Paul Croack/AFP
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Mirjana Lucic-Baroni: as longas disputas tornam seus recentes sucessos muito mais doces

Aos 34 anos, tenista croata renasce em Melbourne no Aberto da Austrália

Ben Rothenberg *, de Melbourne, The New York Times

25 de janeiro de 2017 | 19h41

Quando Mirjana Luci-Baroni entrou para o ranking das grandes tenistas, há duas décadas, seu nome era mencionado com o mesmo entusiasmo como no caso de suas colegas adolescentes fenômenos Martina Hingis e Venus Williams. 

Ela venceu o torneio de duplas do Australian Open junto com Hingis em 1998 quando estava somente com 15 anos e no ano seguinte chegou às semifinais do torneio de Wimbledon, derrotando Monica Seles, quarta cabeça de chave, e a oitava no ranking Nathalie Tauziat, antes de perder para Steffi Graf em três sets.

“Acho que a vida o amadurece, porque nessa época era um pouco irrealista”, disse ela. “Todos nós - ou a maior parte - alcançamos o sucesso quando somos muito jovens. E as pessoas não deixam que você evolua como pessoa, nem amadureça. E quando você age de modo estúpido elas não dizem nada porque você é uma estrela do tênis”.

Mas por ocasião do torneio de Wimbledon, Mirjana já vinha sendo tratada como um exemplo a ser evitado, tendo fugido da Croácia para a Flórida com a mãe e quatro irmãos para escapar dos abusos físicos e mentais do seu pai, Marinko. Ele nega as alegações.

O estresse que ficou e o medo constante do pai tiveram um custo e um ano depois do seu sucesso em Wimbledon, ela sumiu do ranking dos top 100, só retornando depois de uma década. 

Às vezes nem parecia uma tenista profissional. De 2004 a 2007 Mirjana competiu em apenas seis torneios, lutando para financiar sua anêmica carreira. 

“Não tinha condições de viajar; parei num momento em que não queria parar. Sentia como se fosse um trabalho não concluído. Ainda queria jogar num nível como este, num quadra lotada como esta. Aparecer, vencer, estar nas quartas de final de um Slam. Ter a chance de lutar por uma semifinal. São momentos incríveis Realizações incríveis. Sabia que conseguiria.”

Esta semana Mirjana Lucic-Baroni vem avançando, talvez, diz ela, por que aprendeu a aceitar o que não pode controlar.

“Foi realmente difícil no início quando recomecei, porque eu achava que estava no topo e não estava. Vinha lutando duramente para meu retorno. Isto me ensinou muito, todos estes anos em que venho lutando para retornar. Agora estou em paz com aquilo que sou na minha vida, onde estou na minha carreira”

Quanto aos abusos, ela diz que superou, como também os anos difíceis que se seguiram: “Tive a opção de ceder ou crescer e me desenvolver depois disso. Escolhi a última e estou orgulhosa de mim mesma e da minha família. Não deixei o problema me destruir. Foi difícil, certamente, mas acho que você sempre tem uma opção em tudo na vida. Ou se levanta e vai em frente e sai mais forte das suas experiências ou então cambaleia.

Mirjana, que treina sozinha nas quadras públicas em Sarasota, Flórida, tem apresentado um tênis espetacular na Austrália, particularmente no jogo em que venceu Agnieszka Radwanska, terceira no ranking, por 6-3 e 6-2. Esta sua classificação para as quartas de final “é muito mais gratificante do que seus dias de tenista prodígio, quando “era normal vencer torneios, normal vencer jogos importantes e superar os limites”.

Depois de chegar à quarta rodada no domingo, Mirjana, em uma entrevista, em tom jocoso, que recebeu faixas de congratulações depois de suas vitórias em 1998, ano em que venceu pela última vez uma partida de simples em Wimbledon.

Mas depois de chegar às quartas de final com sua vitória sobre Jennifer Brady por 6-4 e 6-2, ela assumiu um tom mais provocativo.

“Sou dura, e teimosa. E quando desejo alguma coisa eu me empenho ao máximo e farei tudo para alcançar. Não é uma garantia, claro, de que vai chegar aonde quer. Mas que satisfação estou sentindo neste momento, é incrível”.

E ela continuou a falar, com algumas pausas, exortando outras pessoas que enfrentam obstáculos e situações similares a buscar uma saída, mesmo que tenham de avançar sozinhas.

“As pessoas acham que conhecem a minha história, mas na verdade não. Um dia, quando eu tiver vontade de falar sobre isso, o farei. No momento não. Mas as pessoas acham que sabem, E não têm ideia. Muitas vezes quando ouço insultos e coisas do tipo, não considero isso um problema, absolutamente”.

Mas um dos problemas que ela enfrentou foi uma penosa batalha judicial que intensificou quando a antiga empresa que administrava sua carreira, a IMG, processou a tenista e sua família porque seus resultados na quadra desmoronaram em 2003.

Nesse ano, ela contestou e o complexo processo legal ainda não foi solucionado 14 anos depois. A empresa alega que ela tem de pagar os empréstimos que não resgatou e a tenista contesta, afirmando que a IMG lhe deu prejuízos ao incentivá-la a recusar ofertas de patrocínio lucrativas achando que acordos melhor surgiriam depois.

E não surgiram. Nos últimos anos Mirjana, sem patrocínio, tem usado uma seleção de uniformes. Este ano em Melbourne, a vimos com uma viseira Babolat, um top marca Adidas e uma saia da Nike. Ela descreve o atual guarda-roupa de quadra como “qualquer coisa que acho que devo vestir no dia”.

Em Melbourne, no jogo em que venceu Jennifer Brady ela também enfaixou sua coxa e perna esquerda. Indagada sobre como estava sua resistência física depois de chegar às quartas de final, tanto nas partidas de simples e duplas, ela riu:

“Muito bem. Ainda tenho muito pela frente, portanto procuro me manter tranquila, sempre usando faixas. Não quero falar muito sobre isto. Ainda estou aqui. E ainda lutando. O coração está 100%, é o que importa”.

* Tradução de Terezinha Martino

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