Steve Marcus/ Reuters
Steve Marcus/ Reuters

O 'eu' necessita reconhecimento do 'outro', dizem psicólogas sobre volta de atletas veteranos

Ex-lutadores de boxe, como Mike Tyson e Evander Holyfield, decidem retornar aos ringues após aposentadoria; entenda por quê

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 15h00

O lado psicológico, mais do que o financeiro, é o principal fator para que ex-atletas ou competidores veteranos retomem suas carreiras após um longo período de aposentadoria. Eles sentem falta daquilo que conquistaram em suas vidas esportivas. A análise é da psicóloga Angela Marly de Luca, de 77 anos, formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O astro de boxe, Mike Tyson, é um exemplo disso.

"À medida que as pessoas vão ficando mais velhas e fora de seus meios de atividade, elas perdem seus relacionamentos e sentem falta do reconhecimento na área onde atuou a vida toda e o protagonismo reunido durante essa época. É uma necessidade que 'eu' tenho de ser reconhecido pelo 'outro'", diz.

Para a profissional, essa atitude pode explicar o fato de Mike Tyson (de 54 anos), Evander Holyfield (de 57), Roy Jones Jr. (51 anos), Oscar De La Hoya (47) e até o brasileiro Acelino Popó Freitas (de 44) quererem retornar ao boxe após vários anos longe dos ringues, onde tiveram carreiras de sucesso.

Valéria Macedo, de 51 anos, psicóloga formada na FMU, tem pensamento semelhante ao de sua colega. "O indivíduo quando atinge um sucesso muito grande, ele existe a partir daquilo. Um exemplo: o boxe virou uma identidade para Mike Tyson", afirmou. "Quando essas pessoas saem de cena, muitas ficam perdidas, sem conseguir se recolocar, sem identidade. Claro que tem a situação financeira, mas muitas delas voltam para poder se reconhecer naquela pessoa que deixou de existir quando o esporte ficou para trás." 

A opinião vai de encontro ao que disse Sugar Ray Leonard, um dos maiores nomes da nobre arte em todos os tempos, que em 1997 voltou a calçar as luvas após seis anos de inatividade e perdeu para o portorriquenho Hector Macho Camacho por nocaute no quinto assalto. "É muito difícil você entrar em um ginásio lotado e os holofotes não serem voltados para você", afirmou o ex-campeão dos meio-médios, médios-ligeiros, médios, supermédios e meio-pesados.

Segundo o professor Laercio Bertanha, professor de Educação Física, isso tem a ver também com a "falta de humildade" por parte de alguns atletas que foram grandes campeões e acreditam que ainda podem voltar a dominar suas modalidades após muito anos. É o caso do argentino Sergio Martinez, que lutou sábado passado, venceu o espanhol José Miguel Fandino, por nocaute, no sétimo assalto, e sonha em disputar o título mundial dos pesos médios, que foi seu em 2012. 

O primeiro pugilista a ter êxito e incentivar gerações a retomarem suas carreiras foi George Foreman, campeão por duas vezes dos pesos pesados. Após dez anos sem lutar (de 1977 a 1987), Big George reconquistou o cinturão em 1994, aos 45 anos. Na mesma época, o tenista sueco Bjorn Borg e o nadador norte-americano Mark Spitz também voltaram a competir, mas não tiveram o sucesso de antes.

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