Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Argentina supera Brasil em jogo mais longo da história da Davis

Feijão foi derrota por argentino por 3 sets a 2 em quase 7h de jogo

Rodrigo Cavalheiro - Correspondente em Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

08 Março 2015 | 18h21

Na partida mais longa da história da Copa Davis, o argentino Leonardo "Jacaré" Mayer venceu o brasileiro João "Feijão" Souza, por 3 sets a 2 na tarde de ontem e forçou o quinto jogo entre os dois países para saber quem enfrentará a Sérvia nas quartas de final da Copa Davis. As parciais foram de 7/6 (4), 7/6 (5), 5/7, 5/7 e 15/13. Thomaz Bellucci começou a enfrentar Federico Delbonis ontem, mas a partida só terminará hoje por falta de luz natural (o argentino fechou o primeiro set em 6/3).

O protagonista da partida de ontem foi o tempo: 6 horas e 42 minutos e ceú sem nuvens. A combinação fez os dois tenistas chegarem à etapa decisiva do jogo extenuados. O brasileiro salvou 10 matchs points e teve uma vez o jogo na mão se confirmasse o serviço.

Souza (75º) começou o jogo com dificuldade para manter seu saque contra Mayer (29º). Ainda assim, o argentino não conseguiu superar o serviço do brasileiro – desperdiçou uma chance no décimo game. O set foi para o tie break e o brasileiro chegou a animar a torcida verde-amarela com um minibreak. Mas o argentino manteve o aproveitamento no saque e, estimulado pelos gritos de “Jacaré, Jacaré”, fechou o set com uma bola cruzada na linha.

No intervalo, os argentinos lotaram as arquibancadas laterais e ocuparam pela metade as demais no centro de eventos Tecnópolis, na Grande Buenos Aires. A pressão, e os cântigos, eram de estádio de futebol. A intensidade do barulho determinada por uma banda de Tandil, terra do tenista Juan Martín del Potro, que não pôde jogar a série por uma lesão no pulso esquerdo, mas esteve durante todos os jogos na quadra animando a torcida - chegou a discutir diretamente com torcedores brasileiros.

A principal diversão argentina era contar até sete, em alusão à participação brasileira na Copa do Mundo. Os brasileiros, mais silenciosos inicialmente do que na partida de duplas de sábado – quando Marcelo Melo e João Soares colocaram o País na frente na disputa – respondiam gritando Feijão, apelido de Souza.

A vantagem argentina aumentou no segundo set. O brasileiro permitiu a quebra para Mayer. No sexto game, encaixou as encaixou as devoluções e na primeira chance de quebra, igualou o placar. O número 1 do Brasil sofria com o saque do rival e de novo a disputa foi para o tie-break. Souza começou sofrendo uma miniquebra, igualou o game em 5 a 5. O argentino fechou o set depois que o brasileiro pegou mal com a direita.

Quando os comentários nas arquibancadas já eram sobre o jogo seguinte, que definiria a série, Souza reagiu. Depois de solicitar atendimento médico e receber massagens no pescoço e na barriga, o brasileiro volto mais concentrado. Mayer abriu 3/0 no set, mas teve uma queda acentuada no nível do jogo após reclamar de um problema no pé esquerdo e receber dois atendimentos médicos. No sétimo game, Feijão se impôs, chamou a torcida brasileira para gritar e devolveu a quebra. Em seguida, empatou em 4/4.

Parecia que outro tie-break seria necessário, mas Mayer cometou duas duplas faltas consecutivas. Sacando para o set, Souza manteve-se no controle e selou a parcial em 7/5 com uma paralela de direita. A torcida brasileira, que ocupava cerca de 10% das arquibancadas também pareceu acordar, com gritos de "Feijão, Feijão" e "olê, olê, olê, Brasil".

Mais confiante, Feijão aproveitou a queda de rendimento do rival para já começar o quarto set quebrando o saque de Mayer. Diante do mau momento do compatriota, fora de quadra o argentino Carlos Berlocq era o que mais pedia a participação da torcida da casa e se irritava com os brasileiros. Um drone carregando a bandeira do Brasil sobrevoou a quadra, o que causou uma caçada dos organizadores aos donos do aparelho. Mesmo tendo o saque quebrado no sexto game (3/3), contou com um erro do rival no game seguinte para voltar a ter uma quebra de vantagem. Depois de Mayer salvar um set point e conseguir outra quebra (5/5), atacando curto e cruzado para de novo ficar a um game de empatar a partida em sets. Dessa vez o tenista paulista não bobeou, deu lob no adversário de 1m90 (ambos tem a mesma altura) fechou o set.

