Chang W. Lee/NYT
Chang W. Lee/NYT

Naomi Osaka: uma rainha tímida e avessa aos holofotes

Primeira asiática a liderar o ranking, é discreta até na celebração dos títulos, como na Austrália

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2019 | 04h30

Esqueça as roupas chamativas de Serena Williams e as poses de Maria Sharapova. A nova estrela do tênis mundial é tímida e faz o maior esforço para não chamar a atenção. Naomi Osaka prefere se destacar apenas pela sua performance esportiva em quadra e preza pela discrição até na comemoração de grandes títulos, como aconteceu ao levantar o troféu do Aberto da Austrália, no fim de semana.

“Eu esqueci de sorrir. Me falaram para eu sorrir, mas eu me esqueci”, diz a japonesa, agora entre risadas, horas depois da consagração. A tenista de 21 anos admite o incômodo diante dos holofotes. “Eu estava entrando em pânico”.

Ela não terá muito tempo para se acostumar à atenção do público e da imprensa. Ao levantar o troféu em Melbourne, a tenista se tornou a primeira tenista asiática, tanto no feminino quanto no masculino, a ocupar a liderança do ranking.

A rápida ascensão na lista da WTA é resultado também da conquista do US Open, seu primeiro grande título da carreira, em setembro do ano passado. Ela venceu, portanto, dois Grand Slams seguidos, o que não acontecia há quase 18 anos no circuito feminino.

O primeiro triunfo ficou marcado pelos arroubos verbais de Serena Williams, o que acabou mobilizando a torcida norte-americana contra Osaka na cerimônia de premiação em Nova York. Constrangida, a japonesa chorava de vergonha diante das câmeras. Na Austrália, ela pôde aproveitar a vitória.

Mas não muito. “Eu liguei para a minha mãe depois das entrevistas. Ela nem me deu os ‘parabéns’. Só gritou comigo para eu dormir logo porque estava tarde”, disse Osaka. “Então, eu me senti muito amada.”

Pais. A mãe e o pai de Osaka são figuras centrais em seu sucesso. A japonesa Tamaki Osaka precisou romper com a família e deixar o seu país para poder se casar com o haitiano Leonard François. Ele, por sua vez, admite se inspirar em Richard Williams, pai das irmãs Serena e Venus Williams, na formação das duas filhas tenistas – Mari Osaka, irmã de Naomi, é a atual 332.ª do mundo.

A nova número 1 nasceu no Japão, coincidentemente na cidade que carrega no sobrenome. Mas foi morar nos Estados Unidos, com seus pais e a irmã, aos três anos. Tem dupla nacionalidade, porém se sente mais à vontade falando inglês do que japonês. Foi ideia do pai fazer a tenista representar o Japão em razão da menor concorrência.

A mistura cultural tornou Osaka a nova aposta de sucesso também fora das quadras. Os traços asiáticos e negros, além dos cabelos escuros levemente tingidos de loiro, fazem sucesso entre mais jovens. Apesar da voz baixa e do olhar tímido, quase sempre mirando o chão, a japonesa pode se tornar popular.

A dificuldade será aprender a lidar com a fama. “Sempre fui uma jogadora simples, que nunca gostei da fama. A fama não me atrai, mas sei que acaba vindo junto com os resultados”.

Outro desafio será conviver com a pressão de ser a número 1 do mundo. “Estar nesta posição agora é algo irreal para mim”, admite Osaka, que chegou para o Aberto da Austrália do ano passado na 72.ª colocação.

A japonesa já enfrentou e superou as primeiras cobranças no ano passado, após despontar no Torneio de Indian Wells, em março. Sem conseguir repetir o resultado nas competições seguintes, ela encarou sintomas de depressão. “Precisei fazer um trabalho mental depois do US Open para acreditar que poderia vencer na Austrália”.

Sua força mental será testada mais uma vez nos próximos meses, quando terá pela frente Roland Garros e Wimbledon, onde não têm resultados de expressão. Sua melhor campanha foi a terceira rodada. “Não gosto do saibro porque não se encaixa com o meu estilo de jogo. O mesmo acontece com a grama. Vejo o pessoal deslizando sobre ela e isso me dá um pouco de medo. Vou ter que mudar a minha mentalidade”, projeta a nova estrela.

 

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