Cristiano Estrela/Agência RBS
Cristiano Estrela/Agência RBS

‘Guga não foi passear em Paris. Foi para vencer’, relembra Larri

Vinte anos após o primeiro título do tenista brasileiro no saibro de Roland Garros, treinador relembra fatos que os levaram à gloria

Entrevista com

Larri Passos, ex-técnico de Gustavo Kuerten

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2017 | 17h00

Larri Passos lembra como se fosse ontem. Treinava Gustavo Kuerten numa quadra irregular em Florianópolis e ouvia a reclamação do pupilo. Rebatia prontamente: “Um dia tu vai jogar numa quadra impecável”. Anos se passaram e Guga surpreendeu o mundo ao conquistar o título de Roland Garros na lendária Philippe Chatrier, a “impecável” quadra central do Grand Slam francês, em 1997. 

Vinte anos depois desta conquista, o treinador gaúcho recorda o grande feito e garante que não ficou surpreso com o troféu, histórico até mesmo para Roland Garros. Guga, então 66.º do mundo, se tornara o tenista de menor ranking a se sagrar campeão em Paris. “Foi muito bom ele ter entrado como azarão naquele ano”, afirma Larri, em entrevista exclusiva ao Estado.

A condição de zebra, na sua avaliação, foi essencial para manter a concentração do jovem tenista catarinense, então com apenas 20 anos. “Todos viram um jogador brasileiro fazendo algo diferente, jogando com alegria e com o coração dentro de quadra”, diz o treinador. Foi o “diferencial” de Guga para conquistar o título e o público brasileiro, iniciando ali a trajetória de ídolo nacional e internacional.

Aos 59 anos, Larri mora com filhos e esposa nos Estados Unidos, de onde administra sua academia de tênis da qual em Camboriú (SC). Também atua como consultor de tenistas profissionais e, recentemente, estreou como comentarista de TV em torneios femininos transmitidos pelo canal Sony. Por telefone e e-mail, concedeu entrevista para relembrar e ainda festejar o grande feito do pupilo.

Guga costuma dizer que até ele foi surpreendido pelo título de 1997. Você também não esperava por uma conquista daquelas?

Lembro de uma frase que eu falava pro Guga quando ele pisou pela primeira vez na quadra do Hotel Maria do Mar para treinar. Ele reclamou da quadra e eu disse: ‘um dia tu vai jogar numa quadra impecável’. Como eu não poderia acreditar que um dia ele seria capaz de ganhar Roland Garros? Em Paris, esperava que chegasse ao menos às quartas de final. Na minha cabeça, se passasse da primeira rodada, ele realmente poderia fazer estrago. 

De onde veio esta convicção?

Desde 1996, eu vinha acompanhando o crescimento dele, acreditando no seu estilo de jogo, mais agressivo, pegando a bola na subida. Eu aceitava as críticas que faziam pelo estilo de jogo. E fazia ele ir para cima, fazendo a bola girar pesado. Sabia que, com esta postura, um dia ele poderia ganhar Roland Garros. Então, fui para lá com muita, mas muita fé, acreditando muito. E acredito até hoje que um dia um jogador brasileiro vai voltar a ganhar lá, não sei se será comigo ou com outro técnico.

Quando foi que percebeu que o título naquele ano era uma possibilidade real?

Eu passei a acreditar mais mesmo quando ele ganhou do Kafelnikov (Yevgeny K., tenista russo), nas quartas de final. Eu o conhecia muito bem, sabia que seria pedreira. E esse garoto realmente treinou muito as pauladas para jogar contra o Kafelnikov. Eu gritava com ele: ‘ataca a direita, entra dentro da quadra’. Ele estava devolvendo mais atrás, eu mandei: ‘vai para dentro, pisa mais dentro, ataca essa bola’. E ele começou a atacar mais a devolução no corpo do Kafelnikov. Ele acreditou! Posso dizer uma coisa para você? Eu sabia dentro de mim que ele não ia perder mais Roland Garros. Só que eu não podia dizer para ninguém. Tinha que ficar quieto, dentro do meu iglu, junto com ele. 

Como explicar que um tenista de 20 anos, com ranking tão baixo, tenta conquistado um título desta importância em 1997?

Achei ótimo ele ter chegado como zebrão, poxa vida! (risos) Por que ninguém prestou atenção nele em 1996, quando caiu na primeira rodada, contra o Wayne Ferreira (tenista sul-africano). Ali o Guga já estava jogando muito bem e poderia ter feito mais contra ele, então 11.º do mundo. Mas ficou de bom tamanho que ninguém tenha pensado que ele poderia fazer aquele estrago no ano seguinte. E nós seguimos trabalhando quietinho, na moita. O Guga não queria bater bola com ninguém. Sempre treinávamos só nós dois, o nosso bem bolado. Mas, quando ele começou a ganhar dos monstros, começou a complicar. Todo mundo começou a perguntar: quem é esse garoto? Mas, dentro de nós, tínhamos uma convicção muito grande. 

Qual foi o diferencial do Guga para buscar o troféu?

Todos viram um jogador brasileiro fazendo alguma coisa diferente, com muito foco. Ele não foi para Paris para badalação, pra passear, fazer oba-oba ou festa. Viram um jogador sério, com um técnico sério, que realmente queriam vencer. E não achar que o Brasil era um país de pobrezinhos que sofriam. Mas ao mesmo tempo a gente curtia muito essa alegria que eu conseguia colocar na cabeça dele. E ele jogava alegre, feliz. Ele entrava em quadra vivendo cada jogo, cada momento, cada dia. O foco de ficar no agora e viver aquele dia, lutar e botar o coração dentro de quadra, esses foram os diferenciais do Guga em 1997. Ele também ganhou com o coração. 

Vinte anos depois, o Brasil não conseguiu produzir nenhum tenista que se aproximasse dos feitos do catarinense. Por que é tão difícil surgir um “novo Guga”?

Mudou muita coisa. A tecnologia atrapalha bastante, tira o foco. Hoje é muito difícil colocar o jogador no ‘agora’. E existe um sacrifício muito grande quando se chega num nível em que precisa ficar fora do País para crescer. Mas temos grandes jogadores, juvenis, que estão fazendo a transição para o profissional. Mas tem que entrar na quadra, meter a mão na bola e não ficar feliz, não. Tem que querer mais, muito mais. 

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