Gabriela Sabau/IJF
Gabriela Sabau/IJF

Ex-babá, judoca Maria Portela quer medalha nos Jogos de Tóquio em 2020

Atleta supera obstáculos na vida para liderar ranking mundial em sua categoria. Agora, a ‘raçudinha’ quer mais

Catharina Obeid, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 07h00

Maria Portela precisou aprender desde cedo a superar as dificuldades que a vida lhe apresentava. Ela nasceu no interior do Rio Grande do Sul no fim da década de 1980. Quando tinha apenas seis anos de idade, perdeu seu pai. Sua mãe passou a sustentá-la, com mais três irmãos, sem a ajuda de ninguém. Além de lidar com a morte prematura do pai, a gauchinha que gostava de jogar taco com seus amigos na rua teve de se mudar do local onde nasceu, a cidade de Julio de Castilhos, para a periferia de Santa Maria, a quase 300 quilômetros de distância da capital Porto Alegre. Foi lá que ela teve o seu primeiro contato com o mundo do judô, mesmo sem nunca ter pensado em praticar o esporte.

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“Minha mãe precisou trabalhar de empregada doméstica para sustentar todos nós”, diz hoje Maria Portela, que, aos 30 anos, se tornou uma das principais judocas do País em atividade e que no último mês conquistou a medalha de ouro no Grand Slam de Ecaterimburgo, torneio realizado na Rússia.

Ainda na infância, para ajudar sua mãe, Sirlei, que passava a maior parte do dia longe de casa no trabalho, a judoca passou a dividir o seu dia a dia entre os estudos e as tarefas de casa. “Ela também começou a trabalhar de empregada doméstica para sustentar todos nós”, conta a mãe cheia de orgulho. Dois anos mais tarde, aos oito anos, Maria passaria menos tempo em sua casa de madeira, com goteiras, para começar sua trajetória no esporte. O convite partiu de um projeto social chamado “Mãos Dadas” e chegou até ela pela coordenadora da instituição, Aglaia Pavani.

Mesmo com pouca idade, a menina viu no judô uma chance de ouro para mudar de vida. “Eu sempre tive esse sonho de participar de uma Olimpíada, mas não sabia como”, conta. Determinada a seguir sua ambição, ela se mudou de cidade em cidade e passou a trabalhar como babá de duas crianças para conseguir pagar as despesas para viver em Santa Catarina, primeiro em Criciúma, depois em Joinville e, por fim, na capital Florianópolis. “Foi nesse momento que o judô parou de ser brincadeira pra mim e passou a ser coisa séria”, admite a gaúcha. No Estado vizinho ao seu, ela cuidava dos bebês durante parte do dia e com o dinheiro conseguia se manter, além de treinar duro após o expediente de trabalho.

Suas lutas nos tatames chamaram a atenção de gente graúda no esporte e as portas foram se abrindo – ela diz que “as pessoas certas foram aparecendo” em sua vida. Mudou-se para São Paulo e passou a treinar no Centro Olímpico, onde teve a orientação de Henrique Guimarães, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996. Ela ainda passou a dividir o tatame com competidores consagrados, como o bicampeão mundial João Derly. Maria se refere aos dois como “anjos” que a ajudaram a chegar à seleção, em 2007. “Na verdade, depois que eu entrei na seleção, as maiores dificuldades começaram a surgir”, relembra “Raçudinha”, apelido dado por Derly pela maneira como age quando está no tatame.

Com 1,58m de altura, Maria Portela hoje tem consciência do que a atrapalhou: a convivência com a insegurança. “Eu sou a mais baixa da minha categoria, então tive que me encontrar nisso. Por muito tempo eu me cobrei muito e me comparei com as minhas colegas”. Além disso, seleção é rendimento, como ela faz questão de lembrar. E as competidoras eram ainda mais altas fora do País. Então as derrotas começaram a se repetir. Sempre em momentos decisivos, batendo na trave. “Era sempre por um shidozinho (punição do judô). No Mundial a luta que eu perdi para a japonesa foi por isso. Na Olimpíada do Rio também”, analisa.

O Mundial de Judô que ela se refere foi em setembro do ano passado. Depois da derrota na busca do bronze, Maria se cansou e procurou ajuda. Desde então tem tido o acompanhamento de sua coach Nell Salgado e já sente grandes diferenças. “Eu acho que isso me deu tranquilidade porque a ânsia de querer provar que tinha potencial, que eu tinha condições de lutar, me atrapalhava”, conta ela.

O fator psicológico tem dado certo. Nos últimos seis meses, Maria já conquistou dois ouros: um World Masters de 2017, além do Grand Slam de Ecaterimburgo. A medalhista vem de nove vitórias seguidas e também conquistou algo que ela admite nunca ter imaginado, o primeiro lugar no Ranking Mundial da Federação Internacional de Judô em sua categoria, peso médio feminino (até 70kg). “Eu fiquei muito feliz, tive vontade de sair correndo e gritando, mas sei que o maior desafio agora é manter essa liderança. Para isso só tem um jeito: ser constante. Então meu foco agora é na próxima competição, o Grand Prix de Honhot, na China”, comentou a judoca.

O próximo passo é o Mundial em Baku, no Azerbaijão – ela sabe que vai ser difícil. Afinal, já participou de seis edições. “Mas tenho certeza que se eu fizer tudo do jeito que estou treinando e me mantiver tranquila, a medalha vai ser uma consequência”, analisa, cheia de confiança e com um sorriso no rosto. Depois disso ela só pensa em uma coisa, no maior sonho de todos. “Meu sonho? Essa pergunta é fácil (risos)... quero ser medalhista olímpica. A dourada ainda é melhor, né? É para isso que eu trabalho todos os dias. Para 2020, em Tóquio.”

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