TV Estadão | 09.06.2015
TV Estadão | 09.06.2015

'Espero ter criado um legado para os jovens', afirma Marcelo Melo

Tenista diz não ter dimensão de sua conquista em Roland Garros

Entrevista com

Marcelo Melo

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

10 de junho de 2015 | 06h50

Roland Garros voltou a ser motivo de orgulho para o tênis brasileiro. Ao lado do croata Ivan Dodig, o mineiro Marcelo Melo conquistou o título inédito nas duplas masculinas no último sábado e foi o primeiro tenista do País a ser campeão do Grand Slam francês desde o tricampeonato de Gustavo Kuerten, em 2001. Em visita à redação do Estado, o atleta diz que ainda não tem dimensão de sua conquista e torce para que a vitória ajude a estimular os jovens tenistas. 

O que a conquista de Roland Garros representa para a sua carreira?

Representa muito para a minha carreira. No meio de uma família de tenistas, meus pais jogam tênis há muitos anos, meus dois irmãos mais velhos, do qual um é meu treinador, representa muito para nós. Gosto de falar sempre para nós porque acho que não é uma conquista só minha, especialmente da minha família, que sempre me apoiou e de todo mundo que está envolvido. Ainda não tenho muita noção do que foi essa conquista. Quando a gente vê que o Guga ganhou em Roland Garros, tem mais noção do que quando a gente mesmo acaba vencendo. Foi bem legal, espero idealizar o que a gente fez o mais rápido possível.

E para o tênis brasileiro?

Para o tênis brasileiro, vai trazer boas coisas especialmente para os juvenis, que às vezes ficam um pouco na dúvida de acreditar se um dia vão chegar lá ou não. O caminho realmente é muito duro, não adianta esconder. Os que estão tentando sabem como é, são  muitas viagens, às vezes falta um pouco de apoio e você tem de persistir da mesma maneira, a maior parte do tempo você passa sozinho, tem de aprender a lidar com isso. O tênis te ensina muitas coisas, te faz amadurecer mais rápido, tem um contato com pessoas que você não teria se não fosse um esportista, por outro lado isso é bom. Espero ter criado um legado para os juvenis acreditarem que podem chegar lá também.

Como tem sido a recepção dos fãs brasileiros depois do título?

Foi muito boa. Em BH (Belo Horizonte), quando eu cheguei, tinha bastante gente me esperando no aeroporto, com faixas. Meus familiares foram, meus amigos foram e algumas pessoas, até que não conhecem tanto de tênis, viram as notícias que outro brasileiro conquistou um título que o Guga tinha conquistado há tanto tempo e quiseram tirar fotos. Pessoas fora do tênis que não me reconheciam sem essa conquista e hoje passaram a me reconhecer. Hoje (terça-feira) mesmo, vindo para cá (São Paulo) de manhã, vi pessoas comentando: 'Esse é o grandão que ganhou Roland Garros'. Acho que minha estatura até ajuda um pouco nesse aspecto e isso é muito legal, estar em evidência.

Acha que a vitória sobre os irmãos Bryan deu mais autoridade para o título de Roland Garros?

Acho que sim, todos sabem que eles formam a melhor dupla da história. Normalmente os jogadores vão adquirindo confiança no decorrer do torneio, talvez o melhor momento para vencê-los fosse a primeira, a segunda rodada. Quando você passa a engrenar, as principais duplas vão ganhando mais confiança e são os momentos mais difíceis até a final de Grand Slam, até pela experiência que eles têm a mais. Realmente foi um jogo duríssimo, a gente costuma falar que, quando um jogo é fácil, é porque eles ganharam fácil, nunca vemos eles perderem fácil. Para alguém ganhar deles, tem de ser daquele jeito, uma batalha até o final porque eles são realmente muito difíceis.

Vocês começaram o jogo perdendo. Como manter a concentração e retomar o controle do jogo?

Realmente é difícil manter a concentração e ainda mais no nosso caso que a gente vinha batendo na porta constantemente. Era a terceira semifinal seguida de Grand Slam, a gente tinha perdido para eles no ATP Finals e era mais uma chance. A gente estava pensando: 'Mas vai acontecer de novo?' Era um caminho que a gente não queria passar. Foi preciso concentração para sair daquele caminho e foi o que aconteceu.

Traçaram alguma estratégia diferente para a decisão? O que acha que foi determinante para a vitória?

