Christian Hartmann/Reuters
Christian Hartmann/Reuters

Cuidado com o tenista Diego Schwartzman, um Davi em meio aos Golias da quadra

Schwartzman está entre os atletas mais baixos da elite do tênis, mas, nessa edição de Roland Garros, ele se tornou um adversário brutal

Matthew Futterman, The New York Times

07 de outubro de 2020 | 10h00

O tênis profissional masculino moderno tem pouco lugar para os mais baixos. O último campeão de um Grand Slam em disputa simples a ter menos de 1,80m foi Gaston Gaudio, da Argentina, que levou a taça de Roland Garros em 2004. Ao longo dos dez anos mais recentes, conforme o tênis se tornou cada vez mais físico, somente dois homens com menos de 1,80 de altura sequer chegaram a uma final dos maiores torneios.

Ainda assim, o homem mais perigoso de Paris no momento (além de Rafael Nadal e Novak Djokovic) pode ser um consistente jogador de fundo de quadra vindo da Argentina chamado Diego Schwartzman, cuja altura documentada como 1,70m deve ser uma das medidas mais generosas do esporte profissional.

“Muito consistente", disse Schwartzman no domingo a respeito do próprio desempenho recente depois de despachar o italiano Lorenzo Sonego em três sets na quarta rodada.

Esse pode ser um dos maiores eufemismos desde a retomada do tênis profissional em meados do ano. Em Roma, Schwartzman realizou um dos feitos mais raros desse esporte nos 15 anos mais recentes: venceu Nadal no saibro vermelho, antes de ser derrotado por Djokovic, o número 1 do mundo, na final do Aberto da Itália. Em Paris, ele venceu cinco de 15 sets por placares de 6-0 ou 6-1. Deu cabo de Sonego em apenas 1 hora e 58 minutos.

“Hoje, Diego foi melhor do que eu", disse Sonego, descrevendo o óbvio depois da derrota por parciais de 6-3, 6-1 e 6-4.

Talvez os pais de Schwartzman soubessem desde cedo que ele poderia brilhar nos esportes apesar da altura, e o batizaram em homenagem a Diego Maradona (1,65m), outro herói de baixa estatura do país deles. Na terça feira, Schwartzman, 28 anos, ganhou do amigo Dominic Thiem, coroado recentemente campeão do US Open e um dos melhores jogadores no saibro, em disputa por vaga na semifinal.

Thiem, que deixou claro seu estado de exaustão depois da maratona que foi a final do Aberto dos EUA, teve que disputar cinco sets no domingo durante a quarta rodada, jogando contra o francês Hugo Gaston, que ocupa a 239.ª posição no ranking. Ao fim da partida, Thiem viu Schwartzman pedalando na bicicleta ergométrica depois de jogar. Thiem se aproximou e fingiu acertar Schwartzman na perna.

Roland Garros costuma ocorrer no fim de maio e início de junho, mas, por causa da pandemia do coronavírus, que fechou praticamente todos os eventos esportivos do segundo trimestre, os organizadores tiveram que adiar sua realização para o início do terceiro trimestre. No mês passado, em Roma, e em Paris nos dez dias mais recentes, as temperaturas têm sido frescas, na casa dos 13˚C.

As temperaturas mais baixas tiveram um efeito significativo no comportamento da bola de tênis, que quica menos no clima mais frio. Além disso, os organizadores do torneio trocaram a patrocinadora da bola (antes Babolat, agora Wilson) este ano, e os jogadores dizem que a mais nova é também mais pesada que a antiga.

Esses fatores se somaram para eliminar as armas mais potentes dos jogadores que apostam em bolas rápidas atravessando a quadra, ajudando um defensor ágil e disciplinado como Schwartzman, que erra pouco e evita entregar pontos ao adversário.

“São condições ruins para os tenistas mais fortes", disse Martina Navratilova, vencedora de 18 títulos do Grand Slam. “Os mais rápidos podem correr atrás da bola, mas jogadores como Nadal são prejudicados.”

Para um jogador pequeno como Schwartzman, uma bola mais lenta é como uma bênção, pois raramente quica para longe do seu alcance e, com uma fração de segundo adicional para preparar suas jogadas, ele pode ser incrivelmente perigoso quando o adversário está sacando.

Dono de uma das melhores respostas ao saque dos tempos mais recentes, Schwartzman castigou Sonego no domingo no seu segundo saque, algo que está se tornando um hábito. Sonego só marcou nove pontos no segundo serviço, aproveitamento de apenas 26%. Conforme os adversários se preparam para sacar uma bola mais lenta e segura, eles sabem que há boa probabilidade de Schwartzman reagir rapidamente com um petardo em alta velocidade rumo à linha de fundo. Norbert Gombos (1,95m) da Eslováquia, vítima de Schwartzman na terceira rodada, foi o único adversário de Schwartzman em Paris a ter aproveitamento superior a 40% no segundo serviço.

Schwartzman já ganhou mais de US$ 8 milhões (cerca de R$ 40 milhões) jogando, mas nunca alcançou o Top 10 e só venceu três títulos da ATP em sua carreira. Mas subiu de posição no ranking constantemente nos quatro anos mais recentes, indo muito mais longe do que seria de se supor em uma era em que a elite do esporte parece ficar mais alta a cada ano.

“Nunca sabemos quando é, de fato, o auge, e não sabemos se um dia chegaremos a outra quarta de final ou semifinal em um torneio de destaque", disse Schwartzman no domingo. “Esses torneios são ótimos. Ganho confiança sabendo que posso melhorar a cada ano, ainda posso me aperfeiçoar.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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