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Toby Melville/Reuters
Toby Melville/Reuters

Martina Navratilova, uma pioneira quando o mundo não estava preparado para uma atleta lésbica

Uma das jogadoras mais importantes da história do tênis, a checa ganhadora de 18 títulos de Grand Slam marcou época fora das quadras e continua ativa

Matthew Futterman, The New York Times

11 de junho de 2021 | 20h00

Martina Navratilova sentou em um restaurante próximo a área das docas nesta primavera (no hemisfério norte), ela vestia jeans surrados, uma camisa de brim que pendia frouxa na cintura e usava um boné com 1649 bordado que um de seus cinco cachorros havia roído. Era o chapéu favorito dela ultimamente.

A bandagem elástica cobria um polegar e um dedo indicador, não para proteger da raquete de tênis, mas para cobrir um problema de pele que causa descoloração. Ela não tem jogado há um tempo - a pandemia, dor nas juntas, as desculpas de sempre.

Uma mulher com aproximadamente a idade de Martina, que tem 64 anos, disse um “olá” deslumbrado a caminho da saída do restaurante. Mas uma jovem garçonete não fazia ideia de que tinha servido um prato de salada de atum com aspargos de acompanhamento para alguém que, quatro décadas atrás, estava trabalhando para se tornar o exemplo para o atleta moderno e socialmente consciente.

Durante o auge profissional de Martina, na década de 1980, o mundo não tinha muito interesse por uma mulher franca e abertamente gay cujas parceiras sentavam-se ao lado da quadra enquanto ela dominava o esporte como ninguém - vencendo 18 títulos simples de Grand Slam e 59 no total, tendo sido o último em 2006, quando ela tinha 49 anos.

Hoje em dia, essa combinação de sucesso e destemor pode tornar uma pessoa um ícone. Observe a empatia nos últimos dias por Naomi Osaka, quatro vezes campeã de torneios de Grand Slam, que deixou o Aberto da França alegando preocupações com sua saúde mental, depois que os organizadores do torneio ameaçaram desqualificá-la caso ela não participasse das coletivas de imprensa.

Martina - uma apoiadora fervorosa de Naomi e defensora de causas como mudanças climáticas e bem-estar animal - talvez simplesmente tenha nascido cedo demais. Depois de abrir o caminho para o atleta moderno, Martina ainda tem muito a dizer, e o mundo parece mais disposto a escutá-la agora, embora nem todos concordem com ela.

Ela enfrentou uma reação violenta dos defensores LGBTQIA+ quando argumentou no Sunday Times de Londres a favor das regras para atletas mulheres transgêneros competindo contra outras mulheres e foi retirada do comitê consultivo do Athlete Ally, um grupo focado em apoiar atletas LGBTQIA+. E, mesmo assim, Martina gostaria que o Twitter e o Instagram existissem em seus dias de jogadora, sem se importar com as consequências disso.

Quando era uma criança em Praga, Martina lia o jornal todos os dias. Ela estudava o atlas, imaginando para onde a vida poderia levá-la. Martina acredita agora que buscar e aproveitar oportunidades a ajudaram a torná-la a melhor jogadora do planeta. Deixar para trás a Tchecoslováquia aos 18 anos salvou sua alma, ela diz, e viver como uma atleta superstar abertamente gay a libertou.

Não lhe faltam reflexões e opiniões, geralmente expressas nas redes sociais, mesmo que no dia seguinte ela esteja dando sua análise de especialista do esporte no canal de televisão The Tennis Channel, direto do Aberto da França. “Eu vivia atrás da Cortina de Ferro”, ela disse com um olhar ainda capaz de intimidar os adversários na quadra. “Você acha mesmo que vão conseguir me dizer para ficar calada?”

Qualquer que seja o tema político ou social em destaque, Martina quer se envolver nele. Ela arremessa granadas no Twitter pela esquerda, pouco se importando com danos colaterais e, às vezes, autoinfligidos. Não a deixe começar a falar a respeito de teorias da conspiração em relação a vacina. E ela talvez não resistisse em se pronunciar acerca da rixa de Liz Cheney com Trump.

Depois de Martina criticar o governo de seu país adotivo, Connie Chung sugeriu, durante uma entrevista para a CNN, que ela voltasse para a Tchecoslováquia. “Ela sempre teve opiniões fortes e sempre teve princípios”, disse Pam Shriver, amiga íntima de Martina e parceira de dupla de longa data. “Teria sido tão bom para ela e para seus fãs não ter a voz dela abafada”

A evolução

Cite as qualidades que permitem um atleta profissional transcender no esporte. Desafiar uma autoridade publicamente? Ser um superstar abertamente gay? Mudar completamente como as pessoas jogam e treinam para seu esporte? Martina atende a todos esses pré-requisitos.

No verão de 1975, ela estava nas quartas de final de Wimbledon quando o governo comunista de seu país estava decidindo se permitiria que ela participasse do Aberto dos Estados Unidos, em Nova York, mais tarde naquele ano. Ela odiava não poder falar o que pensava ou contar a qualquer pessoa sobre sua atração sexual por mulheres.

Quando recebeu a permissão para sair do país para o torneio, ela disse ao pai, que também era seu treinador, que não voltaria. Mas não falou nada para sua mãe.

Depois de perder a semifinal para Chris Evert, ela foi para um escritório de imigração de Manhattan para solicitar asilo. Três horas depois, ela estava livre. Quando acordou na manhã seguinte, no Hotel Roosevelt, a notícia de sua decisão estava nas páginas do Washington Post.

