Divulgação/Twitter UFC
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Plano do UFC para coronavírus é cuidadoso, mas a aplicação tem sido irregular

Lutadores não demonstraram grandes preocupações com a possibilidade de contágio pelo novo coronavírus durante o UFC 249

Kevin Draper, The New York Times

14 de maio de 2020 | 11h00

Minutos depois de derrotar Tony Ferguson na luta principal do UFC 249, na noite de sábado, 9, o primeiro após a paralisação do MMA em razão do coronavírus, Justin Gaethje ficou no octógono, examinando suas mãos ensanguentadas. Dono de socos poderosos, Gaethje estava sendo entrevistado pelo comentarista de televisão Joe Rogan e lançou uma compreensível bravata de gladiador:

“Falei para os meus treinadores lá atrás: ‘Vocês não vão gostar de ouvir isso, mas estou pronto para morrer hoje à noite’”. Naquele momento, a mente de Gaethje estava claramente voltada para suas mãos, e quando Rogan foi apertar uma delas para cumprimentá-lo, Gaethje ofereceu um punho fechado.

Rogan não aceitou e disse “eu não ligo”, agarrando a mão do lutador. “Você que sabe, o sangue não vai te matar, o corona é muito pior”, respondeu Gaethje, abrindo um sorriso.

E este foi o maior evento esportivo dos Estados Unidos em quase dois meses. A longa sombra da pandemia de coronavírus pairava sobre a transmissão no pay-per-view, a qual foi anunciada como uma tentativa de retomar a normalidade no MMA - e empurrar o resto do mundo esportivo na mesma direção. Enquanto as ordens de isolamento social varriam os Estados Unidos, o Ultimate Fighting Championship insistia em superar as forças que haviam derrubado praticamente todas as principais ligas esportivas do país.

Na semana que antecedeu o UFC 249, dirigentes da empresa que promove o evento falaram de um documento de 25 páginas que trazia extensos protocolos de saúde e segurança que a organização seguiria para garantir a saúde dos participantes.

Uma análise das orientações do documento - uma cópia do “Plano de Operações para o Evento de Jacksonville” do UFC obtida pelo New York Times - indica que dirigentes e lutadores do UFC seguidas vezes desobedeceram aos procedimentos descritos, nos dias que antecederam o UFC 249 e na noite do próprio evento pay-per-view.

Em comunicado divulgado nesta terça-feira, o UFC disse que o plano “fornece um roteiro para um ambiente de trabalho prudente, seguro e responsável” para o recomeço das lutas. O comunicado também observou que o plano “não é a soma total de nossos protocolos, os quais incluem exames de sangue e testes de antígenos de anticorpos para covid-19”, e que o UFC faria “atualizações regularmente, de acordo com as principais aprendizagens de cada evento de agora em diante”.

O UFC planeja realizar mais dois eventos esta semana no VyStar Veterans Memorial Arena, com onze lutas em cada card. Todos os três eventos foram aprovados pela Comissão Estadual de Boxe da Flórida. Donald Muzzi, o médico responsável pela comissão do UFC 249, não respondeu a um pedido de comentário.

No sábado, durante o UFC 249, Gaethje e Rogan não deveriam ter se tocado, nem mesmo ficado a menos de um metro e meio de distância um do outro. De acordo com o plano, não deveria haver “nenhuma entrevista cara a cara no octógono pós-luta nem nos bastidores”; em vez disso, as entrevistas deveriam ser conduzidas “via fone de ouvido, com entrevistadores ou comentaristas do UFC, que ficarão em uma zona separada da arena”.

Para encerrar o evento televisionado, Daniel Cormier explicou como Rogan havia recebido permissão para fazer entrevistas que violavam as diretrizes de distanciamento social. “Você deu um chilique antes das lutas”, disse Cormier a Rogan. “É uma loucura. Todo mundo foi testado, estamos todos limpos”.

Um representante de Rogan não respondeu a um pedido de comentário. Esta não foi a única parte do plano de operação que não foi cumprida. O plano proíbe todos os “cumprimentos por contato” e disse que todo o pessoal “será obrigado a usar máscaras faciais e luvas, de acordo com suas funções”, um decreto que Dana White, presidente do UFC, ignorou repetidamente.

Na sexta-feira, após as pesagens oficiais, o lutador Ronaldo Souza participou da encarada com seu oponente, Uriah Hall, e bateu os punhos com White. Segundos depois, a lutadora Michelle Waterson abraçou White antes de encarar e abraçar sua oponente, Carla Esparza.

Poucas horas depois, o UFC anunciou que Souza e dois de seus técnicos haviam testado positivo para o coronavírus nas testagens exigidas pelo plano do UFC 249. Souza, que usava máscara e luvas durante a encarada e o cumprimento com White, ficou de fora do card. Em comunicado, o UFC relatou os três testes positivos e o subsequente cancelamento da luta de Souza como evidência de que seus procedimentos funcionaram.

White acredita que os eventos do UFC podem mostrar que é seguro encerrar o isolamento social e retomar a realização de eventos públicos. Essa crença, pelo menos em parte, parece resultar de sua amizade de longa data com o presidente Donald Trump - que, segundo White, estava encarando o UFC 249 como um modelo a ser seguido.

As principais ligas esportivas americanas, especialmente de esportes coletivos, estão enfrentando circunstâncias muito diferentes das encontradas pelo UFC. Essas ligas têm centenas ou milhares de atletas e outros tantos membros de comissões técnicas e funcionários. Realizam jogos em casa e fora de casa em duas dúzias de estados, cada um dos quais com diferentes ordens dos governos locais. E têm acordos coletivos de 500 páginas com atletas que restringem os termos que podem lhes ser impostos unilateralmente. (Os lutadores do UFC não são sindicalizados).

Depois que a Major League Baseball propôs um plano para retomar a temporada, na segunda-feira, com estipulações que incluíam mudanças na forma como os jogadores são recompensados, o diretor executivo do sindicato dos jogadores de beisebol imediatamente qualificou o plano como fracassado de antemão. No Twitter, o arremessador do Washington Nationals, Sean Doolittle, levantou várias objeções.

O UFC não tem essas preocupações: tem uma significativa vantagem financeira sobre os combatentes, e as críticas públicas ao seu plano de saúde e segurança podem ser silenciadas porque os participantes temem as consequências legais. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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