Fim da carreira de Fernandes cria trauma no tênis brasileiro

Campeão do Aberto da Austrália juvenil em 2010, atleta deixa para trás carreira promissora aos 21 anos para estudar Engenharia Civil

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2014 | 17h38

Era janeiro de 2010. Com os times de futebol em férias, assim como várias outras modalidades, o Aberto da Austrália recebia, como de costume, boa parte da atenção da mídia esportiva. Poucos meses depois de o Rio ser escolhido sede da Olimpíada de 2016, o que ocorrera em setembro do ano anterior, o foco já recaía sobre jovens atletas promissores que poderiam incrementar o desempenho olímpico brasileiro nos Jogos em que será anfitrião.

E então surge um alagoano talentoso, que dá ao Brasil seu primeiro título no Aberto da Austrália juvenil. E treinado por Larri Passos, o mesmo que ajudara a formatar o talento de Gustavo Kuerten, o melhor tenista da história do país.
Poucos meses depois, Fernandes assumiu a liderança do ranking mundial juvenil, o que nem mesmo Guga tinha conseguido alcançar.

A carreira de Tiago, no entanto, não engrenou. Na última quinta-feira, a comunidade tenística foi golpeada por uma dura notícia: o outrora promissor nordestino, encalacrado na pantanosa 914ª posição do ranking, decidiu encerrar a carreira aos 21 anos de idade.

A aposentadoria foi confirmada pelo treinador de Tiago, o ex-jogador gaúcho Marcos Daniel. O ex-assessor de imprensa de Fernandes ainda o procurou, querendo saber se ele desejava que a decisão fosse divulgada num comunicado oficial. A ideia foi rejeitada. Tiago está cursando Engenharia Civil em Maceió - envolveu-se com os estudos, virou a página e não está disposto a dar entrevistas.

Daniel acha que a decisão é definitiva. "Pode ser que ele tenha uma recaída, mas acho que isso é pouco provável".

Fernandes começara a treinar com Daniel em setembro de 2012. E já tinha uma pubalgia, o que o afastou das quadras por seis meses e também atrasou o seu desenvolvimento físico. 

"O Tiago sempre teve que correr atrás na parte física. Ele é alto e longilíneo e não tinha uma musculatura tão volumosa. A genética dele não o ajudava a ser mais rápido e resistente. Depois que ele voltou, não podíamos acelerar muito o trabalho físico, sob risco de quebrá-lo ao meio. Além disso, ele precisava desenvolver a coordenação motora".

Na avaliação de Daniel, as carências físicas e técnicas demandavam um investimento mais longo na carreira, com retorno sempre incerto, e Tiago simplesmente não quis esperar.

"Ele está numa idade perigosa, em que tantos jogadores acabam se questionando se vão de fato chegar ao top 100. Todo mundo botou uma esperança muito grande nele, e ele também, por ter conquistado o Aberto da Austrália juvenil e ter liderado o ranking da categoria. Mas cada um tem uma forma de amadurecer. Conquistar títulos juvenis não quer dizer que você vai repeti-los quando for adulto", diz o treinador. "É o que sempre digo: quando você é juvenil, está num aquário. Quando você é adulto, está no meio do mar, infestado de tubarões. É muito mais difícil".

Daniel não vê a perda de talentos juvenis como um fenômeno brasileiro. "Mesmo a Austrália e a Argentina, que são potências tenísticas, atravessam períodos de entressafra".

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