RUDY TRINDADE/THEMAPRESS
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Diretor do Rio Open quer mais piso duro na América do Sul e sonha com Masters 1000

Luiz Fernando Carvalho quer que torneio seja preparatório para torneios nos EUA

Entrevista com

Luiz Fernando Carvalho

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2017 | 07h01

Exibindo bom público desde sua primeira edição e quase imune à crise econômica, o Rio Open vem se consolidando no circuito profissional de tênis. Mas o retorno favorável dos fãs, os elogios dos jogadores e as boas avaliações da ATP não são o suficiente para Luiz Fernando Carvalho. O diretor do maior torneio da América do Sul na modalidade quer mais e projeta mudanças não apenas na competição como também no giro sul-americano de saibro desta época do ano.

Lui, como é mais conhecido, quer trocar o saibro do Jockey Club Brasileiro pelo piso duro do Centro Olímpico de Tênis, numa alteração que pode atrair mais tenistas de renome para a competição brasileira. Para tanto, conversa com diretores de outros torneios do continente: Quito, Buenos Aires e São Paulo. A meta é reunir forças para promover a mudança de piso também nestas competições (todas de nível ATP 250), transformando o giro de saibro em eventos realizados em piso duro, até como preparação dos tenistas para torneios maiores nos Estados Unidos, casos dos Masters 1000 de Indian Wells e Miami, em março.

Neste cenário de valorização das competições sul-americanas, o Rio Open surgiria como candidato natural a sediar um evento maior, deixando se der um ATP 500 para se tornar no futuro um Masters 1000, que distribui maior premiação, mais pontos no ranking e é obrigatório para os principais tenistas do circuito. "A ATP hoje em dia está com os olhos voltados para a América do Sul. E nós estamos nos preparando para receber uma chance de 'upgrade'", revela Luiz Fernando, em entrevista exclusiva ao Estado nas dependências do Jockey Club Brasileiro.

Quais as probabilidades de o Rio Open ganhar um upgrade no futuro?

Poderia ser um Masters 1000, poderia ser uma nova categoria, isso tudo está sendo discutido agora. O presidente da ATP, Chris Kermode, é super visionário, e está dando chance para os torneios que querem crescer. Ele escuta tudo e a ATP está com os olhos voltados para a América do Sul. A Europa está estagnada e os EUA estão sem ídolos no tênis masculino. Estamos com um torneio de nível ATP 500, com muito sucesso, patrocinadores fortíssimos, que nos dão um selo de qualidade. Isso tudo serve para tentar convencer a ATP de que merecemos uma chance.

Existe uma chance real de a competição se tornar um Masters 1000?

É uma chance real, mas que não depende só da gente. Tem muitas coisas que precisam acontecer para a gente conseguir encaixar e colocar tudo junto. Nós queremos estar prontos para quando essas partes se juntarem e a gente tiver a oportunidade. Queremos ser o melhor candidato. Óbvio que existe um investimento financeiro bem alto. Amanhã você pode ter um Masters 1000 com problemas financeiros e ele quer vender a data. Você precisa estar pronto para se candidatar. E não é só dinheiro que compra. Tem a questão política, financeira, de oportunidade. É preciso também que o torneio faça sentido no calendário. Não dá para ter um Masters em Doha, por exemplo, se não tiver público para isso. No Rio de Janeiro, não há dúvida sobre isso. (Virar um Masters 1000) É um sonho, é um objetivo, não será algo simples de acontecer, mas é real.

Há estimativa de prazo para a eventual mudança?

Difícil falar em tempo, mas seria de três a cinco anos. Muitas coisas têm que acontecer ainda, mas ajuda muito o fato de termos sediado uma Copa do Mundo e uma Olimpíada recentemente. A própria Olimpíada dá um peso. Mostra que sabemos organizar um evento grande, temos uma estrutura fixa para isso. Tudo ajuda nessa busca do Masters 1000.

E como estão as negociações com a ATP para trocar o Jockey Club Brasileiro pelo Centro Olímpico?

É uma questão de oportunidade essa mudança para o Centro Olímpico. Só que temos um evento no saibro e o Centro Olímpico é de quadra dura. Já tentamos fazer essa alteração, mas a ATP não permitiu. Há alguns obstáculos porque, se eu mudar de piso, muitos tenistas de saibro não vão gostar. Além disso, os outros torneios desta época do ano em quadra dura vão ficar descontentes porque vamos disputar os jogadores. Existe uma politicagem que precisa ser feita e requer tempo. É normal. Uma alteração estrutural desse tipo exige muita conversa para convencer as pessoas.

