Federação Libanesa de Judô
Federação Libanesa de Judô

'O Brasil está investindo apenas em alguns atletas do judô'

Atleta se naturalizou libanês para competir mais vezes e, segundo ele, ficar mais próximo da Olimpíada

Entrevista com

Nacif Elias - judoca brasileiro naturalizado libanês

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 04h30

Nacif Elias soma seis medalhas de ouro em etapas da Copa do Mundo de Judô. Ele é brasileiro, mas se naturalizou libanês em 2009. Ele decidiu trocar de bandeira porque, no Brasil, não lutava a quantidade de competições necessária para se manter no ranking mundial. Em entrevista ao Estado, o judoca da categoria meio-médio (até 81 kg) conta que seu sonho é conquistar o ouro no berço da modalidade nos Jogos de Tóquio no ano que vem. 

Por que você decidiu se naturalizar libanês?

O presidente da Federação Libanesa, François Saade, me procurou em 2009 para lutar os Jogos da Francofonia nos países que falam a língua francesa. Como não era um evento da Federação Internacional de Judô, o Brasil me liberou. Fui medalha de prata. Depois fui lutando outros eventos não-oficiais que o Líbano me chamava. Em 2013 eu me naturalizei libanês. Nessa época, eu era atleta do Clube Regatas Flamengo e tinha acabado de ser medalha de bronze na Copa do Mundo da Hungria, lutando pelo Brasil. O Líbano me fez a proposta de me naturalizar e tentar concorrer uma vaga para às Olimpíadas 2016. Como representante do Brasil, eu não estava lutando a quantidade de competições que eu necessitava para me manter no ranking mundial. Além disso, meus bisavós são libaneses. Por isso, eu resolvi me naturalizar libanês.

Quais foram seus principais resultados?

Tenho seis medalhas de ouro em etapas de Copas do Mundo, fui vice-campeão dos Jogos Asiáticos, vice campeão asiático, 7º colocado do Campeonato Mundial, Campeão dos Jogos da Francofonia, bronze nos Jogos Árabes e bronze no Grand Prix de Cancun.

Quais seus planos para 2019? E para Tóquio 2020?

Conseguir uma medalha no Campeonato Mundial, que será em Tóquio. Em 2020, o foco será apenas às Olimpíadas. Por enquanto estou ranqueado, quero manter meu ranqueamento olímpico para estar classificado para às Olimpíadas. Espero trazer uma medalha de ouro lá dentro do berço de judô, que é o Japão, e ser campeão olímpico!

Outros judocas brasileiros também estão se naturalizando. Como você avalia esse movimento?

Acredito que o Brasil está investindo apenas em poucos atletas, e as pessoas vão se naturalizando pelas oportunidades que surgem. Estando na Europa, você tem a possibilidade de participar de mais competições. A evolução será enorme, e a probabilidade de ganhar medalhas é maior ainda. Na seleção brasileira, o atleta faz apenas quatro ou cinco competições ao ano. Em uma seleção europeia, o atleta consegue fazer até oito competições por ano. A chance de “medalhar” é maior.

Como melhorar essa situação?

Acredito que poderiam ocorrer mudanças no Brasil, como a criação de uma base na Europa ou por meio de parcerias com clubes ou federações europeias, em troca de alojamento e alimentação para o custo não ficar muito alto. Com isso, os atletas brasileiros poderiam fazer treinos e competir mais. Por falta de recurso, às vezes acaba investindo mais em um atleta do que em outro. Por conta disso, o atleta acaba indo para outro país que dê mais oportunidade. O Brasil precisa de mais investimentos nos atletas. O Brasil tem muitos atletas de qualidade que só precisam de uma boa gestão e um bom investimento. Está na hora também de trazer técnicos de fora para o Brasil, técnicos europeus, russos, até mesmo coreanos, por exemplo, e não apenas técnicos do Japão. Creio que ia fazer a diferença e o Brasil voltaria a ganhar medalha de ouro no masculino em Campeonatos Mundial e Olimpíadas, pois faz mais de 10 anos que o Brasil não ganha medalha de ouro no masculino. A última foi em 2007. Essa é só minha opinião, mas tenho todo respeito e não desqualifico a comissão técnica atual.

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