Vincent Kessler/Reuters - 2014
Em 2014, o espanhol Rafael Nadal conquistou o seu nono título de Roland Garros Vincent Kessler/Reuters - 2014

Djokovic tem a sua melhor chance em Roland Garros

Sérvio chega à França em grande fase e Nadal está em baixa

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2015 | 17h00

"Jogar contra Novak é sempre um grande desafio. Toda vez que tenho uma chance de vencê-lo, estou jogando no meu limite. Tenho certeza de que você vai ganhar aqui no futuro", disse Rafael Nadal, durante a cerimônia de premiação de seu nono título de Roland Garros no ano passado. A previsão do espanhol sobre o sérvio Novak Djokovic parece estar perto de se concretizar. Tenistas do mundo todo entram em ação a partir deste domingo no saibro de Paris, e o número um do mundo chega como grande favorito por estar fazendo uma temporada brilhante.

Os números estão a favor do líder do ranking, que sonha com o único troféu que falta para a sua extensa coleção. Em grande fase, Djokovic soma 22 jogos de invencibilidade no circuito, além de um de simples e outro de duplas na Copa Davis. Sua última derrota foi no dia 28 de fevereiro, quando sucumbiu diante de Roger Federer na final em Doha. E algumas vitórias da temporada foram conquistadas diante de rivais de peso: Andy Murray (três), Federer (duas) e Nadal (uma).

Em sete torneios disputados no ano, o sérvio levantou cinco troféus. O título mais importante foi o pentacampeonato no Aberto da Austrália, que o sagrou o maior vencedor do Grand Slam de Melbourne na Era Aberta. Os outros são de nível Masters 1000 (Roma, Montecarlo, Miami e Indian Wells) e reiteram a supremacia do tenista, que é número um ininterruptamente desde 7 de julho de 2014. A primeira vez que encabeçou a lista foi em 4 de julho de 2011, e desde então só oscilou nos dois primeiros postos.

Com estilo agressivo e controle emocional, “Nole” mostra solidez no fundo de quadra e exige preparo físico dos adversários, protagonizando ralis que levam os tenistas à exaustão.

Apelidado de 'Touro Miúra' por sua força física, Rafael Nadal é um dos poucos tenistas que fazem frente ao sérvio nesse quesito. No entanto, o espanhol ainda não conseguiu convencer nesta temporada e tem vivido à sombra de seu passado. Com o sétimo lugar no ranking, ele amarga sua pior posição em dez anos. Apesar disso, é dono de nove títulos quase consecutivos em Roland Garros (exceto 2009) e soma 66 triunfos e apenas uma derrota em Paris.

O 'rei do saibro' acabou com o sonho de Djokovic nos últimos três anos - venceu duas finais (2014 e 2012) e uma semi (2013). Mas desta vez eles podem se encontrar nas quartas, já que Nadal é apenas o sexto cabeça de chave. O retrospecto total ainda é favorável ao tenista espanhol, que tem 23 vitórias contra 20 do rival, mas o sérvio leva vantagem nos últimos tempos e contabiliza seis triunfos em dez encontros.

"Rafa é sem dúvida um dos favoritos. Acredito que continua sendo capaz de jogar o seu melhor tênis no saibro de Paris. O histórico fala mais do que o seu nível atual", diz Djokovic.

A estreia não deve ser um problema para nenhum dos dois. Djoko inicia sua campanha contra o finlandês Jarkko Nieminen, enquanto Nadal encara o jovem francês Quentin Halys. Os tenistas que se deram melhor no sorteio foram Federer e Murray, que abrem a competição contra tenistas vindos do qualifying.

BRASILEIROS

Se por um lado Thomaz Bellucci deve ter vida fácil na estreia contra o australiano Marinko Matosevic, ele possivelmente irá medir forças com o japonês Kei Nishikori, quinto do mundo, logo na segunda rodada. João Souza, o Feijão, vive situação semelhante. Enfrentará o espanhol Daniel Gimeno-Traver e, caso avance, pode encontrar David Ferrer na rodada seguintes. Nas duplas, o Brasil deposita a esperança do título inédito em Bruno Soares (ao lado do austríaco Alexander Peya) e Marcelo Melo (parceiro do croata Ivan Dodig).

No feminino, não há supremacia no histórico recente de Roland Garros. A russa Maria Sharapova defende o título conquistado em 2014 e pega a estoniana Kaia Kanepi na estreia. Serena Williams, número 1 do mundo, abre a disputa contra adversária do quali. O Brasil será representado por Teliana Pereira, que passou pelo qualifying.

