Michael Probst / AP
Michael Probst / AP

Banimento do Irã no judô, suscitado por ordem de não lutar contra israelense, é anulado

Corte Arbitral do Esporte afirmou que “não há base legal” para impedir o Irã de participar de competições em razão de o país ter proibido um atleta de competir contra oponente israelense

Victor Mather, The New York Times

03 de março de 2021 | 15h00

A suspensão do Irã do mundo dos torneios mundiais de judô - em razão de o país ter ordenado que um de seus atletas se retirasse de um torneio para evitar competir contra um israelense - foi anulada pela Corte Arbitral do Esporte.

A corte considerou, porém, que o Irã cometeu “graves violações” das regras da Federação Internacional de Judô nesse caso e afirmou que o o país merece sanções. Mas o tribunal decidiu que a punição imposta - um banimento válido para todas as competições até as autoridades iranianas darem “fortes garantias e provas de que respeitarão os estatutos da FIJ e aceitarão que seus atletas lutem contra atletas israelenses” - já foi longe demais.

Uma suspensão indefinida, afirmou a corte, “não tem nenhuma base legal”, segundo as regras do esporte. O governo islâmico do Irã proíbe atletas iranianos de disputar contra atletas israelenses em qualquer competição ou torneio, incluindo os Jogos Olímpicos. Alguns atletas foram banidos permanentemente de esportes por seguir a ordem de seu país, e outros se retiraram de eventos esportivos - até de Jogos Olímpicos - para evitar esse embates.

Na segunda feira, o painel de juízes do TAE enviou o atual caso de volta para o comitê disciplinar do organismo diretivo do judô mundial - na prática solicitando que a entidade reinicie a investigação, a poucos meses de Irã e Israel mandarem seus judocas para a Olimpíada de Tóquio.

O banimento indefinido foi imposto em 2019, após o judoca iraniano Saeid Mollaei, campeão mundial do esporte, revelar que tinha sido orientado por funcionários da equipe a se retirar do Campeonato Mundial de Judô, em Tóquio, ou perder intencionalmente a luta da semifinal para evitar lutar contra um judoca israelense na final.  Mollaei disse que se recusou a cumprir a ordem mesmo depois de, segundo ele, uma autoridade iraniana se aproximar dele, durante o aquecimento para a semifinal, e tentar intimidá-lo.

Mollaei acabou perdendo a luta, e um adversário israelense, Sagi Muki, ganhou a medalha de ouro. “Sou um lutador; quero competir seja onde for”, afirmou Mollaei na ocasião. “Vivo em um país que não me permite isso.”

Depois do torneio, Mollaei afirmou que temia por sua segurança. Ele solicitou e conseguiu asilo na Alemanha. Atualmente, compete pela Mongólia.

Em um evento em Tel-Aviv, Israel, em fevereiro, Mollaei e Muki posaram juntos para foto e trocaram gentilezas nas redes sociais. Ambos estão a caminho de se classificar para a Olimpíada de Tóquio.

Tensões entre Israel e seus vizinhos já respingaram no esporte, e o judô tem concentrado esse conflito nos anos recentes. Na Olimpíada de 2016, um judoca egípcio se recusou a apertar a mão de um oponente israelense depois da luta.

Por décadas, atletas iranianos fizeram, em certas ocasiões, grandes esforços para evitar encontros com adversários israelenses. Em 2017, um lutador iraniano de luta greco-romana estava a caminho da vitória contra um oponente russo, em uma grande competição, quando seu técnico, ciente de que um israelense o aguardava na rodada seguinte, repentinamente o instruiu a entregar a luta. Pouco depois, o iraniano, Alireza Karimi-Machiani, se debatia no chão do ringue enquanto o russo pontuava.

E, em 2004, o judoca iraniano Arash Miresmaeili, favorito para a medalha de ouro, apareceu com vários quilos acima do permitido na pesagem para sua luta contra um israelense na Olimpíada de Atenas. A violação deu a Miresmaeili a justificativa da desclassificação, e ele não teve de se recusar a competir. Atualmente Miresmaeili é presidente da federação iraniana de judô.

A deserção de Mollaei não foi a primeira ocasião em que um campeão do esporte do Irã rejeitou o país. No ano passado, a única atleta mulher a ganhar uma medalha olímpica pelo Irã na história anunciou que estava desertando por causa da “hipocrisia, das mentiras, da injustiça e da adulação”. A atleta, Kimia Alizadeh, 22 anos, anunciou sua decisão em um post de Instagram acompanhado de uma foto da Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, onde ela ganhou uma medalha de bronze em taekwondo.

“Meu espírito angustiado não combina com seus canais econômicos asquerosos e lobbies políticos controlados”, escreveu ela na ocasião. “Não desejo nada além de lutar taekwondo, segurança e uma vida feliz e saudável.”

Kimia foi para os Países Baixos e, no início desse ano, obteve status de refugiada na Alemanha. Ela deverá disputar torneios europeus classificatórios para a Olimpíada de Tóquio.

“Tomar essa decisão é mais difícil do que ganhar o ouro olímpico”, escreveu Kimia a respeito de sua deserção, no ano passado, “mas continuarei filha do Irã onde quer que esteja”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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