Não tinha nenhuma estratégia muito diferente do normal, o principal fato foi mesmo a confiança que a gente foi adquirindo durante o torneio, a gente jogou muito bem as rodadas anteriores, tinha na cabeça que uma hora quem sabe chegaria a nossa chance. Nosso planejamento inicial era fazer todo o programa para jogar bem em Wimbledon. Pode até ter funcionado de ter tirado um pouquinho a pressão de Roland Garros.  

O que você achou da hashtag #somostodosgirafa?

Foi muito legal. Tenho esse apelido girafa, um nome que vem comigo pela minha estatura, vários jogadores me chamam de girafa. No início, acho até que eles não sabiam muito meu nome, o apelido é mais fácil até e vem de todas as línguas. Quando criaram essa hashtag, o público aderiu muito bem, fiquei sabendo quando já estava correndo no Twitter. As pessoas dando mesmo aquele apoio, senti que eles queriam o título, queria ver eu aproveitar aquela oportunidade que tinha passado algumas vezes.

O Guga estava na arquibancada em Roland Garros, ele é uma inspiração para você?

Ele sempre foi uma inspiração para qualquer tenista depois de tudo o que ele fez até Roland Garros. Ele ter ficado tão perto da quadra foi muito especial para mim . Pessoas como ele, do nível dele, às vezes podem só sentar, ficar vendo e dar 'parabéns' pela vitória, mas ele foi em outro sentido, queria que aquilo realmente acontecesse. Ele sempre manda mensagem positiva, foi muito legal e especial ele estar presente. 

Você considera essa como a melhor temporada até o momento?

Com certeza. Mesmo antes de Roland Garros eu já dizia que está sendo o melhor início de temporada, não só da minha carreira, mas da minha parceria com o Ivan. E isso acabou culminando no título de Roland Garros, toda essa confiança. 

Você soma US$ 2.653.166 em premiação. Esse número representa a realidade? A gente pode considerá-lo um milionário?

Muitos falam isso, mas minha carreira de profissional tem quase 13 anos. São 13 anos jogando tênis, jogo 99% fora do Brasil, estamos em junho, devo ter pego mais ou menos 15 aviões, mais de 10 horas, são passagens de ida e volta, gastos de hotel, gastos de alimentação. Logicamente foi essa premiação, mas tem imposto fora, imposto no Brasil, tem despesas de treinador. Até minha mãe fala: 'Nossa, você tem isso tudo de dinheiro?' Mas são 13 anos que passaram, lógico que conto com algum apoio, mas quem me dera ter esse dinheiro na minha conta.

Você conquistou 15 títulos e o Bellucci, quatro. Ele soma uma premiação maior que a sua. Isso mostra a disparidade do valor dado para simples e duplas?

A gente recebe em teoria de 15% a 20% do que um jogador de simples recebe. O valor vem aumentando no decorrer dos anos, a ATP vem encontrando maneiras de aumentar esse prize money para a dupla. Esse ano, eu tinha os mesmos resultados por exemplo que o (Andy) Murray. Tive resultados em torneios grandes, tinha a mesma quantidade de vitórias e ele tinha 12 vezes mais prize money do que eu, isso é uma realidade que a gente convive. A gente tenta mudar, mas infelizmente para o nosso lado é assim.

Como você vê o tratamento dado para as duplas?

Vem melhorando muito, os resultados que a gente tem acaba fortalecendo esse movimento. Logo que comecei não tinha tantos jogos na televisão. Na Austrália, acho que foram seis ou sete jogos e tinha duplas mistas. Acho que em Roland Garros passou um pouco menos. Mas às vezes um torneio menor acaba passando. Nos clubes, as pessoas acima de 40, 45 anos jogam dupla e gostam muito. Acho que começando esse movimento é uma bola de neve que só vai crescendo.

Como foi sua decisão de se especializar nas duplas?

Eu jogava simples e dupla e os meus resultados de dupla começaram a ter mais ênfase que os de simples. Comecei a ter resultados em torneios maiores, mas naquela época eu não tinha tanto apoio para jogar, jogava torneios intermediários para quem sabe chegar aos ATPs, que pelo menos na simples você pode viver do tênis. Naquela ocasião, eu comecei a parceria com um patrocinador e uma das condições na época era eu ser duplista. Eu gostava de jogar duplas, fatores que por sorte minha casaram. Não teria condição de continuar jogando sem esse apoio, tive que fazer uma escolha.

