Wilson Pedrosa/Estadão - 11/06/2000
Wilson Pedrosa/Estadão - 11/06/2000

Biografia de Guga preenche lacuna de informações

Livro contém relatos que o melhor tenista do Brasil ficou devendo por ter relacionamento distante com a imprensa

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2014 | 07h00

 O lançamento da biografia do tenista Gustavo Kuerten (Guga - Um brasileiro, Editora Sextante) nesta quarta-feira, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na avenida Paulista, tornou ainda mais movimentado um lugar que já recebe bom afluxo de pessoas em qualquer dia da semana. Após apresentar o livro aos jornalistas, o tenista "foi pra galera". Quando apareceu na mesa reservada para rabiscar seus autógrafos, ouviu uma ovação digna de Ibirapuera lotado. Muitos admiradores apareceram com o traje imortalizado pelo catarinense na edição de 1997 do Torneio de Roland Garros, a nada discreta camisa listrada de amarelo e azul da Diadora.

Como a fila era interminável, alguns leitores aproveitaram para colher autógrafos de dona Alce Thümmel Kuerten, mãe de Guga e autora do prefácio. "Gente, eu não sou artista, preciso voltar para casa pra cuidar dos meus netos".

O livro, escrito pelo jornalista Luís Colombini e "retocado" pelo próprio Guga, tem texto bem cuidado e fluente. Ele supre uma lacuna de informações aberta pelo tratamento distante que o tenista dispensava à imprensa nos anos em que esteve no auge, sob a orientação do arredio e esquivo treinador Larri Passos.

O ex-número 1 do mundo salienta que o livro não é de autoajuda, mas contém passagens emocionantes, como o trecho em que Larri Passos revela ao pupilo, na viagem entre Paris e Bolonha, após a conquista de Roland Garros, a responsabilidade que assumira junto ao pai do jogador, Aldo Kuerten.

Trecho:

De madrugada, indo de avião para a Itália, não consegui dormir. Ainda me sentia no meio de um sonho. Ficava rememorando tudo para me convencer de que era verdade, tentando abrandar a euforia para encadear os pensamentos. Larri estava de olhos fechados. Dei-lhe uma pequena cutucada.

- Tá dormindo?

- Não - ele respondeu.

- Só queria te agradecer por tudo que tu fez por mim.

- Guga, lembra do churrasco que teu pai preparou para me pedir para te treinar?

- Claro.

- Tu não passava de uma criança. Naquele momento, falei que não era a hora, mas prometi que, quando tu crescesse, eu me encarregaria de ti. Sabia disso?

- Não.

Então Larri emendou uma revelação na outra, deixando claro como se sentia em relação a essa questão:

- Estou aqui e vou ficar. O dia em que Aldo morreu se tornou um marco na minha vida. Eu não podia quebrar a promessa que fiz a ele. Tinha que completar a missão que ele me deu. Por isso hoje somos campeões. Por isso é que ainda vamos muito longe.

Memoráveis passagens esportivas, como o jogo em que encarou Pete Sampras de igual para igual, na final de Miami, em 2000, também tornam o livro imprescindível para um fã de tênis.

Trecho:

Encarar Sampras no auge era realmente um negócio complicadíssimo. O cara era mesmo um fenômeno, sabia todos os truques, não existia mais mistério para ele numa quadra. Mas, agora que eu tinha encontrado uma brecha, ia ficar grudado no pescoço até o final. Cada vez mais empolgado por estar conseguindo competir com um dos maiores gênios da história do tênis, atingi um daqueles níveis iluminados. A partida ficou sensacional, um duelo de titãs, com a torcida dos dois lados berrando. Parecia que não era mais um jogador contra outro, mas uma batalha entre Brasil e Estados Unidos, uma sensação arrepiante. Perdi o terceiro set no tie-break, com os americanos indo ao delírio. 

 

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