Alana Holmberg/The New York Times
Alana Holmberg/The New York Times

Aberto da Austrália ofereceu lições inesperadas sobre esportes na pandemia

O objetivo era realizar um importante evento esportivo internacional sem colocar o público em risco. Missão cumprida, mas isto representou desafios imprevistos e enormes e muitas noites sem dormir

Matthew Futterman, The New York Times

24 de fevereiro de 2021 | 11h00

Os organizadores do Aberto da Austrália esperavam que a complexa estratégia de segurança oferecesse lições importantes para o mundo esportivo no tocante à pandemia do novo coronavírus: como realizar um grande evento que atrai multidões sem agravar os riscos à saúde pública.

E o evento de tênis foi realizado - uma coleção de torneios de tênis jogados durante três semanas numa grande cidade de um país que sacrificou muito para diminuir o número de infecções e mortes. Mas como o vírus inevitavelmente fez sua presença ser sentida, direta e indiretamente, o Aberto da Austrália vivenciou dores de cabeça e complicações imprevistas que são um alerta para o próximo grupo que tentar realizar um grande evento esportivo internacional (caso das Olimpíadas de Tóquio).

Contratempos de surpresa são inevitáveis, e não espere fazer muitos amigos. Com o encerramento do Aberto da Austrália na noite de domingo, 21, com Novak Djokovic conquistando seu nono título de campeão de simples, ficou claro que as dificuldades podem durar meses, talvez anos.

Craig Tiley, diretor executivo do Tennis Australia, disse que os organizadores dos Jogos de Tóquio o procuraram pedindo conselhos para a realização das Olimpíadas no Japão, marcadas para começarem em julho. “Apenas desejei a eles, ‘boa sorte’”, disse Craig.

Os problemas começaram mesmo antes de os participantes internacionais viajarem, quando os organizadores do torneio lutaram para garantir que chegassem à Austrália após os cancelamentos de voos. E na Austrália, as já rigorosas restrições de quarentena ficaram ainda mais duras para cerca de 25% dos atletas durante duas semanas. E então, ocorreu um dia inesperado de isolamento e testes de emergência pouco antes do início do evento de abertura. E o lockdown em todo o país, provocado pelas infecções que não tinham nenhuma relação com o torneio, baniu os fãs do Melbourne Park por cinco dias, o que custou aos organizadores a perda de receita da venda de ingressos.

Em meio às mudanças, os envolvidos no torneio tinham a preocupação persistente de que, se algum dos jogadores testasse positivo, o evento teria de ser cancelado, com base no acerto feito pelos organizadores com autoridades do governo para a realização do torneio sem colocar o público em risco, uma perspectiva que significava uma proteção estrita contra uma reintrodução do vírus na região de Melbourne, que havia saído de um lockdown de 111 dias no ano passado e a vida retornou ao que era antes da pandemia.

Os organizadores de algum modo estavam preparados para enfrentar alguns desdobramentos, como uma mudança para estádios vazios no meio do torneio, mas não para outras dificuldades. “Foi implacável”, afirmou Tiley, referindo-se aos problemas quando assistia à semifinal feminina na semana passada, num bunker embaixo da arena de Rod Laver. “Foi uma loucura desde o início.

As autoridades impuseram um lockdown rigoroso para 72 jogadores que estavam a bordo de aviões charter que transportaram 10 passageiros que testaram positivo depois da chegada à Austrália. As novas restrições atingiram os atletas, mesmo depois de testarem negativo para o vírus. Não puderam deixar seus quartos de hotel durante 14 dias antes dos primeiros jogos preparatórios que precedem o Aberto da Austrália. As janelas de alguns desses quartos não podiam ser abertas, o que aumentou a irritação dos jogadores que já não tinham permissão para deixar seu quarto por nenhuma razão.

Os organizadores também dispuseram bicicletas para exercício no caso de alguns jogadores isolados, mas depois de conseguirem mais bikes para os atletas, vieram pedidos similares do resto da equipe uma vez que seu treino estava limitado a duas horas na quadra e 90 minutos no ginásio, por dia. Assim, Tyley teve de conseguir algumas centenas de bicicletas, colchonetes para ioga, pesos e bolas para a prática de exercícios.

Somente uma jogadora testou positivo, Paula Badosa, da Espanha, e os organizadores não puderam fazer muita coisa além de transferi-la para um hotel que também oferece atendimento médico, onde ela permaneceu durante 10 dias sem se exercitar.

Quando a quarentena acabou, mais de 500 pessoas que ali estavam, incluindo muitos jogadores, tiveram de ser testados de novo e permaneceram em seus quartos. O início do campeonato seria dentro de cinco dias e ninguém sabia o que outro resultado positivo poderia acarretar. Felizmente não houve nenhum.

Mas o torneio entrava no seu quinto dia quando um pequeno surto na região de Melbourne levou as autoridades de saúde a colocarem o Estado inteiro de Vitória num lockdown repentino de cinco dias. Mas autorizaram o torneio a prosseguir, sem multidões.

Tiley disse que o Tennis Australia perdeu US$ 25 milhões de receita de ingressos, dinheiro que necessitava desesperadamente porque o público já estava limitado a uma capacidade de 50% e o torneio teve muitas despesas extraordinárias este ano. Diariamente, sem público, mais lonas com o logo do Aberto da Austrália apareceram sobre os assentos na Arena de Rod Laver. Elas eram instaladas tão logo eram entregues pelo fabricante de modo a dar uma aparência melhor ao torneio na televisão.

Mas depois diversos jogadores da primeira linha sofreram lesões - Djokovic e Alexander Zverev jogaram sua quarta de final com seus abdomens enfaixados. Grigor Dimitrov sofreu lesão nas costas e não disputou o jogo das quartas de final contra Stefanos Tsitsipas. Alguns jogadores responsabilizaram a quarentena e o treinamento limitado.

Uma organização com um plano aparentemente seguro para manter todos protegidos teve de lutar para levá-lo até a reta final. Tiley disse que valeu a pena porque ninguém pode dizer com certeza que tudo estará bem daqui a um ano. Os desafios e a necessidade de ajustes ao longo do caminho ocorrerão com todos no mundo esportivo ainda por um tempo.

“Você pode escolher entre jogar e seguir em frente, não importa o que terá de enfrentar, ou ficar em casa e treinar e é só”, disse Dimitrov. “Todos sabemos o que se passa no mundo; sabemos o que vem ocorrendo em cada país. É duro. Muito inquietante. A vida fica difícil para muitos, não apenas para nós, atletas, mas para as pessoas em todo o mundo”. / Tradução de Terezinha Martino

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