Qual é o próximo passo agora para conseguir essa mudança?

Depois de pedidos negados, entendemos que essa mudança só faz sentido se todo o circuito fosse para quadra dura. No caso, os Torneios de Quito, São Paulo e Buenos Aires. São quatro torneios, quatro promotoras organizando os eventos, com interesses diferentes. Estamos tentando nos unir para ver se podemos ir juntos. Estamos no estágio de fazer o pedido todos juntos para ter mais força para falar para a ATP: 'Olha só, nós vamos ser um circuito muito melhor, com melhores jogadores e com melhor estrutura se formos jogar na quadra dura'. Cada um está colocando seus pontos positivos nessa mudança para podermos nos unir e fazer esse pedido juntos.

O piso é realmente o maior obstáculo para trazer mais jogadores de renome?

Sim, porque temos um evento no saibro, entre o Aberto da Austrália e dois Masters 1000 em quadra dura, no calendário. E hoje em dia o tênis é muito profissional, o jogador olha para o seu corpo com muito mais carinho do que fazia há 10 anos. Eles estão muito cautelosos e evitam essas mudanças repentinas de superfície.

Essa troca de piso é viável já para o ano que vem?

Difícil falar agora porque tudo depende de política. Temos reuniões, encontros, mas vamos saber mais concretamente no meio do ano. Se não conseguirmos, vamos seguir tentando. Se não der, também não vamos pensar que 'vamos morrer'. Estamos felizes com o que há agora. Mas seria um grande passo para o torneio.

O Centro Olímpico está hoje sob a gestão do Ministério do Esporte. Você tem o apoio do órgão federal para esta mudança?

Existe um diálogo bem aberto com o ministério. Eles estão sendo super parceiros. O ministério está buscando um formato que permita sediar vários eventos no Centro Olímpico, porque somente o Rio Open não vai sustentar o local. Teria que haver projetos sociais com treinos lá, atividades de alto rendimento com a Confederação Brasileira de Tênis (CBT), ou a federação local, espaço para tênis social, para alugar a quadra, por exemplo. E estão tentando colocar isso de pé para fechar a conta. Existe um custo alto de manutenção daquela estrutura. Posso dizer que nosso diálogo é o melhor possível, trocamos muitas ideias. E também temos o apoio da CBT.

Neste ano o Rio Open não conta com uma chave feminina, da WTA. Por que a organização decidiu ceder os direitos desta competição para Budapeste?

Percebemos que o evento da WTA não conversava com o evento da ATP. Além disso, a competição feminina acontece numa semana em que há dois torneios muito grandes no Oriente Médio. São competições obrigatórias para as tenistas do Top 30, com maior premiação. Por isso, tínhamos dificuldade enorme em atrair as melhores jogadoras para cá. Fizemos, então, um planejamento estratégico e decidimos ceder os direitos do torneio por três anos. Achamos melhor focar no ATP para melhorar nossos serviços e nossa avaliação, até para conseguir fazer o upgrade para o Masters 1000 ou o ATP 750 (categoria inexistente ainda em discussão na entidade).

A chave feminina poderá voltar em 2020, então?

Sim, é uma possibilidade. O circuito feminino deve passar por muitas alterações nos próximos dois ou três anos. Agora está tudo sendo meio estudado sobre o que pode acontecer no circuito para depois. Quando a poeira baixar, a coisa assentar, a gente vai avaliar se vale a pena retornar com o evento da WTA.

E como está a saúde financeira do Rio Open? Está conseguindo manter a lucratividade apesar da crise?

Sim, o torneio não deu prejuízo em nenhuma das três edições já realizadas. A lucratividade está estabilizada. Obviamente, em cada ano existem mais custos e nós também investimos muito. É uma empresa e o evento tem que dar resultado, temos os acionistas. Este é um ano mais complicado, os investimentos se estagnaram. Entendemos o momento do País, da economia. Estamos com novos patrocinadores neste ano, de fora do País, como Rolex, Fedex, Emirates. São marcas que são verdadeiros selos de qualidade. Não estariam aqui se não acreditassem no nosso produto.

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