade de competições necessária para se manter no ranking mundial. Em entrevista ao Estado, o judoca da categoria meio-médio (até 81 kg) conta que seu sonho é conquistar o ouro no berço da modalidade nos Jogos de Tóquio no ano que vem. 

    Por que você decidiu se naturalizar libanês?

    O presidente da Federação Libanesa, François Saade, me procurou em 2009 para lutar os Jogos da Francofonia nos países que falam a língua francesa. Como não era um evento da Federação Internacional de Judô, o Brasil me liberou. Fui medalha de prata. Depois fui lutando outros eventos não-oficiais que o Líbano me chamava. Em 2013 eu me naturalizei libanês. Nessa época, eu era atleta do Clube Regatas Flamengo e tinha acabado de ser medalha de bronze na Copa do Mundo da Hungria, lutando pelo Brasil. O Líbano me fez a proposta de me naturalizar e tentar concorrer uma vaga para às Olimpíadas 2016. Como representante do Brasil, eu não estava lutando a quantidade de competições que eu necessitava para me manter no ranking mundial. Além disso, meus bisavós são libaneses. Por isso, eu resolvi me naturalizar libanês.

    Quais foram seus principais resultados?

    Tenho seis medalhas de ouro em etapas de Copas do Mundo, fui vice-campeão dos Jogos Asiáticos, vice campeão asiático, 7º colocado do Campeonato Mundial, Campeão dos Jogos da Francofonia, bronze nos Jogos Árabes e bronze no Grand Prix de Cancun.

    Quais seus planos para 2019? E para Tóquio 2020?

    Conseguir uma medalha no Campeonato Mundial, que será em Tóquio. Em 2020, o foco será apenas às Olimpíadas. Por enquanto estou ranqueado, quero manter meu ranqueamento olímpico para estar classificado para às Olimpíadas. Espero trazer uma medalha de ouro lá dentro do berço de judô, que é o Japão, e ser campeão olímpico!

    Outros judocas brasileiros também estão se naturalizando. Como você avalia esse movimento?

    Acredito que o Brasil está investindo apenas em poucos atletas, e as pessoas vão se naturalizando pelas oportunidades que surgem. Estando na Europa, você tem a possibilidade de participar de mais competições. A evolução será enorme, e a probabilidade de ganhar medalhas é maior ainda. Na seleção brasileira, o atleta faz apenas quatro ou cinco competições ao ano. Em uma seleção europeia, o atleta consegue fazer até oito competições por ano. A chance de “medalhar” é maior.

    Como melhorar essa situação?

    Acredito que poderiam ocorrer mudanças no Brasil, como a criação de uma base na Europa ou por meio de parcerias com clubes ou federações europeias, em troca de alojamento e alimentação para o custo não ficar muito alto. Com isso, os atletas brasileiros poderiam fazer treinos e competir mais. Por falta de recurso, às vezes acaba investindo mais em um atleta do que em outro. Por conta disso, o atleta acaba indo para outro país que dê mais oportunidade. O Brasil precisa de mais investimentos nos atletas. O Brasil tem muitos atletas de qualidade que só precisam de uma boa gestão e um bom investimento. Está na hora também de trazer técnicos de fora para o Brasil, técnicos europeus, russos, até mesmo coreanos, por exemplo, e não apenas técnicos do Japão. Creio que ia fazer a diferença e o Brasil voltaria a ganhar medalha de ouro no masculino em Campeonatos Mundial e Olimpíadas, pois faz mais de 10 anos que o Brasil não ganha medalha de ouro no masculino. A última foi em 2007. Essa é só minha opinião, mas tenho todo respeito e não desqualifico a comissão técnica atual.

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      Advogados apontam desacordo entre taxa do judô e legislação desportiva

      Especialistas em direito desportivo acreditam que cobrança limita a liberdade dos atletas; confederação rebate

      Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

      28 de abril de 2019 | 04h30

      A resolução administrativa da Confederação Brasileira de Judô que prevê o pagamento de taxa dos atletas que peçam transferência de nacionalidade, com valores entre R$ 50 mil e R$ 150 mil, está em desacordo com a Lei Pelé. Em linhas gerais, essa é a conclusão de advogados com especialização em direito esportivo ouvidos pelo Estado. A resolução foi publicada no site da entidade no dia 28 de março. 

      “A Lei Pelé não permite tal cobrança. Não existe um artigo específico sobre isso. É o texto, o escopo, a lógica como foi montada a Lei Pelé ao regular relações de trabalho e formação de atletas”, diz Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo. 

      O especialista faz uma comparação com o futebol. “No futebol, a mudança de nacionalidade é tutelada pela Fifa e nenhuma federação nacional está habilitada a fazer qualquer tipo de cobrança desta natureza”, explica. 

      Patrícia Reali, procuradora do TJD-AD (Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem), tem entendimento semelhante. “Em que pese a autonomia e soberania da organização desportiva, o teor da resolução impõe limites a liberdade do atleta. Essa resolução me parece afrontar princípios basilares da lei do Desporto, tais como os elencados a partir do artigo 2 e incisos, da lei 9615/98”, entende a advogada.

      "A meu ver, criar taxas com valores vultuosos para a transferência do atleta para uma outra Confederação é desrespeitar o espírito esportivo e a dignidade da pessoa humana, haja vista que a qualidade de nacional decorrem direitos subjetivos, como por exemplo representar outra nação e isso não pode ser cerceado em razão de uma vultuosa taxa administrativa. Naturalmente, é importante avaliar esse tempo em que o atleta porventura representou o Brasil e neste momento pretende representar outra nação, contudo, as taxas estabelecidas pela Confederação são arbitrárias diante do vínculo jurídico adquirido pelo atleta a partir do reconhecimento de uma segunda nacionalidade", completa. 

      O advogado João Marcos Guimarães Siqueira, também especialista em direito desportivo, vê excesso na resolução da CJB. “Resolução administrativa não é algo que tenha força de lei e parece-me que há excesso na resolução, pois fere o direito constitucional de ir e vir”, argumenta. “A meu ver caberia ação judicial com pedido liminar para garantir a livre escolha de representar outro país sem o pagamento da tal taxa”, recomenda.

      Ney Wilson, coordenador de Alto Rendimento da Confederação Brasileira de Judô, afirma que não há cerceamento do direito de ir e vir, pois os atletas não estão proibidos de viajar e se nacionalizar, mas eles teriam de observar o período de três anos sem competir por outra bandeira. Ele ressalta que a taxa de ressarcimento para liberação imediata se refere à utilização de recursos públicos na formação dos atletas. 

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