Sergio de Castro/Estadão
Sergio de Castro/Estadão

Bellucci sai à caça de pontos em challengers na América do Sul

Depois de despencar no ranking, canhoto de Tietê inicia trabalho com o técnico Pato Clavet em Buenos Aires

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2013 | 07h30

SÃO PAULO - Thomaz Bellucci aparece para a entrevista com a barba por fazer. Depois de perder o contrato de patrocínio com a marca de uma lâmina de barbear, não precisa mais aparecer com o rosto impecavelmente barbeado antes de cada encontro com a mídia.

Amanhã, ele vai perder também o primeiro lugar do ranking brasileiro para Rogério Dutra Silva, que nem precisou ficar entre os cem melhores do mundo para isso. Bellucci vai despencar cerca de 30 posições em relação à 119ª, e será ultrapassado também por João Souza, o Feijão.

Sob nova direção, do treinador espanhol Francisco Clavet, o canhoto de Tietê vai disputar, a partir de hoje, os challengers (torneios de menor expressão, abaixo dos ATPs e acima dos futures) de Buenos Aires, Montevidéu e Bogotá, pois não tem ranking para entrar nas chaves dos torneios maiores. Mais falante do que o normal, às vezes sorridente, o tenista de 25 anos tenta demonstrar confiança em sua tentativa de reerguimento. Responde a perguntas duras dos jornalistas, que querem saber até se se considera um “amarelão”, com tranquilidade, mas mantendo a timidez. Com frequência, evita encarar os interlocutores e olha para a raquete.

Nenhum comentarista se atreve a insinuar que Bellucci não sabe jogar. Ele é o brasileiro a chegar mais longe no ranking da ATP, depois de Gustavo Kuerten, que o liderou. O paulista foi o 21º em julho de 2010, conquistou três títulos da ATP e chegou a derrotar o escocês Andy Murray, que é dono de dois títulos de Grand Slam e de uma medalha olímpica de ouro.

O grande problema de Bellucci, ele mesmo admite, é mental. Trabalho não falta para sua psicóloga Carla di Pierro, que o acompanha em suas viagens pelo circuito. Ela atende o tenista há um ano e meio, e só agora vai começar a tratar dos assuntos relativos à quadra. Nos últimos 18 meses, só lidou com questões extraquadra - reservado, ele se nega a dizer quais são.

Bellucci reconhece que o campo de ação de Carla é limitado.“Psicólogo não faz milagre. É o jogador que tem que achar forças para sair do buraco”.

O périplo pelo mundo dos challengers não será fácil. “Não temos regalias nesses torneios. Nos da ATP, tudo funciona perfeitamente: alimentação, transporte. Os carros vão buscar a gente no hotel no horário certo. Tudo é certinho: você tem suas garrafinhas d’água, seu Gatorade, suas bolinhas. Nos challengers, você precisa se virar”.

Nos challengers sul-americanos, Bellucci já sabe: vai se deparar com jovens tenistas sedentos por qualquer pontinho que possam arrancar para iniciar uma subida no ranking.

“Eles entram com a faca nos dentes para te derrotar, principalmente se souberem que você foi um bom jogador”, diz o tenista, usando o verbo assim mesmo, no passado.

Clavet não acredita que seu pupilo vá permanecer nos torneios menores por muito tempo. “A meta agora é levá-lo a recuperar boas sensações e restabelecer sua confiança. Mas, sem nenhuma dúvida, os objetivos de Thomaz estão postos nos torneios grandes, nos quais já demonstrou que pode competir e vencer”, afirma o espanhol, em entrevista por e-mail.

Se Bellucci não for bem nos próximos challengers e não conseguir vaga entre os 128 que estarão no Aberto da Austrália, deverá encarar de novo o exigente público brasileiro no Aberto de São Paulo, torneio gratuito disputado nas quadras do Parque Villa-Lobos. As últimas lembranças perante à torcida nacional não são das melhores. Em 2012, ele chegou a ser vaiado ao perder uma semifinal do ATP 250 de São Paulo, no ginásio do Ibirapuera, para o italiano Filippo Volandri, e se abalou com isso.

“Lógico que isso magoa. Quando você sai da quadra depois de ter dado o seu melhor e não é reconhecido é duro”.

Bellucci acredita que o nível de exigência da torcida brasileira subiu muito depois de acompanhar o que fez Guga.

“Antes do Guga, o parâmetro era diferente. É como no futebol. Se o Brasil parar na semifinal da Copa do Mundo, vai ser um desastre. Já os uruguaios ficaram em quarto lugar na Copa e viraram heróis nacionais”.

Ele só não aceita que o chamem de amarelão. “A palavra certa não é amarelão. Em jogos de alto nível não se ganha por 6/0 e 6/1. A diferença é de dois ou três pontos. É preciso jogar bem no 40/40. Nessa hora tem que ter calma, porque a pressão é grande. Se você erra, podem te chamar de amarelão, mas não concordo. Entrar em quadra envolve muita personalidade. Se eu fosse amarelão, nem entraria”.

De certa forma, a má situação no ranking encoraja Bellucci. “Pior do que estou, só se me machucar e parar de jogar. Este ranking não combina com o meu jogo. Acho que posso melhorar até além do 21º lugar”.

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