Invicta, Luisa Stefani tem feito o circuito juvenil de tênis sair do tom

Aos 15 anos, brasileira conquista primeiro ponto como profissional e sonha em ser número 1

NATHALIA GARCIA, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Não é por Luisa Stefani que Chico Buarque fez o palhaço, se esqueceu no tempo e no espaço, quase levitou e fez sonhos de crepom, mas é por ela que o circuito juvenil de tênis tem saído do tom. A brasileira de 15 anos faz uma temporada impecável e já acumula quatro títulos consecutivos - Banana Bowl, Copa Gerdau, Copa Sultana-Mayaguez da Federação Internacional de Tênis (ITF em inglês) e Barbados Junior International. Se os números são notáveis (foram 23 vitórias consecutivas com 46 sets vencidos e apenas um perdido), ela confirma a boa fase com seu primeiro ponto como profissional ao bater Ana Clara Duarte, a número 4 do Brasil, no Circuito Feminino Future de Tênis, em São Paulo.

A jovem, que saltou 632 colocações neste ano e já ocupa a posição 547 do ranking da ITF, tem colhido os frutos do investimento em sua carreira profissional. O tênis rege a vida da família Stefani e isso a levou para fora do País. Desde 2011, Luisa mora com os pais e o irmão nos Estados Unidos e treina na Saddlebrook Tennis Academy, em Wesley Chapel, na Flórida.

O local mais parece um resort e contempla todas as necessidades da garota. Ela vai para escola pela manhã, treina no período da tarde por cerca de quatro horas e meia por dia, e volta a estudar em casa durante à noite. Tudo isso dentro da academia. Os treinamentos são orientados por uma equipe de técnicos, entre eles Alvaro Betancur, e os aprendizes também possuem consultas esporádicas com psicólogos. O trabalho físico e mental é intenso e as concessões são grandes, ainda mais para uma adolescente, mas Luisa tenta tirar o máximo proveito desse momento. "Por enquanto está tudo muito bom, estou adorando essa vida. Não me importo em perder coisas que meus amigos fazem e que eu não posso fazer. Já acostumei."

A decisão de deixar carreira, parentes e amigos para trás e começar uma nova vida foi tomada com bastante cuidado pelo chefe da família, Marcelo. A escolha da nova casa deu-se a partir de um concílio familiar, no qual foram levadas em consideração as condições climáticas, logísticas e, claro, esportivas.

O pai da tenista enaltece o apoio dos novos vizinhos e adjetiva a comunidade como amistosa. A ideia inicial era permanecer cerca de dois anos em Saddelbrook, porém esse período de tempo esgotou e Marcelo decidiu estender a estadia. "Todo mundo está feliz e vivendo com uma qualidade de vida muito legal. E o que nos alimenta e nos dá energia para continuar é justamente os resultados que a Luisa teve. Já é uma recompensa por todo o esforço."

Com ternura na voz, Marcelo recorda o momento em que percebeu que o tênis deixou de ser uma brincadeira de criança na vida de Luisa e também na do irmão mais velho, Arthur, de 16 anos. "Eles começaram a fazer uma aulinha de sábado e já pediram de presente de Natal a inscrição na Federação Paulista (de Tênis). Me lembro que a gente deu aquele papelzinho amassado como presente e foi a maior alegria."

TRAJETÓRIA

O tênis apareceu na vida dela em uma escola paulista de classe média alta, apenas como brincadeira na aula de educação física. Aos poucos o interesse foi crescendo e ela decidiu buscar uma academia. A menina reconhece o apoio da família desde o momento em que escolheu seguir a carreira. "Eles sempre me deram recursos, falavam para eu fazer o que eu quisesse que eu ia dar certo", comenta.

O futuro de Luisa é incerto, mas os recentes resultados obtidos pela garota de 15 anos alimentam as suas esperanças. A tenista se diz mais confiante, festeja o momento e acredita que sua evolução física e tática foi fundamental para as conquistas. Humilde, ela sabe que tem um longo caminho pela frente. "Quero melhorar meu preparo físico para poder ficar mais intensa no jogo inteiro. Preciso bater mais forte e ao mesmo tempo de forma mais consistente", analisa.

Ainda em busca de seu próprio estilo de jogo, a garota observa os grandes tenistas que passaram pelo circuito mundial. A versatilidade da belga Kim Clijsters - que deu adeus às quadras após o US Open de 2012 - é sua maior inspiração. Entre os homens, o suíço Roger Federer tem um lugar cativo: "Ele é perfeito na quadra, sempre foi", exalta.

SONHOS

E sonha em seguir os passos dos ídolos. Sem hesitar, Luisa dispara que seu maior objetivo no tênis é ser número 1 do mundo e que deseja participar de Wimbledon. "Nunca joguei em torneio de grama, só bati bola de brincadeira. Acho muito bonito, muito clássico. Gostaria de participar de um torneio assim."

Para chegar lá, ela sabe que o trabalho é árduo e diário. E ainda prefere ser cautelosa ao pensar na chance de disputar a Olimpíada do Rio, em 2016. "Vai ser muito bom se eu conseguir. É uma meta, mas não um objetivo agora. Vou ver como vai ser e, se der certo, tomara que dê, eu vou participar."

Acima de tudo Luisa quer se divertir em quadra e conquistar bons resultados com seu jeito moleca. "Sei que se eu ficar nervosa ou brava, não vou render tanto quanto se eu estivesse feliz, se eu jogasse com o coração. Se eu me divertir, vou jogar mais solta e posso sair com a vitória."

Além de viabilizar recursos financeiros, já que a menina ainda não conta com patrocínio, o pai Marcelo a auxilia a manter os pés no chão. "É um ciclo. Isso que estou passando para ela. Foi muito bom, muito bacana, parabéns. Fechamos um capítulo e vamos começar uma próxima etapa desse trabalho. Mais uma página." E ela já parece absorver os ensinamentos e mostra maturidade. "Fiquei muito feliz com os resultados, me deu uma motivação maior. É uma etapa cumprida, foi um belo passo."

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