Marcello Zambrana/Inovafoto
Bellucci subiu no ranking da ATP e retornou ao top 60 Marcello Zambrana/Inovafoto

Evolução em 'ponto fraco' deixa Bellucci próximo do top 50

Tenista número 1 do Brasil teve desempenho acima do esperado na quadra rápida indoor e mostra que está cada vez mais versátil no circuito profissional

Matheus Martins Fontes, especial ao Estado, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2014 | 07h00

Em ranking atualizado nesta segunda-feira pela Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), Thomaz Bellucci aparece na 58ª posição, sua mais alta classificação desde julho de 2013. Mais do que o retorno ao grupo dos 60 melhores do mundo, o paulista comemorou seu desempenho acima da média exatamente na quadra rápida coberta, superfície em que mostrou dificuldades iniciais na adaptação.

Era uma constante ver o número 1 do Brasil do outro lado do mundo apostando em calendários ousados com os fortíssimos ATPs após o US Open e a Copa Davis. O problema era que os resultados não apareciam, e Bellucci nunca conseguiu render o esperado principalmente na Ásia. Sua melhor campanha nesse período foi registrada isoladamente em 2012, e na Europa, com o vice-campeonato no ATP 250 de Moscou. Nesta temporada, no entanto, o panorama mudou para o tenista canhoto de 26 anos.

Principal nome na vitória frente à Espanha pelos Play-offs da Copa Davis em setembro, Bellucci ganhou uma injeção de confiança. E, ao contrário das últimas experiências na reta final de temporada, ele adotou uma postura mais cautelosa nas quadras. Sem ranking suficiente para disputar os ATPs, trocou as viagens desgastantes rumo à Ásia por eventos intermediários na Europa mesmo, como preparação para o piso rápido indoor. A decisão mostrou-se acertada logo de cara com o vice no Challenger de Orleans, e mais um pontinhos para sua cota.

Embalado, o tenista brasileiro manteve a boa forma e foi às quartas de final no ATP 250 de Viena, semana passada, batendo no caminho o espanhol Feliciano Lopez, 15º do ranking e principal favorito na Áustria. Para quem costumava somar poucos pontos nos últimos meses do ano, Bellucci já enxerga uma evolução de mais de 30 lugares na lista. Sabe também que parte desse mérito se deve ao melhor planejamento do seu calendário.

"Não queria ir até a Ásia jogar os qualifyings (fases classificatórias). São viagens cansativas. Optei por jogar torneios menores pela Europa e acho que a escolha foi certa. Estou satisfeito com os resultados que foram positivos, mas sei que posso render ainda mais", disse Bellucci em entrevista, por e-mail, ao Estado.

AMADURECIMENTO

Capitão do Brasil na Copa Davis e ex-treinador de Bellucci, João Zwetsch credita o amadurecimento do jogador após tantos anos no circuito profissional à boa fase vivida nesta temporada. "O Thomaz já está acostumado à rotina do circuito. E na Copa Davis, principalmente, vimos que ele equilibrou seu nível emocional. Ele mantém o foco nas longas partidas, se perdoa mais (em caso de erros) e não se abala tanto com as chances desperdiçadas. Esses são fatores que o deixam muito mais forte."

Zwetsch sabe como é encarar viagens longas após o desgaste da temporada. Ele esteve junto de Bellucci até o fim de 2010. E admite que o ex-pupilo tomou a decisão certa em fazer uma programação menos arriscada dessa vez. "Os Challengers que ele jogou são torneios com pontuação próxima de um ATP 250. Não é à toa que tivemos oito tenistas no grupo dos 100 melhores do mundo como cabeças de chave. São torneios fortes e que serviram para dar confiança ao Thomaz. Prova disso foi a vitória contra o Lopez, jogador top 15 e que fez duas semifinais de Masters 1000", aponta o técnico.

Desde o fim do ano passado, Bellucci é orientado pelo técnico espanhol Francisco 'Pato' Clavet. O mentor destaca a evolução do paulista em aspectos técnicos e táticos primordiais para que se torne um atleta mais completo. "Ele apresenta maior variação tática agora. Aprimorou seu poder de recuperação, defende-se melhor e está evoluindo seu jogo de meia quadra, buscando fechar mais pontos na rede."

Apesar de Bellucci ter alcançado os maiores feitos da carreira no saibro – dois títulos em Gstaad (2009 e 2012) e um em Santiago (2010) -, "ele também tem ótimas armas para jogar bem em superfícies mais rápidas", assegura Clavet. O técnico ibérico tem conhecimento que Bellucci prefere as quadras lentas, onde pode explorar seus golpes com top spin, principalmente com seu forehand, e tem mais tempo para trabalhar os pontos do fundo. Pato, entretanto, acredita que o tenista mostra um arsenal eficiente também para esse tipo de superfície. "Ele tem um grande saque, varia e devolve bem, com golpes potentes da base. Se melhorar um pouco o jogo de meia quadra e ir à rede com maior frequência, subirá seu nível".

