Cristiano Andujar/CBT
Gabriela Azambuja: tenista conta com a ajuda da mãe, que passou a fazer e a vender bolos, para participar de torneios Cristiano Andujar/CBT

O duro caminho dos tenistas juvenis no Brasil

Longe do glamour, juvenis se apoiam na família e superam até fome no caminho até o tênis profissional

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2017 | 07h00

Esqueça o glamour de Wimbledon, a entrada triunfal dos tenistas no ATP Finals e todo o entretenimento dos torneios norte-americanos. Deixe de lado também o placar luminoso, os boleiros com toalhas à espera dos tenistas e até o juiz de linha. No mundo dos jovens atletas das raquetes, isso é distante no Brasil. 

Placar até existe, mas é manual e atualizado a cada dois games, para não sobrecarregar os atarefados e raros pegadores de bola. Árbitro, só de cadeira, quando tem. A toalha fica pendurada no alambrado enferrujado ou no cadeado da quadra.

Assim é a vida dos tenistas juvenis no País. Juntam-se lesões, falta de apoio, ansiedade e até fome. O brasiliense Paulo Saraiva se enquadra nesses casos. 

Nascido numa família humilde, de pai pedreiro e mãe diarista, o jovem de 16 anos se encantou pelo tênis num projeto social em Itapoã, cidade a 15 km de Brasília. O primeiro jogo foi em casa. “Paulo, você já viu filho de pobre jogando tênis?”, implicava a mãe antes de ceder. 

A entrada no circuito juvenil surgiu com o apoio do treinador. Antônio Lindoso identificou talento no rapaz. E deficiências na parte alimentar. “Percebia que, após uma hora de treino, ele começava a tremer.” Saraiva ia para o treino sem tomar café da manhã porque não tinha comida suficiente em casa. 

Lindoso, então, passou a dar frutas e verduras ao garoto. Ajudava com raquetes e bolinhas. Pagava para treiná-lo. Os resultados começaram a aparecer. Saraiva conquistou títulos locais e nacionais. Em 2016, tornou-se o número 1 do Brasil até 16 anos. Mas a boa colocação não evita os apuros de quem tenta romper o estigma de que tênis é um esporte elitizado.

Em 2016, perdeu na estreia num torneio em Salvador. Como não tinha dinheiro voltar, ficou uma semana lá esperando a mãe juntar os trocados. “Treinava na casa de um amigo do meu treinador. E tinha um restinho de dinheiro para comer”, conta.

O técnico acredita em seu pupilo. No entanto, esbarra numa barreira econômica ainda maior nesta fase. É o momento da delicada transição do juvenil ao profissional, com as caras viagens e a necessidade de pontuar na Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), primeiro sinal de profissionalização do atleta. 

Neste processo de transição, que é um grande funil para os aspirantes, Saraiva apostou numa “vaquinha online” no site Kickante. A meta era obter R$ 30 mil para um giro de torneios na Europa. Arrecadou R$ 9 mil. Conta agora com um mecenas na Espanha. Um experiente treinador conheceu sua história e ofereceu estrutura para treiná-lo gratuitamente. Mas os custos de viagem e hospedagem ainda pesam sobre o jovem brasileiro.

DO BOLO À BOLA

A busca por recursos é tão exigente que mobiliza famílias mais abastecidas. É o caso de Gabriela Azambuja. Filha de um promotor de Justiça, a jovem de 17 anos é de Palmas, no Tocantins, mas mora e treina em Itajaí (SC), a quase 2 mil km de distância de casa, na ADK Tennis, que vem se tornando celeiro de jovens tenistas no País. 

Os recursos do pai, contudo, não são suficientes para bancar a menina em torneios na América do Sul e os custos da família, que conta com a mãe, dois irmãos – um deles na faculdade – e um neto. A mãe Mery Azambuja, dona de casa, aprendeu a fazer bolos e começou a vendê-los para ajudar a filha tenista. “Aprendi só para poder vender e ajudá-la. O patrocinador oficial agora sou eu”, brinca.

Com os esforços, Gabriela começou o ano como número 1 do juvenil brasileiro. Longe de casa e do clube onde treina, seu maior desafio aconteceu fora da quadra. Sem recursos para viajar de avião, precisou de três ônibus e dois dias de viagem para voltar de Punta del Este no ano passado. Viajou sozinha, então com 16 anos, sem a companhia do treinador. Mas a experiência e os pontos fizeram a “aventura” valer a pena. “Fui vice-campeã daquele ITF”, comemora a jovem tenista, com suas unhas azuis e jeito de menina. 

