Denise Andrade / Estadão
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Fernando Meligeni: 'É uma situação ruim para o tênis, para Djokovic e para a Austrália'

Ex-tenista não vê nenhum lado vencedor na polêmica envolvendo o número 1 do mundo, que teve o visto cancelado por causa da questão da vacina de covid-19

Fernando Meligeni*, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2022 | 13h07

Sempre temos que tomar cuidado diante de um assunto delicado como esse. O primeiro cuidado é com a opinião das pessoas. Mesmo que consideremos equivocada, a opinião precisa ser respeitada. O Djokovic não quer se vacinar e cada um vai ter uma opinião sobre isso. No meu caso, sou totalmente a favor da vacinação. Tomei duas doses e só não tomei a terceira porque peguei covid-19.

Acredito muito nas regras. É um risco que todo mundo sabia que poderia acontecer. Em alguns lugares, não vão deixar você competir se não estiver vacinado. Concordo com a Austrália. Ninguém é mais soberano do que as regras do país, não importa se for o número 1 ou o 500 do mundo. Se não pode, não pode.

Mas a situação é muito confusa. Por que se chegou ao ponto de ele estar lá na Austrália e não poder entrar? Podia viajar, mas não podia entrar? Todo o emaranhado está nisso. Pela experiência que tenho, o tenista sabe muito bem o visto que precisa ter, se sua entrada está aprovada ou não. Para um atleta, a entrada é meio pro forma. Nunca vi alguém ser barrado deste jeito.

Já vi gente sendo barrada porque não tinha vacina contra a febre amarela, por exemplo. Ou porque precisava de um visto específico para entrar nos EUA. Não tem? Será barrado. Todo mundo já teve algum problema deste tipo. Já fui para país e não tinha o visto. Tive de voltar e fazer o visto. Isso é normal. As regras do país são soberanas. Eles decidem o que querem.

Mas é uma situação ruim para o tênis, para ele e para o país. Alguns falaram que a Austrália não sofre, mas sofre, sim. Vai ter gente na rua, problemas políticos. Todo mundo sai perdendo. Caras que são referência em algo, como o próprio Djokovic, o (Rafael) Nadal ou o Michael Jordan, causam abalos.

Quanto à imagem dele, ele sabe das consequências. Sabe do risco de perder popularidade e até patrocínios. Ele sabe o que está fazendo. O Djokovic é do tipo que não parece muito preocupado com o que vão pensar dele. É o jeito dele. Eu não concordo com muitas das atitudes dele, como ser humano. Mas não entro em polarizações. Podemos discordar, mas não podemos destruir uma imagem. Como tenista, ele é impressionante, incrível, absurdo. É um dos maiores de todos os tempos ou talvez o melhor da história.

Ele tem o direito de ser como ele é. Às vezes, o fã acha que pode falar como você deve agir. Teve gente, por exemplo, dizendo que eu deveria ter prolongado a minha carreira. Mas essa é uma decisão minha. O Djokovic defende a maneira dele de ser. Como o Nadal disse, eu não faria o que ele fez. E ele vai arcar com as consequências das atitudes dele.  

Estou muito curioso para ouvir o que ele tem a dizer. Aí entenderemos melhor tudo o que aconteceu. Vamos poder comentar sem sermos injustos. Até agora só temos o lado da Austrália. 

*Em depoimento ao repórter Felipe Rosa Mendes

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