Por que é tão difícil para os mais novos apostarem nas duplas?

Eu também acho que eles devem se basear mais na simples por essa questão de prize money. Para a pessoa passar a viver da dupla, ela precisa atingir objetivos muito maiores do que de repente numa simples. A simples tem mais visibilidade que as duplas. Acho que eles devem jogar os dois, alguns treinadores tiram os meninos das duplas e deixam só na simples, não acho que seja uma postura correta. Você vê tantos profissionais jogando simples e duplas, por que os juvenis não podem jogar? A dupla acrescenta muito na simples, como você vê o Ivan, o jogador aprende a se comunicar com outra pessoa ao lado na dupla, a compartilhar problemas, a dupla acrescenta muito. É importante eles começarem nos dois e depois escolherem um ou outro.

Você jogou muito tempo ao lado do Bruno Soares, acha que a separação foi importante para a evolução de vocês dois?

Acho que acabou sendo. Na época, foi uma decisão que o Bruno tomou. Ele queria buscar outro parceiro, alcançar outros objetivos que até então não acreditava que poderia alcançar comigo. Por mim, teria continuado a nossa parceria. Acabou coincidindo de ser muito bom para mim e para ele. A gente não sabe se a gente teria alcançado o que a gente alcançou, a gente estava em constante evolução, mesmo caso meu e do Ivan. Esse é o quarto ano que estou junto do Ivan, de longe a gente não jogava há dois anos o que a gente joga hoje, é um amadurecimento. Respeitei a decisão dele (Bruno).

Hoje você joga a Copa Davis ao lado do Bruno. A gente pensa na dupla brasileira praticamente como um ponto certo. Como você vê isso?

Essa é praticamente a maior pressão que a gente tem durante o ano. Sabemos que muitos contam com esse ponto certo, mas nós jogadores sabemos que não é tão certo assim pela dupla ser tão disputada. A dupla é muito dinâmica, poucos pontos decidem o jogo. A gente foi jogar contra os irmãos Bryan nos Estados Unidos ou contra a Espanha e todo mundo achava que a gente era muito favorito, mas um era quatro do mundo o outro era nove. É uma pressão extra, mas a gente entende pelos resultados que a gente vem tendo. 

Quais as vantagens e desvantagens de ter um parceiro estrangeiro?

No caso do Ivan, ele é muito diferente. Tem uma personalidade muito diferente da minha, consegue trazer esse lado europeu, um pouco mais sério. Eu já levo o lado brasileiro, um pouco mais alegre, divertido. Acho que não dá muito certo quando duas pessoas muito sérias ou muito relaxadas, é bom dar essa misturada. A gente tem abertura para poder compartilhar. Não é que ele vai me ensinar ou que eu vou ensiná-lo, eu aceito muito bem o que ele fala e ele aceita muito bem o que eu falo. Para nosso desenvolvimento, vai ser bom para nós dois.

Vocês têm uma relação de amizade também fora de quadra?

Temos. Temos uma relação muito boa fora de quadra, logicamente não é uma relação tanto quanto a minha com o Bruno (Soares). O Bruno conheço desde os cinco anos de idade, é brasileiro. É diferente, mas a gente tem uma relação muito mais próxima do que qualquer tenista que não tenha realmente um amigo no circuito. A gente passa a confiar muito no parceiro com essa convivência na dupla, a viver momentos importantes da vida. Participo de comemorações particulares, acaba sendo um grande amigo.

Como é trabalhar ao lado do Daniel, seu irmão e treinador?

É uma relação muito boa. Muitas pessoas não acreditavam que poderia dar certo, especialmente pelo tênis ser tão competitivo e lidar com derrotas e vitórias praticamente toda semana. Acho que uma das coisas mais importantes é a gente entender o lado de irmão e o lado de treinador. De vez em quando ele até puxa um pouco mais a minha orelha. Eu o respeito muito como irmão e treinador, como treinador devo ter discutido com ele duas vezes em sete anos, como irmão é todo dia, como qualquer outro. Treinador eu sei que ele quer que eu melhore, estuda para isso, analisa meu jogo. A gente consegue separar isso muito bem.

Quais são os seus objetivos depois da conquista de seu primeiro Grand Slam?

O próximo é o ouro olímpico, especialmente com Olimpíada no Brasil. Conquistar Wimbledon continua sendo um sonho, por ser um templo tão sagrado do tênis, toda a história. Mas o principal e o maior neste momento passou a ser a Olimpíada.

