Samer Al-Rejjal|Reuters
Roger Federer é um dos maiores tenistas de todos os tempos Samer Al-Rejjal|Reuters

Roger Federer é um dos maiores tenistas de todos os tempos Samer Al-Rejjal|Reuters

Nova biografia destrincha genialidade e fraquezas de Roger Federer

Obra foi escrita pelo jornalista americano Christopher Clarey a partir de mais de 80 entrevistas ao longo de 20 anos acompanhando o tenista suíço

Felipe Rosa Mendes , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Roger Federer é um dos maiores tenistas de todos os tempos Samer Al-Rejjal|Reuters

Afirmar que uma biografia humaniza seu protagonista pode parecer um clichê. Mas, quando se trata de livros sobre tenistas, a tarefa se tornou uma virtude nos últimos anos. Com frequência, obras do tipo se assemelham a um entediante almanaque, com descrições de jogos e listas intermináveis de resultados. É exatamente o oposto disso que se pode encontrar na mais recente obra sobre Roger Federer: “Federer, o Homem que Mudou o Esporte”, escrito pelo jornalista americano Christopher Clarey e publicado no Brasil pela editora Intrínseca.

O experiente repórter do jornal The New York Times traz um relato completo sobre a vida e personalidade do tenista suíço, construídas a partir de mais de 80 entrevistas. Somente com Federer foram “23 ou 24” ao longo de 20 anos, segundo afirmou o autor ao Estadão. Na prática, o leitor tem acesso a informações e observações colhidas por Clarey durante duas décadas. Ele estava lá na estreia do jovem suíço em um torneio de Grand Slam, em Roland Garros, em 1999, e também viu de perto o 20º troféu conquistado por Federer na série dos torneios mais importantes do mundo, no Aberto da Austrália, há três anos.

Ao longo de 420 páginas, o americano faz o que nenhum outro biógrafo de Federer fez ao destrinchar sua personalidade, sua técnica (sem jamais ser enfadonho), suas conquistas ao mesmo tempo em que revela suas fraquezas. Isso só foi possível ao amplo acesso que teve ao próprio tenista, a ex-treinadores do suíço, ex-jogadores, como Andy Roddick e Marat Safin, e aos grandes rivais Rafael Nadal e Novak Djokovic.

“Federer, o Homem que Mudou o Esporte” revela um gênio vulnerável. Alguém que virou lenda e obteve recordes incríveis no circuito, porém sofreu duras derrotas e vem assistindo aos rivais superarem suas marcas gradualmente nos últimos anos. “Ele foi um grande campeão, mas também um grande perdedor. Perdeu muito. As maiores partidas em que esteve foram derrotas, com exceção da vitória sobre Nadal na final do Aberto da Austrália de 2017. E isso é algo muito extraordinário para um cara com essa imagem e reputação”, disse Clarey ao Estadão.

Para o biógrafo, as derrotas para o espanhol e para Djokovic contribuíram para sua imagem de tenista falível, o que ajudou em sua popularidade. “O motivo que o tornou tão querido do público é porque ele se tornou vulnerável desde cedo. Ele perdeu para o Nadal em Miami pela primeira vez em 2004. Foi muito cedo, ele estava começando a dominar o circuito”, lembrou o americano. Arrisco uma hipótese: teria Federer se tornado um Michael Schumacher, infalível e pouco popular, se não houvesse seus dois maiores rivais? “Concordo totalmente com essa ideia”, respondeu o americano.

Clarey argumenta que a personalidade expansiva do suíço, sua sensibilidade (e fama de chorão) e a conexão com os fãs foram elementos importantes para ele se tornar um fenômeno global. O status de celebridade, não planejado pelo tenista, foi uma construção coletiva, de acordo com a nova biografia.