Martina manteve sua orientação sexual em segredo por mais seis anos, porque isso talvez a desqualificasse no processo para se tornar cidadã dos Estados Unidos. Depois que ela foi naturalizada, um repórter esportivo a procurou ao fim de uma partida de exibição em Monte Carlo e lhe disse que planejava escrever sobre a conversa que tiveram confidencialmente a respeito de ela ser lésbica.

Ela pediu que ele não fizesse isso. Martina afirmou que tinham lhe dito que isso seria ruim para uma tenista. O circuito estava lidando com uma recente polêmica com Billie Jean King, que tinha sido processada por uma ex-namorada para receber pensão alimentícia. Billie primeiro negou o affair, depois o admitiu durante uma coletiva de imprensa com o marido ao seu lado.

O repórter rejeitou o pedido de Martina e, após anos de silêncio, ela se viu arrancada do armário. A partir daquele momento, porém, Martina apareceu com namoradas e viveu sua vida como sempre tinha desejado. “Eu não precisava mais me preocupar”, ela disse. “Não tinha mais que me censurar.”

Em setembro daquele ano, Martina perdeu o tie-break do terceiro set para Tracy Austin na final do Aberto dos Estados Unidos e chorou durante a cerimônia de premiação. A multidão gritou por Martina naquele dia, mas raramente depois disso, mesmo quando ela venceu os três seguintes títulos de simples do Grand Slam e, em seguida, mais 13 depois disso. Ao longo do caminho, Martina basicamente mudou não apenas a maneira como as pessoas jogavam, mas, também, o modo como os tenistas - homens e mulheres - lidavam com sua profissão.

Não acredita? Dê uma olhada no físico dos tenistas homens antes de Martina se tornar a Martina Navratilova.

Essa evolução começou na primavera de 1981, quando Martina estava em Virginia Beach, Virgínia, lar da estrela do basquete Nancy Lieberman. Nancy chamou Martina de preguiçosa e disse que a tenista poderia treinar de modo muito mais intenso.

O treinamento com esportes diferentes do praticado pelo atleta (cross training) era um conceito quase desconhecido na época, mas, em pouco tempo, Martina estava jogando partidas de basquete de uma hora com Nancy várias vezes durante a semana. Ela jogava tênis por até quatro horas por dia, começou o treinamento com pesos com uma fisiculturista e a correr diariamente em uma pista de atletismo local.

Uma nutricionista passou para Martina uma dieta rica em carboidratos complexos e pobre em proteínas gordurosas. Seu físico passou de quase desajeitado para um corpo esculpido.

Com a ajuda de Renée Richards, uma nova treinadora que jogou tênis profissionalmente nos anos 1970 depois de passar por uma cirurgia de redesignação de sexo, Martina aprendeu um topsin de backhand e um voleio de forehand destruidor. O jogo dela, potencializado por seu saque letal com a mão esquerda, tornou-se mais agressivo, focado em atacar o adversário de qualquer ponto da quadra.

Em 1983, Martina jogou 87 partidas e perdeu apenas uma vez. Nas três finais de Grand Slam, ela não perdeu nenhum set e apenas 15 games.  

Em pouco tempo, Chris Evert começou a treinar com outros esportes também e a geração seguinte de estrelas do tênis passou a se parecer muito mais com Martina. E a adotar o estilo feroz dela em quadra.

As carreiras no tênis normalmente terminavam por volta dos 30 anos naquela época. Martina ganhou o título de simples em Wimbledon aos 34 anos em 1990 e continuou a vencer campeonatos de duplas até 2006, tornando-se uma pioneira em longevidade no esporte.

Ela não tem dúvidas de que seu domínio na quadra e sua estridência fora dela funcionavam perfeitamente. “Isso tira a pressão sobre você”, disse. “É como ter uma experiência de quase morte. Depois de passar por isso, você abraça a vida.”

A comentadora

Os comentários sociais e políticos, além de seus esperados efeitos, viriam com o tempo, começando quase por acidente.

Em 1991, quando Magic Johnson anunciou que tinha sido diagnosticado com o vírus que causa a Aids, dizendo que foi infectado ao ter relações sexuais com mulheres, Martina foi perguntada sobre o que ela pensava a respeito disso. Ela questionou por que os gays que vivem com HIV não recebiam a mesma compaixão, acrescentando que se uma mulher contraísse a doença por ter se relacionado com centenas de homens, “seria chamada de prostituta e vadia, e as corporações a atacariam até acabar com ela.” Imagine isso aparecendo no feed do seu Twitter.

Em 1992, ela fez campanha contra uma medida eleitoral no Colorado que teria tornado ilegal qualquer legislação do estado que proibisse a discriminação com base na orientação sexual. Ela disse que o presidente Bill Clinton tinha se acovardado com sua política de "não pergunte, não diga" para gays nas forças armadas. Ela exigia pagamento igual para as mulheres e criticava os pais dos tenistas que se comportavam mal.

A reação negativa atingiu um ponto crítico em 2002, quando um jornal alemão a citou dizendo que as decisões políticas nos EUA se concentram no dinheiro em vez de "quanto a saúde, a moral ou o meio ambiente sofrem".

Quando Connie Chung a questionou na CNN, Martina respondeu: "Quando eu vir algo de que não gosto, vou falar abertamente a respeito disso, porque você pode fazer isso aqui". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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