“Mais da metade dos meus custos é bancado pelos meus pais. O tênis é um esporte caro, né? É muito sacrifício da família. Meus pais abrem mão dos sonhos deles para bancar as minhas viagens. Mas, se Deus quiser, esse sacrifício vai valer a pena”, comenta a jovem Gabriela.

O mineiro João Ferreira, tido como promessa, compartilha desta preocupação. “Minha família sempre me ajudou. E, às vezes, isso até acaba me gerando ansiedade nos jogos, para dar uma contrapartida ao sacrifício deles”, diz o tenista de 16 anos, filho de pais dentistas.

O começo é difícil. Gustavo Kuerten penou antes de estourar em Roland Garros. “Foi nesta transição, quando estava entre os cinco melhores do mundo, que perdi o patrocínio. Nos seis meses seguintes, perdi para todo mundo, sem confiança. O Larri (Passos) me botava para treinar na marra e me fazia acreditar”, contou Guga ao Estado.

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‘Sparrings’ de ídolos, jovens tenistas do Brasil sonham com circuito da ATP

Mateus Alves e João Ferreira, ambos de 18 anos, integram projeto da CBT

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2017 | 07h00

Enquanto uns tenistas ainda sofrem as agruras do tênis juvenil, outros já começam a saborear os benefícios do mundo profissional. É o caso de Mateus Alves e do próprio João Ferreira, dois dos 18 jovens tenistas que integram o Projeto Transição, da Confederação Brasileira de Tênis (CBT). Mateus e João têm a companhia de outros 10 tenistas no masculino. No feminino, são seis adolescentes.

Com investimento de R$ 400 mil por ano, a CBT escolheu juvenis com claro potencial de se tornarem profissionais para ganharem experiência em grandes torneios do circuito da ATP e da WTA. Na prática, eles acompanham tenistas profissionais, como Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro, Bruno Soares e Teliana Pereira, nas competições e têm a chance de se tornarem “sparrings” de atletas do Top 10 do ranking mundial.

O objetivo do projeto é colocar os juvenis em contato com os grandes tenistas da atualidade, principalmente nos momentos de treinamento. Mateus Alves, por exemplo, pôde treinar com o espanhol Rafael Nadal, um dos maiores da história, e o escocês Andy Murray, atual número 1 do mundo, no Masters 1000 de Cincinnati, nos Estados Unidos, em agosto do ano passado.

“Foi uma experiência muito boa, é incrível a sensação de treinar com os caras que eu sempre vi na TV. São ídolos mundiais”, disse ao Estado o tenista de 16 anos. “Pude aprender um pouco da intensidade deles, de como eles treinam, como se preparam. Foi muito importante para o meu crescimento dentro de quadra”, afirmou Mateus, que treinou também com o espanhol David Ferrer e os franceses Gilles Simon e Jo-Wilfried Tsonga.

A experiência em Cincinnati marcou o projeto piloto do Transição, que terá um calendário regular ao longo de 2017 para os juvenis do Brasil. Serão até oito torneios que servirão de oportunidade para os jovens fazerem uma imersão no mundo do tênis profissional.

“E não é só treinar ou aquecer, é vivenciar o dia a dia, o bastidor do circuito. É numa conversa informal, na janta ou indo para o clube que o menino aprende alguma coisa importante”, afirma Eduardo Frick, gerente esportivo da CBT.

Para tanto, os juvenis brasileiros têm “padrinhos” e “madrinhas” nos torneios. Mateus contou com o apoio e experiência de Bruno Soares em Cincinnati. No Brasil Open, no primeiro evento do projeto neste ano, os juvenis João Ferreira e Gabriel Decamps contaram com o apadrinhamento do veterano André Sá, em São Paulo.

“Os padrinhos e madrinhas participam do aquecimento dos meninos e meninas, contam como é o dia a dia, convivem com eles, explicam como funciona e apresentam a eles o circuito de alto nível”, diz Frick. “Me atrevo a dizer que ir a um torneio do projeto é dez vezes melhor do que jogar uma competição para pontuar na ATP. Torneios futures têm toda semana. Mas não é toda semana que você tem a oportunidade de aquecer com o Murray ou treinar com o Nadal. Isso não tem preço.”

Pelo projeto, a CBT banca passagens aéreas e hospedagens do juvenil e também do seu treinador.  “Nosso plano está indo muito mais na ótica de desenvolvimento macro do jogador. Não adianta mandar o jogador se ele voltar para casa e não saber como atuar na rotina. O treinador é importante para ver como são as rotinas e aplicá-las no dia a dia do jogador”, explica o presidente da CBT, Rafael Westrupp.

