Reprodução/UFC Brasil Twitter
Reprodução/UFC Brasil Twitter

'Estou indo buscar o que é meu', diz Charles do Bronx sobre cinturão do UFC

Lutador disputará título da categoria peso leve contra o americano Michael Chandler no dia 15 de maio, em Houston

Lucas Melo, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 15h00

O sonho do menino humilde, nascido e criado em comunidades do Guarujá, no litoral de São Paulo, está próximo de se tornar realidade. Foram anos de dedicação e desconfiança até chegar à disputa do cinturão da categoria peso leve (até 70,3 kg) do Ultimate Fighting Championship (UFC). Para conquistar o que busca desde 2008, quando estreou profissionalmente no MMA ao vencer Jackson Pontes por estrangulamento no Predador FC 9, Charles ‘Do Bronx’ de Oliveira, 31 anos, precisa derrotar o americano Michael Chandler no dia 15 de maio, no Toyota Center, em Houston, nos Estados Unidos na luta principal do UFC 262.

O adversário do brasileiro é ex-campeão do Bellator, tem um cartel de 22 vitórias e cinco derrotas e, em sua primeira luta no UFC, em janeiro deste ano, conquistou a performance da noite ao derrotar o australiano Dan Hooker por nocaute técnico ainda no primeiro round.

“Vou falar uma coisa de verdade: ele é ex-campeão do Bellator, chegou no UFC com todo nome, mas pegou um cara que só andou para trás. Eu venho de oito vitórias seguidas. Sou melhor em pé e no jiu-jitsu. Ele pode ter um wrestling melhor que o meu, mas é uma luta muito boa para mim, estou feliz. Para esse confronto vou levar ousadia e alegria para o octógono”, disse Charles ao Estadão.

O guarujaense chegou ao UFC em 2010 após uma sequência de 12 vitórias em eventos como Predador FC, Ring Of Combat, First Class Fight e outros. Dentre estes triunfos, Charles venceu por decisão dividida dos árbitros apenas contra Eduardo Pachu. Nos demais confrontos, vitórias por finalização ou nocaute.

A primeira luta no UFC foi contra o americano Darren Elkins; e Charles venceu aos 41 segundos do primeiro round, finalizando o adversário com uma chave de braço, performance que lhe rendeu o prêmio de finalização da noite. Após a apresentação de estreia e uma outra vitória contra o mexicano Efrain Escudero, o brasileiro passou a ser visto como uma promessa da modalidade, porém decidiu ir para a categoria dos pesos-penas (até 65,8 kg) após duas derrotas e uma luta sem resultado.

Na nova categoria, o brasileiro teve a seguinte sequência: duas vitórias, duas derrotas, quatro vitórias, uma derrota, uma vitória e duas derrotas, momento em que decidiu votar para a categoria dos leves. “Comecei na categoria dos leves e depois mudei para o peso pena e o UFC meio que me obrigou a subir de categoria novamente. Eu relutei, mas comecei a me encontrar, a ficar mais forte e agora estou na minha categoria de origem”, explicou Charles.

A reestreia entre os leves ocorreu em abril de 2017, quando finalizou o americano Will Brokes com um mata-leão ainda no primeiro round, ganhando o prêmio de performance da noite. Na luta seguinte, que aconteceu no mesmo ano, o lutador conheceu sua última derrota no UFC ao ser nocauteado com cotoveladas pelo americano Paul Felder no segundo round. De lá para cá são oito vitórias seguidas, sendo que apenas na última, contra Tony Ferguson, a decisão ficou para os árbitros.

Mesmo em seu pior momento no UFC, quando teve três derrotas em quatro confrontos entre 2015 e 2016, o lutador brasileiro nunca teve medo de perder o contrato. “Nunca temi ser mandado embora do UFC, porque toda vez que perdi foi na guerra. Na luta contra o Cub Swanson estourei o ligamento da coxa faltando 15 minutos para a luta e me perguntaram se eu subiria no octógono ou não. Eu disse que iria lutar como homem e poderia falar que não lutaria, mas mesmo assim fui assim e lutei. Sempre saí na porrada, intercalei vitórias e derrotas, mas sempre dando o meu melhor”, contou Charles.