Conversei com a CBT sobre o uso de tecnologia de vídeo no tênis. Você já tem feito uso dessa ferramenta e o que tem achado?

A gente começou a implantar não faz muito tempo, mas é uma ferramenta muito importante. A gente pode analisar os jogos dos adversários, as estatísticas, isso demanda um pouco de tempo até para montar uma base de dados. Sempre contra adversários diferentes, a gente joga de maneiras diferentes. A gente já começou a usar esse tipo de informação, é muito importante a vai ajudar bastante no caminho até a Olimpíada.

Já tem sentido alguma diferença ou ainda é cedo?

Ainda é cedo para sentir tanta diferença, a gente ainda está acrescentando jogos na base de dados.

A CBT anunciou a convocação para o Pan com atletas mais jovens. Eles consultaram vocês?

Nós ficamos disponíveis, a gente queria ir. Mas tem Wimbledon. A gente não pode arriscar de estar jogando Wimbledon e não ir uma equipe do tênis para o Pan-Americano. Se não fosse isso, a gente iria. Acho muito válida a oportunidade que eles estão dando para os meninos, espero que eles aproveitem. 

O fato de o Rafael Nadal ter pedido para o juiz de cadeira Carlos Bernardes ser vetado de seus jogos gerou muita polêmica. Já aconteceu alguma coisa semelhante com você? Qual a sua opinião sobre isso?

Logicamente tem um juiz ou outro que a gente acaba não gostando, mas é coisa de jogador. Não concordo muito com a atitude de falar que eu não jogo com aquele juiz, imagina se todo jogador falar isso. Ele está ali para tomar decisões. O Bernardes é considerado um dos melhores do mundo, tem pulso firme independente de quem é, as atitudes dele não foram nada fora do padrão. Nadal é um jogador que demanda muito tempo e ter juízes que cobram isso, sendo Nadal ou fulano de tal, é muito importante. O Bernardes é um cara extremamente profissional.

Tem alguma alteração de regra que você é favorável?

No caso do placar, acho válida a mudança do terceiro set para um match tie-break, tie-break de até 10 pontos. Isso trouxe mais jogadores de simples para jogar a dupla. Eu não gosto muito particularmente de não ter a vantagem quando está 40 iguais e levar o game quem fizer o ponto. Às vezes o placar não condiz com o jogo. Foge um pouco do controle, o que não acontece em um Grand Slam, onde tem menos chance de um azarão. Algumas mudanças poderiam acontecer, mas é difícil o tênis mudar uma regra assim. Muita gente pede para mudar a regra do 'let', como mudou no vôlei, que a bola bate na rede no saque e continua o jogo. Eu sou até a favor.

Você não é uma pessoa que tem a carreira marcada por lesões. Acha que há menos desgaste nas duplas?

A dupla tem menos desgaste que a simples, você divide a quadra com outro ao seu lado e o tempo é mais curto pelo formato que eles criaram. Acho que a gente faz um trabalho muito bom de base para evitar ao máximo as lesões e montar um calendário que a gente sabe que o descanso é tão importante quanto o treinamento. Não adianta eu chegar ontem e querer treinar hoje, meu corpo demanda um tempo para recuperar, para poder treinar. As lesões acontecem no momento de maior desgaste e estresse do corpo ou em caso de fatalidade, como ocorreu comigo no Rio, por exemplo. Lesões são imprevisíveis, mas a gente faz de tudo para que não aconteça.

Antes de Wimbledon, vai disputar alguma competição?

A gente não sabe ainda, com o Ivan com certeza não. Só estou conversando com o Daniel, provalvemente devo jogar um torneio em Nottingham, que é preparatório para Wimbledon. Ter uma competição antes é importante porque a grama é um jogo bem diferente, a bola quica menos e os pontos são mais rápidos. É importante estar competindo antes de Wimbledon.

A expectativa para Wimbledon fica maior depois de ser campeão em Roland Garros?

Acho que fica. A gente já tinha uma expectativa muito boa, a gente vem jogando muito bem. Será importante ter um bom resultado em Wimbledon, que é nosso piso favorito. Agora a responsabilidade fica um pouco maior ao chegar em um Grand Slam tendo vencido o anterior. 


Tudo o que sabemos sobre:
tênisMarcelo MeloRoland Garros

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.