Reprodução/Instagram/Ymanitu
Reprodução/Instagram/Ymanitu

Estreando em Grand Slam, Ymanitu mira visibilidade para tênis em cadeira de rodas

Tenista catarinense é o primeiro brasileiro a disputar Roland Garros em cadeira de rodas

Redação, Estadão Conteúdo

26 de maio de 2019 | 11h00

O Brasil terá um reforço inédito nesta edição de Roland Garros. Trata-se de Ymanitu Silva, que se tornará o primeiro tenista brasileiro a disputar um Grand Slam em cadeira de rodas. Entre os melhores do mundo nos últimos anos, o catarinense de 36 anos vai realizar um sonho de infância, adiado pelas dificuldades financeiras de se tornar um profissional e por um acidente de carro quase fatal.

Natural de Tijucas, a 45km da capital Florianópolis, do amigo Gustavo Kuerten, Ymanitu vai estrear em Roland Garros na segunda semana do torneio francês, quando serão disputadas as chaves dos cadeirantes. O brasileiro disputa a chave do "quad", para tenistas com limitações nos membros superiores e inferiores - há outra categoria para cadeirantes, chamada "open", com atletas com limitações somente nas pernas.

"Era um sonho que eu tinha desde que jogava em pé. Essa chance em Grand Slam era uma batalha que vínhamos enfrentando. Faz dois anos que estou entre os 10 melhores do mundo, que sou o número oito. Fui o quinto colocado nos Jogos Paralímpicos do Rio-2016. Sempre trabalhei para isso", disse o tenista, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. Ymanitu obteve o convite em Roland Garros graças a uma parceria da Confederação Brasileira de Tênis (CBT) e a Federação Francesa de Tênis (FFT, na sigla em francês).

Em Paris, o atleta paralímpico espera obter maior visibilidade para esta modalidade. "Tem um pouco de preconceito ainda. Não temos tanta visibilidade quanto os tenistas andantes. Temos a mesma rotina de treinos, a mesma dedicação. Mas não a visibilidade, principalmente em relação aos patrocínios", afirmou o catarinense. "No circuito, já adquirimos o respeito dos demais. Somos vistos como atletas profissionais e de bom ranking".

A falta de visibilidade faz os tenistas de cadeira de rodas ainda dependerem de outras fontes de renda para sobreviverem no circuito. Para disputar uma média de 18 torneios por ano e manter sua rotina de treinos, Ymanitu trabalha na área de marketing de uma grande empresa da região. Ao mesmo faz faculdade em gestão ambiental, à distância, pensando no seu futuro. Depende ainda de um patrocinador e de ajuda institucional da CBT, do Bolsa-Atleta, das Loterias Caixa e do Fundesporte, em nível estadual.

Assim, o atleta divide sua vida entre treinos, viagens para competição, trabalho in loco e à distância, faculdade e família - está noivo. "É uma vida muito corrida. Com o meu salário e os patrocínios consigo sobreviver e ter uma vida tranquila até. Mas precisaria de mais apoio para disputar mais torneios do circuito. Para um atleta do meu nível, preciso competir mais".

Ymanitu entrou no tênis ainda na infância. Chegou a disputar torneios juvenis em nível nacional e até sonhava com o profissional. Porém, a família não tinha recursos para sustentar o seu sonho. O retorno ao tênis acabou acontecendo em situação improvável. Aos 24 anos, sofreu grave acidente ao dormir no volante do seu carro. Ficou tetraplégico.

O esporte, que parecia então ainda mais distante, ressurgiu ao iniciar sua reabilitação na Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, em Brasília. Na mesma época, estava em tratamento no local a tenista cadeirante Rejane Cândida, que se recuperava de lesão no ombro. Ela integra a seleção até hoje e serviu de estímulo para o retorno de Ymanitu ao esporte.

"Apenas me disseram: senta na cadeira e joga. Quando eu sentei e vi que dava para jogar, voltei para aquele período da infância, quando era um garotinho ainda. E daí em diante voltei a jogar e competir em alto nível", contou o atleta.

Desde então, Ymanitu vem aperfeiçoando sua técnica na cadeira de rodas todos os dias. Ele treina em Florianópolis, nas quadras da Federação Catarinense (que hoje divide parte de sua estrutura com a Confederação Brasileira), e no clube Itamirim, em Itajaí, também no litoral catarinense.

Os resultados animaram o atleta paraolímpico. Visando as grandes competições, ele comprou nova cadeira para competições em fevereiro deste ano: um investimento de R$ 30 mil, em Londres. "É o preço do meu carro. Mas tudo isso é necessário para melhorar o meu rendimento em quadra".

A nova cadeira, já testada no Mundial de Tênis de Cadeira de Rodas, disputado em Tel-Aviv, em Israel, na semana passada, passará por seu maior desafio no saibro de Paris. "É o Grand Slam mais charmoso. E ainda mais com todo aquele espírito que vi o Guga disputando. Isso me deixa mais feliz ainda", afirmou Ymanitu, amigo pessoal de Gustavo Kuerten.

Com o apoio moral do tricampeão de Roland Garros, o cadeirante espera também confirmar a fase vivida pelos atletas da modalidade no País. "Estamos numa crescente. A cada ano aumenta o número de participantes nas competições nacionais. Diante dos outros países, já somos vistos como potência mundial. Canadenses e americanos sempre nos perguntam como conseguimos produzir tantos jogadores. Eles têm toda a estrutura, mas não tem boa quantidade de atletas em seus países".

O tênis brasileiro conta atualmente com sete atletas no Top 30 dos rankings de cadeira de rodas. Ymanitu é o mais bem colocado, com o oitavo posto. Daniel Rodrigues é o atual 22.º na modalidade open, mas já foi o 15.º. No feminino, também no open, Natalia Mayara é a 19.ª e Meirycoll Duval, a 29.ª. No juvenil, João Lucas Takaki é o número três do mundo, enquanto que Breno Salles é o 17.º e Jane Lanai, a 13.ª.

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