Gato Seco, dos malabares para o tênis

José Antenor de Souza Alves fazia malabares na esquina das movimentadas Avenida Faria Lima e Juscelino Kubitschek, em São Paulo, quando foi convidado pelo professor Jorge Nascimento para ser catador de bolinha e treinar tênis. Um ano e três meses após, é federado no tênis e, no trabalho, alcançou o posto de rebatedor ? o próximo passo é jogar torneios e ser professor. Dinho, como era chamado, passou a ser Gato Seco. O apelido tem origem no primeiro contato com Jorge. ?Ele passou de moto e perguntou se eu queria mudar de vida. Viu um gato comigo... Eu disse que ia comer o bicho... era quase hora do almoço. Me convidou para um lanche e prometeu arrumar um clube para eu trabalhar.? O pai de Gato Seco morreu há três anos e, com fome, o menino confessa, tímido, que já provou carne de gato, mas não recomenda. ?É ruim?, avisa o rapaz de 19 anos. Com o que ganha agora ? entre R$ 300,00 e R$ 400,00 por mês ?, ajuda a mãe Raimunda e cinco irmãos da família que vive no Grajaú. Gato Seco vai participar do Master Series do Favela Open, sábado, das 6 às 12 horas, torneio que o professor Jorge Nascimento realiza, anualmente, em Capão Redondo. Esse ano, a competição será em ?quadra rápida? ? o asfalto da rua Paulo Guastine, com demarcações no chão e rede amarrada no poste ? e cerca de 300 meninos, de dez favelas de São Paulo. O prêmio, para o campeão geral, será treinar com o tenista profissional Flávio Saretta. O emprego na Match Ball, academia do Itaim, significou para Gato Seco deixar os malabares e as ruas ? onde ganhava cerca de R$ 10,00 por dia, em moedinhas e notas de R$ 1,00 ? ter salário fixo, aprender tênis e novos valores culturais, e ter ajuda de pessoas que frequentam a academia. ?No primeiro amigo secreto o Pierre (Jorge Pierre Kalucian), dono da academia, me tirou. Ganhei um tênis do Guga e uma raquete.? Disse que sua mãe está superorgulhosa. ?Minha mãe agradece a Deus. Eu também agradeço, antes de dormir, pedindo saúde para pessoas como o Jorge e o Pierre.? O professor Jorge afirma que ?sonhou com isso? ? acha que os meninos que fazem malabares têm habilidade com as mãos, domínio dos movimentos e, certamente, facilidade para lidar com uma raquete de tênis. Conversou com algumas academias da cidade ? são mais de 300 na Grande São Paulo ? e obteve de empresários a promessa de que alguns dos participantes do Favela Open poderão trabalhar como pegador de bolinha. ?O Eduardo Azevedo, da Play Tennis, me prometeu dez vagas?, observa. Acha que, no total, conseguirá umas 40 vagas, reunindo todas as promessas de donos de academia que recebeu. Os meninos dos malabares da esquina da Faria Lima com a Juscelino Kubitschek, que participarem do Favela Open, poderão ser encaixados na academia que fica há meia quadra dali, como os irmãos Ademir e os gêmeos Cosme e Damião Coelho dos Anjos, de 10 e 13 anos respectivamente, moradores do Jardim Amália. Segundo conta Cosme, os três chegam na Faria Lima pela manhã e só vão embora à noite, com no máximo R$ 20,00. Carlos Eduardo Gonçalves, de 19 anos, e William Atemir de Oliveira, de 20, moradores de rua, também foram convidados para o torneio de tênis. Nunca viram uma partida desse esporte e nem conhecem Guga.

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