Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Com entidade cheia de problemas, boxe pode ficar fora dos Jogos de Tóquio-2020

Associação Internacional de Boxe, que cuida da modalidade, é tomada por suspeitas de compra de resultados, fraude e lavagem de dinheiro

Jamil Chade, correspondente na Suíça, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2018 | 06h06

Em sua cidade natal, na região do Valais, na Suíça, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter confessou ao Estado em 2014 que cada vez que se encontrava com presidentes de federações de outros esportes, seus colegas dirigentes o agradeciam. "Eles me diziam que eu atraia toda a atenção da imprensa mundial para os problemas da Fifa e, assim, os jornalistas os deixavam em paz", contou.

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Joseph Blatter, de certa forma, tinha razão. Pelo menos se a referência for a Associação Internacional de Boxe (AIBA, na sigla em inglês), também com sede na Suíça, e que vive a pior crise de sua história. A entidade está sob a ameaça de ver a modalidade presente nas Olimpíadas desde 1904 ser excluída dos Jogos de 2020, em Tóquio, no Japão, pelo COI.

O caos na administração do pugilismo se tornou evidente em meados de 2016. Wu Ching-Kuo, o taiwanês que ocupava a presidência desde 2006 e que chegou a ser um dos inspetores do Rio-2016, passou a ser acusado de má gestão por ter levado a entidade à beira de uma falência e por uma série de escândalos em resultados dentro do ringue. Seus opositores tentaram promover um impeachment, mas o resultado foi uma guerra interna na associação que acabou envolvendo a polícia suíça e os tribunais.

A crise eclodiu depois de suspeitas de corrupção envolvendo o torneio de boxe, durante os Jogos de 2016 no Rio de Janeiro. Indícios apontaram que executivos da AIBA poderiam ter feito parte da compra de resultados de lutas, inclusive em disputas de medalhas. Na época, a entidade negou qualquer irregularidade.

Em 2017, a auditoria KPMG ainda se recusou a chancelar as contas da AIBA e uma dívida de US$ 15 milhões foi descoberta, sem razão comercial que se justificasse. Um banco do Azerbaijão também acabou levando um calote de um empréstimo que havia feito à entidade. Mas, pelo menos naquele momento, o mundo do pugilismo já não precisava mais contar com WU e o italiano Franco Falcinelli assumiu interinamente a organização.

O que parecia ser o final de uma crise acabou se transformando apenas no início de um processo ainda mais rocambolesco. Em janeiro, a AIBA foi surpreendida pela decisão de Franco Falcinelli de abandonar o seu cargo, deixando a entidade para seu vice, o Gafur Rakhimov, que assumiu no último dia 27.

Mas o novo dirigente tinha problemas ainda mais sérios. Em dezembro de 2017, o Tesouro dos Estados Unidos congelou todos os seus bens. O motivo: o novo presidente da AIBA seria um dos maiores contrabandistas de heroína do Usbequistão.

"Rakhimov tem passado da extorsão e roubo de carros para se transformar num dos principais criminosos do Usbequistão e um ator importante no comércio de heroína", declarou o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, onde ele é acusado de roubo, pagamento de propina, lavagem de dinheiro e extorsão.

Morador de Dubai, Gafur Rakhimov passou a ser proibido de viajar, inclusive para visitar a sede da entidade que ele preside. Para manter as suas operações, a AIBA optou por realizar suas reuniões de seu conselho nos Emirados Árabes Unidos, no final do mês passado.

O alemão Thomas Bach, diante do caos em um dos esportes mais tradicionais do movimento olímpico, optou por lançar um alerta claro no último final de semana: ou a entidade entra nos trilhos até abril ou o boxe ficará de fora dos Jogos de 2020, em Tóquio.

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