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Projeto em Barueri se transforma em ‘fábrica de talentos'

Instituto Tênis caça atletas e investe no alto rendimento: meta é formar um número 1 do mundo até 2033

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2017 | 07h00

Thaisa Pedretti acorda às 6h20, toma café da manhã e vai para a quadra de tênis. Treina, almoça, descansa, volta à quadra e faz mais treinos físicos para encerrar o dia. Tudo isso no mesmo lugar. Ela é uma das 40 atletas que vivem no Instituto Tênis, centro de treinamento que persegue a meta ambiciosa de forjar um número 1 do mundo até 2033. Comum em outros esportes, um CT no qual os atletas respiram a modalidade 24 horas por dia é coisa rara no tênis. Principalmente de graça. 

O Instituto Tênis tem dois focos principais. O primeiro é a formação de atletas de alto rendimento. Desde janeiro, está localizado no Sportville, espaço criado pelo técnico de vôlei José Roberto Guimarães para a seleção feminina de vôlei em Barueri (SP). Atletas dos 6 aos 23 anos são atendidos por uma equipe técnica com 18 profissionais, de preparadores físicos a psicólogos. A entidade investe R$ 17 mil por mês em cada atleta, o que dá cerca de R$ 200 mil por ano. 

O outro pilar é o projeto de massificação. Por meio de convênios com as prefeituras ou com escolas de iniciação esportiva, o instituto mantém seis núcleos no interior de São Paulo, Vila Velha (ES) e Brasília (DF). O objetivo é caçar talentos. Em Santana de Parnaíba, por exemplo, o convênio com a secretaria de Esportes inseriu o tênis na grade das aulas de educação física. 

Essa capilaridade ajuda as 15 mil crianças que já passaram pelo projeto em três anos. Nesses locais, as aulas nem sempre são dadas em quadras de tênis, mas nas poliesportivas, de futebol de salão e vôlei. Os profissionais do instituto levam redes, raquetes e bolinhas. O talento descoberto vai para Barueri. 

Cristiano Borelli, diretor executivo do Instituto Tênis, ressalta que o projeto tem visão de médio e longo prazos. A data de 2033 é o resultado do plano estratégico de 20 anos que a entidade desenvolveu em 2013. Outra meta audaciosa aponta que o Brasil pode ter 500 mil praticantes de tênis em duas décadas. O instituto pretende colocar um tenista entre os 20 melhores do mundo no juvenil e ao menos dois entre os 100 melhores. 

Os resultados já começam a aparecer. Thaisa Pedretti é a brasileira mais bem colocada no ranking mundial juvenil (36.ª). Fernando Yamacita e Marcelo Tebet já fizeram finais de duplas em torneios da ATP; Matheus Pucinelli, João Lucas Reis da Silva, Igor Gimenez e a própria Thaisa, outras crias da entidade, alcançaram seis títulos de simples e quatro de duplas. O 36.º lugar de Thaisa não é a melhor colocação do Brasil na história do juvenil. Teliana Pereira foi a número 12 em 2006 e Orlando Luz chegou à liderança em 2015. 

O Instituto Tênis se mantém principalmente com o apoio da iniciativa privada – 80% dos recursos vêm da Lei de Incentivo ao Esporte que prevê a destinação de 1% do IR devido pelas empresas para programas esportivos; outros 5% são da Lei de Incentivo Estadual (ICMS) e 10% são de marketing ou doação. 

ZÉ ROBERTO

Único brasileiro tricampeão olímpico de vôlei, o técnico José Roberto Guimarães sempre foi apaixonado por tênis. Em 1979, quando jogava vôlei na Itália, conseguiu ver uma partida de um de seus ídolos: a lenda Bjorn Borg. “Eu tinha uma foto em tamanho natural dele. Viajei para Montecarlo só para vê-lo. O problema foi que ele perdeu para o Vitor Pecce por 2 a 0”, relembra.

A paixão que Zé Roberto carrega desde a infância – os amigos contam que ele joga quase todos os dias – é uma das razões para que o centro de treinamento que construiu em Barueri, o Sportville, se transformasse na sede do Instituto Tênis. “Sempre fui apaixonado por projetos esportivos com crianças, jovens e adolescentes. Conviver de perto com eles e presenciar tudo o que está sendo feito é motivo de muito orgulho”, diz o técnico.

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