ANDREJ ISAKOVIC/ AFP
ANDREJ ISAKOVIC/ AFP

Boxeadores afegãos exilados na Sérvia vivem uma dolorosa história

Onze integrantes da seleção nacional afegã de boxe, acompanhados de dois dirigentes, não retornaram ao Afeganistão após o Campeonato Mundial em Belgrado

David Stout e Miodrag Solvilj, AFP

06 de dezembro de 2021 | 10h00

Subir no ringue nunca foi fácil, e menos ainda em uma zona de guerra. Mas hoje, o boxeador afegão Hasib Malikzada enfrenta seu rival mais imprevisível, a incerteza de uma vida em busca de asilo longe de seu lar. O campeão peso leve do Afeganistão está 'bloqueado' junto de outros compatriotas na Sérvia, que se recusam a retornar depois de participar, no mês passado, do Campeonato Mundial da Associação Internacional de Boxe (Aiba) em Belgrado.

Desde a chegada ao país dos Bálcãs, os 11 pugilistas da seleção nacional afegã, acompanhados de dois dirigentes, pulam de um hotel para o outro e, às vezes, conseguem uma academia para treinar. Mesmo diante dessas dificuldades, a Sérvia parece um oásis de tranquilidade em comparação com o que vivenciaram nos últimos tempos.

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Quando o taleban chegou não pudemos mais praticar o boxe
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Hasib Malikzada, boxeador afegão

Pouco depois da queda do governo apoiado pelos Estados Unidos em agosto, sua academia em Cabul fechou as portas. Para o jovem atleta, a vida no Afeganistão se tornou insustentável. Ele teme, inclusive, represálias contra sua família por suas relações com o governo deposto. Além disso, explica que seus irmãos participaram da pequena resistência contra os talebans no vale de Panjshir, a nordeste de Cabul, junto de soldados do governo anterior e milicianos. "Se os talebans nos encontrarem, eles vão nos matar", afirma.

De acordo com as estimativas, centenas de milhares de afegãos fugiram nos últimos meses da perseguição e da devastação econômica no país, se juntando às ondas migratórias internacionais.

FUGA DO ESTRESSE

Para Malikzada e seus companheiros, o boxe era um refúgio durante os piores momentos da ocupação americana do Afeganistão. A academia era o lugar onde a violência se restringia aos rounds e categorias de peso, submetida a regras e equipamentos de proteção.

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O boxe renova o espírito, o corpo e também a saúde
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Tawfiqullah Sulaimani, pugilista peso pesado de 20 anos

Depois da tomada de poder pelos talebans, a equipe continuou treinando em sigilo. Para chegar a Belgrado, os atletas partiram separadamente, através da fronteira com o Irã, para não chamar a atenção. Depois, em Teerã, conseguiram os vistos para a Sérvia.

Depois de quatro dias de viagem e sem dormir, chegaram justo a tempo de participar dos Mundiais, nos quais tiveram "bons resultados", apesar do estresse. "Não tínhamos dormido, mas fizemos boas apresentações", assinala Waheedullah Hameedi, de 24 anos, secretário-geral da Federação Afegã de Boxe.

Sobre Hameedi repousa grande parte do futuro dos boxeadores. Enquanto seus compatriotas treinam, ele se dedica a enviar mensagens para seus contatos por todo o mundo com a esperança de que alguém possa ajudá-los. O dirigente também viveu de perto a brutalidade dos talebans. Em 2019, seu pai, que também era cartola, foi assassinado por ter admitido boxeadoras no time.

ADVERTÊNCIAS

"Recebi muitas advertências", confessa, ao acrescentar que foi aconselhado a não regressar ao Afeganistão. Durante o primeiro regime taleban nos anos 1990, o boxe foi proibido por "ser contrário à dignidade humana". Atualmente, não há qualquer decisão oficial sobre o futuro dos esportes no país. Recentemente, dezenas de atletas afegãos fugiram, em especial as equipes femininas de futebol e basquete, o que suscitou a ira dos talebans.

"Espero que todos os responsáveis de federações que ainda estão no exterior retornem ao país para viver conosco", disse Nazar Mohammad Motmaeen, o responsável de esportes nomeado pelos talebans no Afeganistão. Hameedi, por sua vez, reconhece que a vida no exílio não é fácil. "É uma história dolorosa, ninguém quer deixar seu país."

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