Julien de Rosa/EFE
Julien de Rosa/EFE

Os muitos lados de Novak Djokovic, expostos para todo mundo ver

Sérvio não se parece em nada com Roger Federer e Rafael Nadal. Se estes dois são discretos e controlados, aquele outro é um exibicionista irreverente e sentimental. É só dar uma olhada nos vídeos

Matthew Futterman, The New York Times

09 de outubro de 2020 | 18h51

Enquanto Roland Garros caminha para seu último fim de semana, pela primeira vez em anos os olhos do mundo do tênis não estão voltados exclusivamente para Rafael Nadal, doze vezes campeão. Novak Djokovic, primeiro no ranking da ATP, está em busca de absolvição, para encerrar um ano em que chamou mais atenção por questionar as vacinas, contrair o coronavírus num evento mal organizado e perder a cabeça no U.S. Open, o que causou sua desclassificação.

Djokovic vinha dizimando seus oponentes com cruel eficiência antes que uma rigidez em toda a parte superior do corpo o retardasse um pouco nas quartas de final contra Pablo Carreño Busta, na quarta-feira. Djokovic venceu por 4-6, 6-2, 6-3, 6-4 para chegar às semifinais, quando sofreu para superar Stefanos Tsitsipas,  por 3 sets a 2, com parciais de 6/3, 6/2, 5/7, 4/6 e 6/1, em 3h54min. Mas não são os forehands e backhands que o têm colocado nos holofotes ultimamente.

O mais jovem e menos previsível dos Três Grandes do tênis masculino – junto com Nadal e Roger Federer – Djokovic, sérvio de 33 anos, é um exibicionista, um showman do tênis cujos riscos podem se transformar em espetáculos – bons e ruins.

Essas qualidades pareceram ajudar nas quartas de final na quadra Philippe Chatrier, quando ele lançou suas fuzilações verbais contra seu técnico e soltou vários berros guturais de estourar os pulmões para afastar um medo primitivo.

Mas ele não tinha lidado muito bem com essas coisas três semanas antes, em Nova York. Na quarta rodada do U.S. Open, também enfrentando uma frustração inicial contra Carreño Busta, Djokovic foi se livrar de uma bola e a acertou acidentalmente na garganta uma juíza de linha que estava a uns 12 metros de distância. O incidente levou à sua desclassificação do torneio, além de pedidos de desculpas e promessas de mais introspecção e crescimento pessoal.

Ao contrário de seus colegas de elite, Djokovic há muito se sente confortável em permitir que o público o veja como algo além de uma máquina de jogar tênis, mesmo que para isso tenha de lidar com as consequências. “Não sou um cara que gosta de separar a vida profissional da vida privada e dizer que sou uma pessoa completamente diferente na quadra de tênis e na vida pessoal”, disse Djokovic na segunda-feira, depois de vencer o russo Karen Khachanov pela quarta rodada. “Acho que é uma coisa muito difícil de fazer”.

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Não sou um cara que gosta de separar a vida profissional da vida privada e dizer que sou uma pessoa completamente diferente na quadra de tênis e na vida pessoal
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Novak Djokovic, tenista

Federer mostrou um raro pedaço de sua vida privada na primavera, durante o auge dos lockdowns europeus, num vídeo que o mostrava todo agasalhado e fazendo uns truques e brincadeiras rebatendo a bola contra a parede na Suíça.

Djokovic, um dos poucos atletas modernos que realmente permitem que as pessoas vejam grandes porções de sua persona, produziu uma série de conversas sinuosas e meio New Age com seu amigo e guia espiritual, Chervin Jafarieh, explorando uma ampla gama de temas, entre eles a importância da intenção e um debate – que deixou os dois em maus lençóis – sobre se a clareza espiritual pode pegar uma água contaminada e transformá-la em água potável (não pode).

Na quadra, Djokovic há anos busca um equilíbrio entre manter as emoções e irreverências sob controle e ostentar uma personalidade que é impetuosa, atrevida e autoconsciente. A questão é: será que Djokovic precisa ser o showman extrovertido e imprevisível – que Federer e Nadal claramente não são – para jogar seu melhor tênis, mesmo que isso às vezes o deixe em apuros?

“É tudo uma curva de aprendizado”, disse Djokovic sobre sua mentalidade na quadra. “É um negócio sério. Às vezes você se diverte. Às vezes você fica frustrado”.

O establishment do esporte vem tolerando Djokovic por causa de seu tênis sublime e porque ele é um ímã para os olhos, mesmo durante o confinamento. Enquanto Nadal ficava na dele e Federer dava sua aula de truques com a bola durante o hiato do coronavírus, Djokovic decidiu iniciar o que chama de “Projeto de Autodomínio” com Jafarieh, “meu irmão de outra mãe”, como Djokovic o descreve.

Jafarieh, ex-executivo de imóveis comerciais e fundos de hedge que agora dirige uma empresa de suplementos nutricionais, é uma espécie de coach de vida / guia espiritual / fonte de afirmação para Djokovic.

Jafarieh não respondeu aos pedidos de entrevista.

Seus vídeos de baixa tecnologia estão cheios de falhas, delays, ângulos inclinados e até um tempo meio morto e constrangedor enquanto Djokovic espera Jafarieh entrar na chamada de vídeo. Djokovic é espontâneo, curioso, apaixonado e propenso a cair em discussões que ziguezagueiam em direção a destinos difíceis de compreender.

Essa paixão pode ser uma espada de dois gumes. Ela o levou a organizar seu malfadado torneio de tênis Adria Tour em Belgrado, na Sérvia, em junho, mesmo com as altas taxas de infecção por coronavírus. Djokovic e seus companheiros lotaram o estádio e deram pouca atenção às diretrizes de distanciamento social.

Em poucos dias, Djokovic e três outros jogadores famosos testaram positivo para o vírus. Os eventos subsequentes foram cancelados.

E no U.S. Open em Nova York no mês passado, Djokovic se tornou o primeiro número 1 do mundo a ser desclassificado em um torneio Grand Slam no tênis profissional. Zangado consigo mesmo por seus erros no jogo, Djokovic puxou uma bola do bolso e a bateu para trás, sem intenção de acertar a juíza.

Horrorizado e envergonhado com o que tinha feito, Djokovic correu para junto dela quando ela caiu no chão. Ele implorou para que as autoridades do torneio não o desclassificassem, mas sabia que não tinham escolha.

Djokovic deixou o Billie Jean King National Tennis Center imediatamente e, depois de uma hora, postou um caloroso pedido de desculpas para a juíza de linha e o U.S. Open. E prometeu crescer com a experiência, “como jogador e ser humano”.

Na quarta-feira Djokovic disse que não está pensando nada nas coisas desagradáveis que aconteceram no U.S. Open. “Zero por cento”, disse ele.

Na segunda-feira, porém, uma de suas tentativas de devolução de saque ricocheteou na sua raquete e foi parar na cara de outro juiz de linha. No mesmo instante ele já estava pensando em Nova York mais uma vez – e se certificando de que o juiz de linha estava bem. “Caramba”, disse ele, “foi um déjà vu muito estranho”.

E mais uma cena para a retrospectiva de sua carreira. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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