130 PONTOS

Por mais que esteja longe do melhor desempenho na lista da ATP - 21º lugar em julho de 2010 -, Bellucci comprova a possibilidade de galgar mais degraus no ranking também fora da terra batida. Até dezembro, ele tem 155 pontos para defender, mas o saldo nas quadras rápidas da Europa já lhe renderam 130 de pontuação, com chances de elevar a contagem nos dois próximos torneios, o ATP 500 de Valência e o Masters 1000 de Paris. "O melhor ainda está por vir", aposta Zwetsch.

Bellucci compartilha da visão do ex-técnico baseado na confiança do trabalho árduo e no desempenho ao longo das últimas semanas. "Em um mês, venci dois top 15. Isso é fruto do trabalho e dedicação. A meta agora é ficar perto do top 50, mas tenho objetivos ainda mais ambiciosos. Tenho jogo para ganhar dos tops e estar entre os 20 primeiros em breve", confia. Bellucci é o segundo melhor simplista brasileiro de todos os tempos, atrás apenas do ex-número 1 Gustavo Kuerten, que liderou a lista da ATP por 43 semanas entre 2000 e 2001.

No fim de semana, Bellucci furou o qualifying de Valência e estreia nesta quarta-feira contra o russo Mikhail Youzhny, 27° do mundo. O evento espanhol terá nomes consagrados em quadra, como David Ferrer, Andy Murray e Tomas Berdych, todos já derrotados pelo brasileiro.

OS NÚMEROS DO TENISTA

Destaques de Bellucci sobre o piso rápido indoor nos fins de temporada.

2008

1ª rodada no ATP 250 de Bangkok, Challenger de Mons e ATP 250 de Estocolmo – 0 ponto.

Ranking no US Open – 86º

Ranking ao término da temporada – 87º

2009

Semifinal no ATP 250 de Estocolmo – 180 pontos no total.

Ranking no US Open - 69º

Ranking ao término da temporada – 36º

2010

2ª rodada nos Masters 1000 de Xangai e Paris – 90 pontos no total.

Ranking no US Open – 28º

Ranking ao término da temporada – 31º

2011

1ª rodada nos ATPs 500 de Pequim e Basileia, e nos Masters 1000 de Xangai e Paris – 20 pontos no total.

Ranking no US Open – 35º

Ranking ao término da temporada – 37º

2012

Vice-campeonato no ATP 250 de Moscou – 205 pontos no total.

Ranking no US Open - 40º

Ranking ao término da temporada – 33º

2013

Não disputou nenhum torneio sobre o piso rápido indoor.

Ranking no US Open – 118º

Ranking ao término da temporada – 125º

2014

Vice-campeonato no Challenger de Orleans e quartas de final no ATP 250 de Viena – 130 pontos no total.

Ranking no US Open - 91

Ranking até o momento – 58º

(Bellucci já garantiu mais 20 pontos por passar o qualifying em Valência)

*Aqui não são contabilizados os pontos conquistados em Challengers sobre o saibro.

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Crescimento de Bellucci na ATP vem à tona com avanço físico e mental

Paulista vem mostrando ótima resistência ao desgaste do fim de temporada e o equilíbrio psicológico nos momentos de pressão

Matheus Martins Fontes, especial ao Estado, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2014 | 07h00

Em fim de temporada, é normal que a maioria dos tenistas tenha dificuldade em manter o nível elevado de jogo. Era comum ver o combustível de Thomaz Bellucci acabar antes mesmo do seu último compromisso do ano, estafado pelo calendário. Por isso, nessa nova empreitada rumo a voos mais altos, o brasileiro se cerca também da equipe que o assessora do lado de fora das quadras.

André Cunha é o responsável por sua preparação física. Bellucci busca solução para um problema fisiológico ligado à perda de nutrientes. O atleta sofre bastante em partidas com altas temperaturas e umidade do ar elevada, gerando queda acentuada de rendimento. Após quase um ano de parceria, o preparador já enxerga considerável avanço no condicionamento do tenista. "Ele está fazendo menos esforço para realizar os movimentos, aprendeu a controlar o corpo e reciclar a energia", ressalta Cunha.

Para esse último mês de competições, o preparador admite ter sugerido exercícios físicos que ajudarão Bellucci a suportar o desgaste nas quadras duras. "A prioridade agora é manter força e potência. Enfatizei bastantes exercícios preventivos e processos regenerativos, de crioterapia, massagem, nutrição e hidratação adequadas. Tudo isso reduz de maneira considerável a chance de as lesões acontecerem".

A limitação física é um elemento que acaba influenciando também no desgaste mental de Bellucci. É o que afirma a psicóloga Carla Di Pierro, que trabalha com o brasileiro desde 2012. Assim como aprimorou a parte física, o tenista de Tietê vem apresentando ótimos resultados no lado psicológico. "O tênis é um jogo que exige muito da parte mental do atleta, como o controle das emoções, a gestão das frustrações e a tomada de decisões em momentos importantes. Em todos esses quesitos, Thomaz evoluiu bastante", admite Carla.

Os dois profissionais estão em contato direto com Bellucci, mesmo com sua rotina de viagens pelo mundo. Tanto Carla quanto Cunha procuram conhecer cada vez mais a rotina do esportista para definir o melhor tipo de intervenção em suas respectivas áreas de atuação.

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