O experiente jornalista, com 15 Olimpíadas no currículo, aponta diversos fatores que permitiram ao suíço se tornar tão genial dentro e fora das quadras. O apoio da família e o fato de nascer e passar a vida toda na Suíça, perto dos grandes torneios do circuito, foram complementados por pessoas determinantes em sua trajetória, como o australiano Peter Carter, seu primeiro técnico. “Se não fosse Peter, Roger poderia ter se tornado jogador de futebol”, diz Clarey.

Federer ajudou a “mudar o jogo”, como diz o título da biografia em português, não apenas com sua técnica acima da média. Na obra, o americano mostra como também foram fundamentais a escolha do preparador físico Pierre Paganini, o namoro e futuro casamento com a ex-tenista Mirka, os demais treinadores e a decisão de assumir ele mesmo a gestão da sua carreira, algo inédito até então no circuito.

O suíço ainda desbravou novos territórios ao passar longe das controvérsias e dos escândalos ao longo de 20 anos de carreira. Para Clarey, o tenista tem o que chamou de “inteligência social e emocional” acima da média. “Ele vê o problema antes de acontecer. E encontra um jeito de resolver antes de se tornar um grande problema. Não é por acaso que ele atravessou 20 anos sem qualquer escândalo. É porque é muito inteligente e tem empatia.”

A imagem limpa aproximou o suíço de grandes patrocinadores. Federer está perto de se tornar o primeiro tenista da história a acumular US$ 1 bilhão em sua carreira. E, para o biógrafo, essa habilidade de lidar com apoiadores, imprensa e fãs é o que torna o suíço o maior da história no “pacote completo”.

A opinião contrasta com avaliação de outros especialistas, que apontam ora Nadal ora Djokovic como os maiores da história. Os três detêm, empatados, o recorde de títulos de Grand Slam - 20 -, que é a maior referência para definir o maior de todos. No entanto, o sérvio vem superando outras marcas importantes nos últimos anos, esquentando ainda mais a discussão.  

“Quando falamos de grandiosidade de forma geral, eu diria que é preciso levar em consideração outras coisas além dos resultados, como o que o tenista trouxe para o jogo, a conexão que criou com os fãs, o prazer que ele dá ao público quando vê suas partidas, o jeito como ele se comporta e a imagem que dá ao tênis. Então, diria que Roger é o melhor neste aspecto, no pacote todo.”

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'Acredito que Federer não voltará ao circuito', diz biógrafo

Jornalista Christopher Clarey faz sua análise da carreira do astro suíço no livro "Federer, o Homem que Mudou o Esporte"

Entrevista com

Christopher Clarey, escritor norte-americano

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2021 | 10h00

A biografia “Federer, o Homem que Mudou o Esporte”, escrita pelo americano Christopher Clarey e publicada no Brasil pela editora Intrínseca, foi lançada em 16 línguas quase ao mesmo tempo em diferentes cantos do planeta nas últimas semanas. E a rotina do jornalista do The New York Times tem sido dar entrevistas sobre o livro protagonizado pelo tenista suíço Roger Federer enquanto segue com seu trabalho no grande jornal americano.

Mesmo assim, ele conseguiu reservar uma hora para conversar com a reportagem do Estadão, por vídeo, de Nova York, sobre seu primeiro livro. O experiente repórter aponta suas impressões sobre a vida e carreira do suíço, mostra a importância de sua trajetória, dá um palpite sobre sua futura aposentadoria e diz quem considera ser o melhor de todos os tempos. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.   

Quando Federer vai se aposentar?

Não acredito que ele voltará ao circuito (após nova cirurgia no joelho). É um palpite. Acredito que ele vai perceber, durante seu processo de reabilitação, que o tempo mudou. Os caras novos chegaram. Ele tem muita coisa para fazer na vida dele. Aos 40 anos, vai conquistar mais o quê no circuito? Ele pode até voltar, mas será um retorno lento e difícil. Não acho que conseguirá vencer mais torneios de Grand Slam. E acho que não será feliz se não tiver chances de vencer estes torneios.