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'O campeão de Roland Garros aparece, ele não é fabricado', diz Guga

Tricampeão do Grand Slam francês vê Novak Djokovic como favorito

Entrevista com

Gustavo Kuerten

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2015 | 17h00

Tricampeão de Roland Garros, Gustavo Kuerten recorda do saibro francês com muito carinho e até hoje vê os seus títulos (1997, 2000 e 2001) como "um ponto fora da curva". O ex-número 1 do mundo se prepara para acompanhar o Grand Slam como torcedor e vê o sérvio Novak Djokovic "mais favorito do que nunca", mas também acredita que o espanhol Rafael Nadal está no páreo. Em entrevista exclusiva ao Estado, Guga ainda comenta o atual momento do tênis brasileiro e dispara: "O campeão de Roland Garros aparece, ele não é fabricado."

Para você, qual é o significado de ser campeão de Roland Garros?

A primeira vez que eu ganhei Roland Garros, eu praticamente não tinha noção do que o título representava. Ao longo dos anos fui entendendo melhor e é impressionante como hoje, olhando para trás, a dimensão foi aumentando. O meu caso é mais particular, tem um tempero diferente por ser brasileiro, por isso, a conquista é um eixo absurdo fora da curva. Guardo tantas sensações boas que se eu tivesse que escolher uma seria a comunhão porque minha paixão com o torneio é tão intensa que me traz centenas de lembranças carinhosas.

O que falta para Novak Djokovic ser campeão do Grand Slam francês? Embalado por cinco títulos no ano, Djokovic é o favorito ao título em Roland Garros neste ano?

Falta tempo. Talvez semanas, um ano ou três. Mas tenho certeza que não vai passar disso. Ele ainda não foi campeão por causa do extremo sucesso do Nadal, que é descomunal. Mas esse ano o Djokovic é mais favorito do que nunca.

O que esperar de Rafael Nadal em Roland Garros? Ele não está em boa fase, mas soma nove títulos quase consecutivos (exceto por Federer em 2009).

Podemos esperar que ele seja campeão. Se o Nadal, em Roland Garros, atingir o auge de sempre. Mesmo com o favoritismo do Djoko, que esse ano chega praticamente como favorito absoluto. Mas do Nadal não dá para esperar nada menos do que se inspirar nessas semanas e sair novamente com o título. Esse ano é capaz de dar uns três, quatro campeões (risos). O Djoko tem quer ser campeão, o Nadal também e também tem que dar espaço para o Federer (risos).

Como vê o momento dos tenistas brasileiros? O que o Brasil precisa para voltar a ter um tenista campeão de Roland Garros?

Eu acho que o tênis brasileiro não deve buscar um novo campeão de Roland Garros. É preciso aprimorar os elementos básicos, melhorar os professores e, consequentemente, teremos jogadores com uma qualidade avançada. Naturalmente, vão surgir ao invés de um Bellucci, e, no cenário atual, um Feijão e uma Teliana, vamos ter cinco ou seis jogadores entre os 100 melhores do mundo e de dois a três entre os 30. O campeão de Roland Garros aparece, ele não é fabricado. Há quanto tempo os Estados Unidos não tem um campeão de Grand Slam. Roland Garros mesmo, a França está esperando há quase 35 anos por um campeão, isso que é um país que trabalha com o tênis há mais de 100 anos. Acho que o Brasil tem que construir desafios menores no início e criar uma base mais consolidada para daqui a 20, 30 anos voltar a pensar em ganhar Grand Slam. Claro, se acontecer melhor ainda, como foi no meu caso.

Murray enfim conquistou um título no saibro, Federer também não tem o piso como especialidade. Para você, por que esses tenistas têm mais dificuldade na terra batida? Os espanhóis continuam sendo a principal escola no saibro?

A maior dificuldade hoje de ganhar em Roland Garros é o Nadal que não deixa ninguém vencer lá e acaba sendo uma impossibilidade mesmo para o Djokovic. Eu acredito que os melhores jogadores têm jogado com a mesma eficiência em praticamente todos os pisos. Acho que hoje o tênis proporciona um nivelamento mais justo nas velocidades quando envolve a mudança de piso. Então não existe a escola do saibro, a escola da quadra dura, hoje os jogadores são preparados para jogar em todas as superfícies de uma maneira equivalente.

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