Para a disputa do cinturão, o atleta tem se empenhado e mostrado tranquilidade durante sua preparação, que é acompanhada por profissionais como médico, fisioterapeuta, nutricionista, preparador físico, professores de muay thai, boxe, jiu-jitsu, wrestling e natação. E além de Michael Chandler, Charles e sua equipe precisam se preocupar ainda com a covid-19, para que a doença não altere a programação dos treinamentos e até mesmo da luta.

“Saio de casa 6h, treino em São Paulo durante o dia na academia Chute Boxe Diego Lima e volto ao Guarujá para treinar musculação ou na piscina à noite. Quase toda semana minha equipe faz teste de covid-19, temos de nos cuidar, porque se um estiver infectado vai prejudicar todo o trabalho. Máscara e álcool em gel o tempo inteiro. Gosto de sair para ficar com a família e os amigos, fazer um churrasco, mas infelizmente agora não dá”, ressaltou Charles.

Desde o início da pandemia, o brasileiro fez duas lutas sem público, uma em Brasília, onde finalizou com uma guilhotina o americano Kevin Lee, e outra em Las Vegas, na vitória por decisão unânime contra o também americano Tony Ferguson. Para a disputa do cinturão em maio, a previsão é que haja público em Houston, já que o UFC divulgou recentemente a volta total de público para o UFC 261, que terá três disputas de cinturão e será realizado no dia 24 de abril, em Jacksonville. “É bom a luta sem torcida porque dá para escutar o corner falando, consegue ouvir qualquer coisa, mas prefiro com o público gritando, motivando, gosto do calor da torcida, até se estiver sendo vaiado”, disse o brasileiro.

Charles é considerado por especialistas como um dos melhores praticantes de jiu-jitsu no UFC, porém, no início da carreira e após algumas derrotas foi criticado por sua falta de qualidade na luta em pé. Entretanto, durante a atual sequência de oito vitórias, o atleta tem mostrado muita eficiência neste quesito. Ele credita a melhora à mudança de equipe que fez no final de 2016. “Venho mostrando para todo mundo o quanto cresci na luta em pé após minha chegada na Chute Boxe Diego Lima. Me tornei um lutador agressivo e hoje não sou apenas o Charles do jiu-jitsu, mas um atleta completo e estou mostrando isso luta após luta”, explicou.

A disputa do cinturão dos leves entre Charles do Bronx e Michael Chandler foi marcada quando o cinturão da categoria ficou vago após o russo Khabib Nurmagomedov anunciar a sua aposentadoria e não voltar atrás em sua decisão, mesmo depois de tentativas do chefe do UFC, Dana White

Sobre a expectativa para a grande luta pelo cinturão, Charles afirma que está tranquilo e sobre favoritismo apenas diz que está preparado para conquistar o sonho que busca há anos: “vão subir dois caras lá em cima com o mesmo sonho. Eu nem penso na derrota, mas se ela vier eu vou voltar para casa, vou treinar e chegar de novo. Vou ter outras chances, tenho apenas 31 anos, tudo pode acontecer, mas nem penso na derrota, a minha mente é de campeão e estou indo lá buscar o que é meu. São 11 anos de aprendizado, caí, levantei, escutei que nunca ia chegar e cheguei".

Durante a atual sequência de vitórias, entre o terceiro e o quarto triunfo, o atleta passou a pedir lutas e fazer postagens polêmicas nas redes sociais na tentativa de ser mais valorizado pela organização. “Temos que crescer, evoluir, aprender as coisas. Sou o mesmo Charles humilde de sempre, mas comecei a falar um pouco mais, pedir luta e as pessoas começaram a ver eu pedindo oportunidade, sem menosprezar ninguém”, disse.

Desde que estreou no UFC, mesmo com as vitórias e sendo uma promessa da modalidade, o brasileiro sempre enfrentou a dúvida de especialistas e amigos sobre até onde poderia chegar. “São 11 anos escutando que eu não vou conseguir chegar. Escutei isso de especialistas, dos falsos amigos que vivem falando por aí, mas é normal, faz parte. Quanto mais as pessoas falam que eu não posso, mais me motiva. Quando peguei a última luta faltando 20 dias os caras falaram que eu ia morrer e na minha entrevista falei que iria chocar o mundo. Vocês viram o que aconteceu”, finalizou.

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