A genialidade de Federer é mais difícil de explicar do que a de Nadal ou Djokovic?

Essa é uma ótima pergunta... Não acho que seja difícil explicar. Todo mundo que segue tênis pode vê-la. Mesmo quem é de fora do mundo do tênis consegue ver. É como ver Messi num vídeo: ‘Veja aquele drible, uau’. O tênis de Roger é muito fácil de admirar, é quase uma dança. Novak e Rafa são diferentes. É mais sobre sensação. Acho que a genialidade de Novak é a mais difícil de ser explicada.

Federer é tão legal quanto parece? Ou tem muito marketing ali?

Acho ele é uma mistura dos seus lados suíço e sul-africano, com seu pai e sua mãe. Ele tem esse lado mais espontâneo, mais agregador. E também tem esse lado que calcula, pensa antes de fazer. Acho que ele precisa planejar as coisas para poder ser espontâneo e se sentir renovado o tempo todo... Se eu tivesse descoberto algum escândalo durante a pesquisa, teria colocado no livro, claro. Minha intenção não era esconder os esqueletos no armário. Roger é o tipo de cara que não gosta de conflito, nem nos negócios e nem na vida pessoal. Ele gosta de manter as coisas suaves. Mas, com certeza, tem um lado controlador e um olho forte em tudo o que faz.

As lesões dele ou pandemia fizeram você antecipar a publicação do livro?

Eu sabia que ele está chegando perto do fim. Pensei que seria uma boa esperar pela aposentadoria dele para poder finalizar o livro. E decidi pensando que muita gente estava interessada em escrever sobre ele, mesmo ele já sendo alvo de alguns livros. Percebi que tinha uma grande oportunidade por causa do acesso extraordinário que tive a ele, Nadal e Djokovic. Então, tinha esta janela de oportunidade e interesse de editores dos EUA e da Inglaterra para lançar a obra agora. Ao mesmo tempo, sei que sua obra já está completa como artista do tênis. Não vejo ele conquistando coisas maiores agora.

O que mais te surpreendeu nas mais de 20 entrevistas que fez com ele?

O cara não é blasé. A maioria dos atletas é meio “já vi isso, já fiz isso”. Ele não é assim, de jeito nenhum. Parece um garoto, com esse nível de entusiasmo e energia. Muitos atletas já estariam cansados de tudo isso com a idade dele. Mas ele tem uma alegria genuína por estar perto das pessoas, gritando por ele, como se fosse uma estrela do rock. Além disso, me surpreendia o jeito como respondia a cada pergunta sobre sua vida. Ele dizia não ser um cara que ficava “ticando” itens numa lista. Ele sempre diz que gosta de viver o presente.

O que ele mudou de fato no tênis?

Inicialmente, ele preservou coisas, como o backhand de uma mão só. Manteve isso relevante e influenciou tenistas como Shapovalov, Tsitsipas e toda uma geração. Acho que, se não fosse Roger, eles não jogariam assim. Ele definiu um padrão de como atletas modernos devem lidar com o esporte e suas responsabilidades. Ele mostrou a toda a nova geração que há um outro jeito de lidar com a carreira. E você pode lidar com classe, com humanidade. O tenista pode se envolver com a política da ATP, com os seus patrocinadores, com a imprensa e com a família. E ainda pode ser um grande tenista. E também tem a questão da longevidade. Ele mostrou que um tenista pode ter uma carreira longa, viável, se você não exagera, não joga demais, e encontra um caminho para se manter saudável e relaxado. Tenistas, como Ivan Lendl e Martina Navratilova levaram o tênis para um outro nível e tornaram suas equipes bem profissionais. Mas Roger entendeu muito bem as demandas físicas do esporte atual, desenvolvendo materiais e buscando novas soluções. E ele fez isso de forma muito inteligente.

Federer sem Nadal e Djokovic seria um Schumacher dominante na F-1, pouco popular e até odiado por vencer sempre?

