Daniil Medvedev, o tenista russo que chegou para incomodar o circuito mundial

Aos 23 anos, jovem é o principal candidato a destronar Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic

Mateus Silva Alves, especial para o Estado

29 de outubro de 2019 | 11h00

Por essa ninguém (ou quase ninguém) esperava: um russo meio desengonçado, com fama de antipático, de uma hora para outra se tornou o principal candidato a destronar a Santíssima Trindade do tênis masculino, formada pelos já lendários Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic. Aos 23 anos, Daniil Medvedev atingiu nos últimos meses um nível de jogo assustador, e isso sem fazer a menor questão de desempenhar o papel de mocinho do filme. Não há dúvidas de que o rapaz chegou para incomodar. A partir desta terça-feira, ele é uma das atrações do Masters 1000 de Paris.

Medvedev faz parte do que a ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) chama de “Next Gen”, a nova geração do tênis masculino. Trata-se de um grupo de jogadores jovens a quem foi atribuída a missão de desbancar o trio de monstros sagrados – por ora, sem muito sucesso. Até o mês de agosto, quando teve início a temporada norte-americana de torneios em quadras duras, o russo era um dos integrantes menos badalados da “Next Gen”, ofuscado por gente como Stefanos Tsitsipas, Alexander Zverev e Denis Shapovalov. Só que Medvedev não quis esperar a sua vez e decidiu furar a fila.

Nas últimas seis competições que disputou, o jogador nascido em Moscou chegou a seis finais, com três títulos (dos Masters 1000 de Cincinnati e Xangai e do ATP de São Petersburgo) e três vices (ATP de Washington, Masters 1000 do Canadá e Aberto dos EUA). Com isso, deu um salto que o colocou na quarta colocação do ranking mundial, atrás apenas de Djokovic, Nadal e Federer. E com viés de alta.

“Nos últimos meses, ele tem sido provavelmente o melhor jogador do mundo”, testemunhou Zverev, batido pelo russo na final em Xangai.

Esse sucesso todo chegou para Medvedev amparado em um estilo, digamos, incomum. Ele não tem nenhum grande golpe e seus movimentos são um tanto desajeitados – aliás, o próprio russo, que tem 1,98 m de altura, admite que seu jogo não é nada bonito. Mas tem funcionado, e muito.

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Nos últimos meses, ele tem sido provavelmente o melhor jogador do mundo
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Alexander Zverev, tenista alemão

“O que mais me impressionou quando nos enfrentamos foi o fato de ele se movimentar muito bem para o tamanho dele”, comentou Rogério Dutra e Silva, que jogou contra Medvedev em 2016, em um torneio na cidade francesa de Bordeaux. “Já dava para ver naquela época que ele tinha muito talento. É um jogador de muita força, que bate bem de direita e de esquerda, saca bem, enfim, faz tudo bem, é bastante sólido.”

Essa solidez toda é a principal arma de Medvedev. Ele é um jogador que cobre muito bem a quadra, ajudado por sua enorme envergadura, e consegue chegar a todas as bolas, levando os adversários ao desespero. Contra o russo, sempre é preciso bater uma vez mais. Além disso, ele tem demonstrado enorme força mental para não se perder nos momentos mais complicados dos jogos. Mas nem sempre foi assim.

GOSTO PELA ENCRENCA

Medvedev tem fama de “esquentadinho”, e não por acaso. Não foram poucas as confusões em que ele se meteu na carreira, como por exemplo a ocasião em que atirou moedas em direção à cadeira do juiz após uma derrota em Wimbledon, ou a vez em que foi desclassificado de um jogo nos Estados Unidos por fazer comentários racistas sobre seu adversário, o americano Donald Young, que é negro.

Recentemente, o russo declarou que fica feliz quando termina um torneio sem fazer nenhuma bobagem em quadra, mas isso não ocorreu no Aberto dos Estados Unidos. Em uma partida contra o espanhol Feliciano López, ele foi vaiado após um ataque de fúria e fez um gesto obsceno para o público. É claro que Medvedev foi mais vaiado ainda e, depois da partida, o jogador foi sarcástico ao dizer que as vaias deram a ele a força necessária para vencer. Nos jogos seguintes, a história se repetiu: vaias, vitórias e sarcasmo.

