Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Campeã de kung fu se afasta da seleção brasileira por falta de dinheiro

Atleta trabalha como manicure em salão de beleza no horário comercial

Anita Efraim, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2017 | 07h00

Quem vê Rosana Neves durante o horário comercial no salão de beleza em que trabalha como manicure, não imagina que ela é campeã panamericana de kung fu tradicional. À noite, ela põe o uniforme e se preocupa em fazer o melhor treino possível. No esporte há 33 anos, a atleta coleciona medalhas e troféus e convocações para a seleção brasileira, além de ser instrutora e altamente graduada. No entanto, em 2017, Rosana teve de pedir para ser afastada da seleção por falta de dinheiro.

“Existem três campeonatos super importantes [em 2017], o Pan, o Sul-americano e o Mundial na China. Eu passei na peneira entre diversas atletas. Mas, por falta de dinheiro para viajar, para me custear, eu acabei mandando um email pro técnico dizendo que eu ia ficar desvinculada da seleção neste ano por falta de oportunidade”, explica a manicure de 44 anos.

Rosana se emociona ao relembrar do Panamericano de Kung Fu de 2015, no Brasil, quando conquistou a medalha de ouro. “Eu nem imaginei, ainda ganhei por desempate, ainda ganhei no meu País, foi muito legal! É uma conquista grande”, relembra.

Por outro lado, ela lamenta ficar fora da competição em 2017, que será na Costa Rica, em julho. “É Brasil… A gente vê que não tem apoio. Você traz títulos importantes para o País, representa, chega aqui e parece que nada aconteceu”, desabafa. Nos 11 anos em que treina, apesar do bom desempenho, ela nunca teve patrocínio.

Mayara Rios, 33 anos, e Tamara Gonzaga, 28 anos, que treinam com Rosana, também sentem que falta apoio e incentivo para a modalidade. As três "bancam" toda a prática do próprio bolso. Até os treinos da seleção brasileira, se quiserem participar, elas têm de pagar.

Tamara, que treina desde 2004, lembra que há alguns anos deixou de ir ao Mundial da China por falta de dinheiro. Em 2015, no Pan do Brasil, conseguiu o segundo lugar em sua categoria e, por isso, conquistou uma bolsa-atleta, motivo pelo qual conseguirá ir à Costa Rica este ano.

Há pouco tempo no esporte, Mayara já percebeu que é difícil encontrar apoio. “As pessoas são muito boas e, às vezes, elas realmente têm que trabalhar, tem que ter vidas paralelas e não conseguem treinar o necessário”.

A atleta explica que são elas quem têm de pagar seus uniformes, as armas que usam, a participação na federação, participação em campeonatos e outros gastos.

Marcio Augusto Ferreira, o shifu, isto é, o mestre da academia em que as três treinam, reconhece o esforço das alunas e lamenta que falte apoio. “Se eu tivesse condições financeiras eu ajudaria as minhas alunas a irem para a competição. A gente fica muito chateado, porque são pessoas que se dedicam, se esforçam, e que, acima de tudo, estão fazendo algo muito positivo para nossa bandeira, pro País”, pondera.

Mesmo com as dificuldades, Rosana, Tamara e Mayara sentem muita gratidão pela modalidade. A primeira diz que aprendeu a ser uma pessoa mais paciente depois de começar a praticar a arte marcial: quando está nervosa conta até dez em chinês e segue em frente.

Tamara, que sofria de fobia social e teve dificuldade para começar a competir, conseguiu enfrentar o medo e percebe como o kung fu a ajudou na vida pessoal. “Hoje em dia eu superei isso, então, eu tenho mais facilidade de falar com o público”, diz.

Mayara, chamada de irmã caçula pelas companheiras de treino, afirma que aprendeu a ser mais humilde. “Eu sou muito competitiva e perfeccionista. No kung fu parece que nunca está perfeito. É uma busca eterna da perfeição, da beleza, é realmente um esporte que para você ficar bom tem que ter realmente muita perseverança”, opina.

Tudo o que sabemos sobre:
Kung FuBrasilKung Fu

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.