Eu concordo com você 100%. O motivo que o tornou tão querido do público é porque ele se tornou vulnerável desde cedo. Nadal o venceu em Miami em 2004, logo quando começava a dominar o jogo. Acho isso fundamental para entender por que ele se tornou tão popular e de forma global. Claro que a beleza do seu jogo ajudou também. É preciso ver todos os aspectos: sua vulnerabilidade, seu belo jogo, seu plano para seguir saudável por tanto tempo e seguir nas quadras para que as pessoas possam estabelecer conexões. No tênis, você vê o rosto do jogador o tempo todo, a câmera se aproxima. É diferente do futebol. No tênis, são horas com o rosto do Federer na sua TV. Você acaba criando uma conexão com os tenistas.

Quais foram os erros cometidos por ele na carreira?

Acho que ele poderia ter mudado para uma raquete com cabeça maior antes. Ele foi um pouco teimoso. Isso teria o ajudado a enfrentar o Nadal em melhores condições no saibro. Em termos de treinadores, ele poderia ter tomado decisões diferentes ao longo da carreira. De forma geral, ele se saiu muito bem enquanto esteve sozinho. Acho que ele foi muito esperto neste aspecto e também na gestão de sua carreira, sem depender de ninguém. Com certeza, no começo isso deve ter lhe custado algum dinheiro, tempo e algumas preocupações. Mas ele aprendeu bastante com isso.

Federer é maior do que os seus 20 títulos de Grand Slam?

Sim. Não acredito que a grandiosidade de um tenista possa ser medida apenas pelos títulos de Grand Slam. Deve ser também sobre o número de troféus de nível ATP, e ele já superou os 100. Ele tem incrível consistência, recorde de semifinais seguidas em Grand Slam. E também tem o número de jogos que ele abandonou na carreira: zero. Ninguém que jogou tanto, até esta idade, pode ostentar este feito. Se este livro foi publicado em 16 línguas diferentes, não foi por minha causa, mas por causa dele. Com Roger, as pessoas têm uma conexão no nível mais humano. Não se trata apenas de imagem, mas do trabalho que ele entregou. As entrevistas que ele deu, as atividades com patrocinadores, conexões com os fãs, o quanto se entrega dentro de quadra. Toda a carreira dele e todo o seu esforço o tornam maior do que os seus resultados.

Na sua opinião, quais foram os 20 Grand Slam mais difíceis: os de Federer, Nadal ou os de Djokovic?

Houve dificuldades para os três em cada trajetória até o 20º. No caso de Federer, entre 2017 e 2018, foi impressionante. Mas eu diria que os mais difíceis foram os de Djokovic. Porque sinto que todos já estavam estabelecidos quando ele venceu os 20. E ele venceu todos os rivais. E as chances de ele se tornar um campeão eram a mais improváveis por causa de onde ele veio.

Quem é o maior de todos os tempos?

Eu não acredito em definir um melhor da história. Eu penso que o tênis mudou tanto, tiveram tantos grandes lá trás, como Bill Tilden, Ken Rosewall, Rod Laver, que deixaram de competir em diversos Grand Slams. Caras como o Bjorn Borg jogou o Aberto da Austrália apenas uma vez. Em termos de tênis puro, eu diria que o maior de todos é Djokovic, por suas habilidades em todas as superfícies, vitórias nos Masters 1000. Ele venceu os quatro Grand Slams ao menos duas vezes cada. E lidera o retrospecto contra Federer, sendo 3 vezes em Wimbledon, e Nadal, sendo duas vezes em Roland Garros. Quando falamos de grandiosidade de forma geral, eu diria que é preciso levar em consideração outras coisas além dos resultados, como o que o tenista trouxe para o jogo, a conexão que criou com os fãs, o prazer que ele dá ao público quando vê suas partidas, o jeito como ele se comporta e a imagem que dá ao tênis. Então, diria que Roger é o melhor neste aspecto, no pacote todo.”

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