Mayer equilibrou o jogo no último set, quando já eram os torcedores brasileiros que comentavam como estava tudo "não mão do Brasil". O argentino um break point logo no primeiro game e teve três chances de quebra no oitavo. Argentinos e brasileiros começaram a discutir nas arquibancadas na área em que havia maior concentração verde-amarela e o juiz espanhol interrompeu o jogo. A segurança foi acionada, mas nenhum torcedor foi retirado. Houve pelo menos dois gritos de "macaco" de argentinos contra a torcida brasileira.

O barulho argentino, aos gritos de Jacaré, cresceu quando Mayer fez 0-40 e tinha a vantagem de 5/4 no placar. Pressionado, Feijão forçou o saque, salvou o triplo match point e confirmou o serviço. Na sequência, faturou a quebra que o deixou a um game da vitória. Foi a vez de os brasileiros tomarem conta do ambiente, transformarem a quadra em estádio e cantarem "está chegando a hora". Cantaram tanto que o juiz espanhol interrompeu mais uma vez o jogo para pedir silêncio.

A vitória foi cantada antes da hora, pois Souza desperdiçou a chance de fechar o jogo. Com o quinto set sem tie-break, o vencedor tinha que abrir dois games. Feijão sempre sacou precisando confirmar o serviço para não ser derrotado. Mostrou que a parte mental continuava forte ao salvar dois match points no 18º game. No 24.º, com os dois bastante desgastados, Feijão conseguiu evitar a vitória do adversário em mais quatro match points. "Se nós já estamos cansados, imaginem eles", disse a argentina Mariana Hanono, que via a partida ao lado do namorado Mariano Dayan.

No game seguinte, o 25º, foi a vez de Mayer salvar três break points, atacando no fundo e aproveitando o cansaço do brasileiro. Antes de cada uma das tentativas frustradas, a torcida brasileira gritava "vamos quebrar, vamos quebrar", numa tentativa de reanimar Souza, que já dava sinais de desgaste. Alguns argentinos irritados com o ruído durante os pontos gritavam mais alto para os brasileiros se calarem. A partida chegou ao fim no 28º game, quando o brasileiro salvou o décimo match point e teve a derrota decretada no ponto seguinte, dando fim à mais longa partida da Davis desde que foi instituído o tie-break, em 1989. A primeira reação do capitão brasileiro João Swetsch foi aplaudir Souza, que uma hora depois, em entrevista, disse querer responder poucas perguntas para poder torcer por Bellucci.

As arquibancadas tremeram com os argentinos celebrando e gritando "se comieron siete (tomaram sete)", expressão que rimavam com "les partieron el ojete (uma versão mais agressiva para tomaram no ...)". "Faz parte da rivalidade. Foi um privilégio ter visto este jogo histórico", disse bem-humorado o brasileiro Edson marinho guedes, de 49 anos, construtor de piscinas em São Paulo. Ele comprou a passagem de volta para amanhã e esperava passear por Buenos Aires hoje. "Não sonhava ter que voltar mais um dia, mas tudo bem."

Ao seu lado de seu grupo de amigos, dois argentinos de 16 anos aumentavam o volume dos cantos de futebol agarrados às barras no último degrau das arquibancadas. "Ganhar do Brasil é sempre melhor. Sabemos que eles não entendem quase nada do que cantamos, mas o "siete" eles entendem", disse Tomas Ruderman. Seu amigo, Tomás Doello, reagiu indignado ao ser questionado o nome em comjum os faria torcer pelo xará no jogo que termina hoje. "Torcer por Thomaz Bellucci, nem bêbado. Somos o único país que transforma uma quadra de tênis num estádio de futebol", gabou-se. O classificado do confronto entre Brasil e Argentina enfrentará a Sérvia nas quartas de final da Copa Davis, entre 17 e 19 de julho.

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