Kena Betancur / AFP
Kena Betancur / AFP

Adolescentes estão tomando conta do tênis e isso pode não acabar bem

Leylah Fernandez, Carlos Alcaraz e Emma Raducanu empolgam no US Open, mas se o passado for o prelúdio, tormentas estão por vir

Matthew Futterman, The New York Times

09 de setembro de 2021 | 10h00

Foi uma corrida e tanto para os adolescentes no U.S. Open, especialmente para um trio cativante e de olhos brilhantes que transformou o Billie Jean King National Tennis Center em seu playground pessoal.

Como jovens corretores que ainda não viram o mercado em baixa, Emma Raducanu, Leylah Fernandez e Carlos Alcaraz estão experimentando o melhor da vida no tênis: jogo após jogo com multidões efusivas que gritam seus nomes e pedem selfies, passadas que atingem o fundo da linha e a liberdade de balançar suas raquetes em um momento em que não têm nada a perder, porque ninguém esperava que ganhassem nada.

E, no entanto, eles não precisam olhar muito longe para ver que, rapidamente, tudo pode sair dos trilhos. "Segurem a onda, é uma longa jornada", afirmou Shelby Rogers, americana que foi superada por Raducanu nas oitavas de final, sobre qual conselho daria aos três adolescentes quando o U.S. Open terminar.

Há três anos, Naomi Osaka tinha acabado de sair da adolescência quando irritou Serena Williams para vencer esse torneio. Três anos, três títulos do torneio Grand Slam, aproximadamente US$ 20 milhões (R$ 105 milhões) como prêmio em dinheiro e dezenas de milhões de patrocínio mais tarde, o campeonato terminou para Osaka com a derrota para Fernandez seguida por um anúncio choroso de que ela tiraria uma licença indefinida do tênis. Na segunda-feira, Iga Swiatek, a estrela polonesa que ganhou Roland Garros em 2020 aos 19 anos sem perder um set, passou grande parte do jogo em que foi derrotada por Belinda Bencic, da Suíça, gritando com seu técnico e com o psicólogo esportivo que viaja com ela.  

Agora já se sabe que o tênis tem a tendência de devorar seus novatos como poucos outros esportes. Gerenciar a vida como uma jovem estrela em um torneio de tênis é um teste físico e mental que pesa para quase todo tenista em algum momento, especialmente para aqueles que se destacam cedo e de repente, precisam competir em alto nível toda vez que entram na quadra.

Um sistema de classificação coloca um número em cada nome, fazendo com que os tenistas e o mundo saibam claramente quem deve ganhar cada partida. Pagamentos garantidos dos patrocinadores podem aliviar o fardo de jogar pela sua próxima refeição ou passagem de avião. No entanto, esses contratos frequentemente contêm um bônus de incentivo para quem vence os torneios e sobe na classificação. Há um entendimento implícito de que o contrato será, na melhor das hipóteses, reduzido e, na pior, não será renovado se os tenistas não mantiverem um certo nível de desempenho.  

A atenção, de milhões de fãs, mas também da família, funciona em dois sentidos, os psicólogos do esporte dizem, especialmente em um esporte que tem muitos pais como técnicos. A mãe de Fernandez teve lugar na primeira fileira para as reviravoltas de sua filha com Osaka e Angelique Kerber, a ex-número 1 do mundo. Ela inclinou-se e gritou quando Fernandez fez os pontos mais importantes. O sucesso naturalmente traz esse tipo de entusiasmo, mas também pode provocar o medo de que o amor sumirá se as vitórias pararem.

O pai de Fernandez, Jorge, também é seu técnico. Ele está em casa na Flórida com sua irmã mais nova, ela disse, mas liga todo dia com um plano para o próximo jogo, "só para me dizer o que fazer no dia anterior, e então ele confia em mim e no meu jogo, confia que vou jogar da melhor forma que puder."

Eles podem não estar demonstrando equilíbrio sob pressão como nas partidas em que jogam sem pressão, quando se sentem livres e sem medo de não corresponderem às expectativas.

"Acho que são só os jovens" que podem jogar assim, disse Kerber, no domingo após Fernandez derrotá-la em três sets com intensos forehands e destemidos saques no canto da área. Kerber, 33, ganhou três títulos do Grand Slam e foi a nº1 até 2017. Por vários anos, enfrentou lesões, inconsistências e a ideia de que ainda deveria estar no topo do esporte. "Jogar completamente sem pressão nessa posição é impossível, mas eu gostaria", ela disse.

Martin Blackman, gerente geral do desenvolvimento de jogadores da Associação de Tênis dos Estados Unidos disse que, nos últimos anos, os adolescentes mais velhos e mais desenvolvidos fisicamente começaram a evitar torneios juniores, para não se arriscarem em eventos profissionais com um nível menor, enquanto ainda buscavam um equilíbrio entre competição, treino e descanso. "Então eles entram no radar e surgem no grande palco", disse.

Nada pode garantir que não venham a sucumbir aos desafios do jogo - estando na estrada por meses a fio, correspondendo às altas expectativas e lidando com as perdas inevitáveis e os problemas físicos. "É uma perspectiva perigosa", David Law, um comentarista de tênis da BBC que trabalhou anteriormente para a ATP Tour, disse no domingo enquanto se preparava para o jogo de Raducanu. "Pode dar errado. Já vimos dar errado". / TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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