Thiago Parmalat
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Jovem tenista celebra primeiro ponto da carreira no ranking da ATP

Paulo Saraiva, de 17 anos, comemora boa fase dentro de quadra enquanto lamenta perda do apoio do Bolsa Atleta

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2018 | 07h00

O jovem Paulo André Saraiva dos Santos vive situação incomum no mundo do tênis. Na contramão das probabilidades, o filho de um pedreiro e de uma diarista sonha em virar profissional. Nesta busca, ele vem superando a falta de apoio institucional, o preconceito e até a fome, conforme relatou o Estado em abril do ano passado. Um ano depois, em novo contato com a reportagem, o atleta de 17 anos já tem o que comemorar, mas também a lamentar.

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A celebração se deve ao primeiro ponto somado no ranking da Associação dos Tenistas Profissionais, a ATP, e também ao apoio que vem recebendo de amigos e até de desconhecidos que simpatizaram com sua história. A lamentar foi a perda do apoio do Bolsa Atleta concedido pelo Governo do Distrito Federal.

O sonhado primeiro ponto no ranking veio com a vitória na estreia logo em seu primeiro torneio profissional, de nível Future (abaixo de Challenger), em Brasília, há duas semanas. Foi o suficiente para abrir novas portas para o garoto. Pontuar no ranking é exigência para entrar em torneios maiores, principalmente fora do País.

“Sem ponto, ficamos muito limitados para montar um calendário de torneios. Às vezes, corre o risco de viajar sem nenhuma garantia de entrar na competição”, explica o argentino Gastón Raposo, que passou a treinar Saraiva há cerca de um mês. “O ponto significa muita coisa. É o primeiro passo para uma carreira vitoriosa. Todo mundo ficou muito feliz. Acho que valeu a pena o esforço de todos”, comemora Saraiva.

“Todos”, na palavra do jovem tenista, representa o grupo de cerca de 40 pessoas que ajuda em sua carreira. São auxílios pontuais, às vezes somente com equipamentos, em outras com passagens para um torneio aqui, outro ali. Alguns ajudam Saraiva com o próprio trabalho sem cobrar nada.

É o caso do próprio treinador. Raposo se encantou com a história do tenista ao chegar em Brasília no início do ano. Ele divide os trabalhos com Antônio Lindoso, que faz às vezes de treinador, mecenas e segundo pai de Saraiva. Ambos apenas treinam o pupilo de graça. No caso de Lindoso, até paga para trabalhar. Lindoso auxilia o tenista com o vale-transporte e com parte do aluguel da casa onde mora com sua mãe em Itapoã, cidade a 15 km de Brasília.

Com a motivação extra a partir do ranking, o trio já planeja a primeira viagem internacional do tenista. “Esse ponto mudou o nosso planejamento inteiro. Vamos para a Argentina em agosto para uma série de torneios. Tenho amigos lá que podem ajudar com um local para dormirmos”, diz o treinador argentino.

Junto com a ajuda para a hospedagem, Saraiva conta com uma nova vaquinha online para se manter no país vizinho por algumas semanas. Na primeira, no ano passado, não alcançou a meta de R$ 30 mil. Agora conta com a repercussão da conquista do seu ponto no ranking, que o levou até a dar autógrafos e posar para fotos no torneio em Brasília, para atingir o mesmo valor.

BOLSA-ATLETA

A vaquinha pode compensar em parte o que o jovem tenista perdeu quando o benefício do Bolsa Atleta, que recebeu em 2017, foi cortado no início deste ano. Mesmo se enquadrando em todos os pré-requisitos técnicos e econômicos, Saraiva deixou de receber R$ 458,00 mensais. O que pode parecer pouco já ajudava nas despesas, junto de um apoio de uma empresa local.

Questões burocráticas e falta de comunicação entre a Secretaria do Esporte, Turismo e Lazer do Distrito Federal e a Federação Brasiliense de Tênis resultaram no corte do benefício. Segundo o órgão do DF, a “prerrogativa de escolha ou perda do Bolsa Atleta é de responsabilidade da federação”.

A Federação Brasiliense, por sua vez, culpa a secretaria por não atualizar as regras de concessão do benefício em seu site. De acordo com Sergio Oprea, presidente da entidade, o regulamento exibido pelo órgão na internet impediria Saraiva de manter o Bolsa Atleta por já ter patrocínio.

Sem o benefício, o jovem tenista usa as habilidades que tem com a raquete para buscar recursos para viagens e torneios. Entre um treino e outro nas competições, ele junta até R$ 120 por dia quando consegue encordoar sete raquetes de amigos e potenciais adversários. “Espero que o ponto no ranking me ajude a conseguir novos patrocinadores”, diz Saraiva. Enquanto isso, ele segue sua luta contra as probabilidades, de olho no mundo dos profissionais.

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