Até que ele percebeu que a coisa estava indo longe demais e pediu desculpas ao público americano, fazendo um enorme esforço para ser mais simpático. Deu certo, tanto que Medvedev contou com o apoio de boa parte do público na final, contra Nadal, uma grande partida que ele perdeu no quinto set.

“O que aconteceu em Nova York mostrou uma mudança importante na parte mental do Medvedev”, opinou o treinador e comentarista de tevê Ricardo Acioly. “Eu já havia notado que ele tinha um jogo muito bom, com muita versatilidade, mas ele não tinha a parte mental forte o suficiente para chegar ao topo. O Medvedev perdia muitos jogos para ele mesmo, mas no Aberto dos Estados Unidos ficou claro que a coisa mudou. Mesmo com essa confusão toda, ele foi capaz de se manter focado e vencer muitos jogos. Ele parou de perder para si mesmo.”

Essa, aliás, é uma péssima notícia para seus adversários. Com o jogo que tem, e a cabeça no lugar, Medvedev se torna um grande candidato a ganhar tudo no restante da atual temporada e, principalmente, em 2020, quando terá poucos pontos para defender no primeiro semestre e, portanto, chances reais de brigar para ser o número um do mundo. Ao que parece, o grandalhão desajeitado ainda vai incomodar muita gente por muito tempo.

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‘Medvedev tem uma força mental privilegiada’, diz brasileiro

Marcelo Demoliner jogou quatro torneios em parceria com o russo na atual temporada

Mateus Silva Alves, especial para o Estado

29 de outubro de 2019 | 10h59

Afinal de contas, Daniil Medvedev é mesmo um sujeito antipático e arrogante? Um brasileiro que o conhece muito bem garante que não. Marcelo Demoliner, especialista no jogo de duplas, fez parceria com o russo em quatro torneios na atual temporada e se tornou amigo da nova sensação do tênis masculino, que ele define como uma pessoa tranquila e humilde.

Demoliner, que ocupa atualmente a 47.ª colocação do ranking de duplas da ATP, conta que foi dele a iniciativa para formar a parceria com o russo e que o entrosamento dentro e fora das quadras foi conquistado muito rapidamente.

“No começo do ano, iria jogar na Índia e ele iria jogar em Brisbane (Austrália) com o Zverev, mas o Zverev se machucou e ele ficou sem parceiro. Como o meu parceiro também teve um problema, eu mandei uma mensagem para ele o convidando para jogar comigo, e ele topou na hora. Então fui para Brisbane e nos entendemos muito bem”, relatou Demoliner, que acha injusta a má fama que o amigo carrega no circuito. “Fora da quadra, ele é um menino legal, muito tranquilo, humilde, um cara que escuta bastante o treinador dele.”

Além de Brisbane, Demoliner e Medvedev jogaram juntos em Monte Carlo, Madri e Cincinnati. O melhor que conseguiram foi chegar às quartas de final em Monte Carlo e Madri, mas os resultados não eram exatamente a maior preocupação do russo nas duplas.

“Ele quis jogar duplas para melhorar o voleio, um fundamento no qual ainda tem dificuldade. E eu acho que o ajudei nisso, assim como ele me ajudou a entrar em alguns torneios. Foi uma troca bem legal”, disse o gaúcho de 30 anos.

Demoliner e Medvedev não têm planos para voltar a jogar juntos, mas isso pode ocorrer eventualmente, segundo o brasileiro. Seja como for, ele vai torcer muito pelo sucesso do amigo, que vê como um futuro ganhador de Grand Slams.

“Ele tem uma força mental privilegiada, acima dos outros jogadores da nova geração. Acredito que o Medvedev vai ficar muito tempo no topo, ele tem características de um campeão nato.”

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