Rob Foldy|AFP
Federer comemora conquista do Masters 1000 de Miami Rob Foldy|AFP

Os segredos da longevidade de Roger Federer

Planejamento, disciplina, força física e mental e evolução técnica tornam o suíço de 35 anos um dos maiores da história

Felipe Rosa Mendes e Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2017 | 06h00

Bjorn Borg levantou seu último troféu de Grand Slam aos 25 anos. Ivan Lendl ganhou suas derradeiras taças aos 33. John McEnroe encerrou sua sequência de 109 conquistas aos 32, mesma idade em que Andre Agassi foi campeão de um Major pela última vez. Pete Sampras se aposentou após vencer o US Open de 2002, aos 31. Em 2017, aos 35 anos, um certo suíço está acabando com essa barreira da idade, que parecia intransponível. Não apenas faturou um Grand Slam, na Austrália, como também levou os títulos de Masters 1000 de Indian Wells e Miami, os principais do início da temporada. Mas, afinal, qual é o segredo da longevidade de Roger Federer?

René Stauffer, compatriota e biógrafo do suíço, aposta no planejamento a longo prazo para explicar a vitalidade do dono do recorde de 18 títulos de Grand Slam. “Roger nunca buscou metas de curto prazo, ele sempre quis estender ao máximo o seu tempo no circuito”, afirmou o jornalista ao Estado.

Um dos méritos do tenista, avalia, foi escolher bem o estafe. “Ele conta com uma equipe muito boa e todos trabalham com planos de longo prazo. Pierre Paganini, o preparador físico, é a figura principal no seu elaborado planejamento”, diz o suíço, autor de A Biografia de Roger Federer.

Mas não é somente o eficiente planejamento que explica a rápida recuperação do tenista, após se afastar por seis meses das competições para tratar uma lesão no joelho. “Primeiro de tudo: ele está em forma novamente. Seu joelho não o incomoda mais. Além disso, teve seis meses para ficar em forma, luxo que nunca teve. Também não tinha expectativas e jogou sem a pressão de ter de vencer em seu retorno. E, por fim, sua esquerda está melhor do que nunca”, enumera o biógrafo.

Para o ex-tenista Thomaz Koch, a condição física é uma das chaves para explicar o sucesso de Federer. “O preparo físico está impressionante”, afirma o brasileiro de 71 anos, que brilhou no circuito entre as décadas de 1960 e 70. Contemporâneo do suíço, Thomaz Bellucci também se surpreende com a forma física do ex-líder do ranking. “Os tenistas mais velhos geralmente perdem rendimento devido à parte física. Com Federer, isso não ocorre.”

DISCIPLINA

Com a experiência de 21 anos de circuito, André Sá, de 39 anos, atribui a longevidade à disciplina do suíço. “O segredo dele é trabalhar bem, se cuidar, saber seus limites, conhecer o próprio corpo. Saber o que é capaz de fazer. E ter uma equipe fantástica ao seu lado.”

“Federer é um verdadeiro atleta, é muito regrado”, complementa Fernando Meligeni, para quem o suíço é o melhor da história. “Só se consegue chegar a este ponto sendo muito bom jogador, se cuidando muito bem e escolhendo muito bem os torneios que vai disputar. Federer cumpre estes três pontos com maestria.”

Para tenistas e ex-atletas ouvidos pelo Estado, foi o bom preparo físico que permitiu a Federer evoluir ainda mais técnica e mentalmente. “Antes, ele batia na bola com um passo para atrás na quadra. Agora, dá quase um passo para dentro. É a diferença entre uma bola defensiva e uma ofensiva”, explica Meligeni. “É aí que entra o preparo físico e hoje ele está muito mais rápido do que estava nos últimos anos.”

Com melhor movimentação de pernas, o suíço conseguiu aperfeiçoar o backhand, o golpe que faz com a mão esquerda. “Ele já tinha a melhor direita do circuito, o melhor saque, o melhor voleio. E agora acertou a esquerda também, que era seu calcanhar de Aquiles.’’

A alteração no jeito de jogar acompanha uma mudança mental na avaliação de Koch. “A cabeça dele mudou demais. Está mais concentrado, mais agressivo, não deixa o adversário respirar. E essa confiança com a esquerda tem o dedo do treinador, com certeza”, argumenta, referindo-se ao croata Ivan Ljubicic, dono de uma das esquerdas mais poderosas do circuito.

A confiança elevada também faz a diferença fora da quadra, na opinião de Gustavo Kuerten. “Ele encara tudo com muita tranquilidade e simplicidade, tanto dentro quanto fora da quadra, na rotina do dia a dia. Isso economiza muito esforço, empenho. Só dessa forma ele consegue chegar tão longe”, disse.

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Aos 35 anos, Federer ainda não fala em aposentadoria

Suíço ainda tem lenha para queimar no circuito mundial

Felipe Rosa Mendes e Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2017 | 06h00

Apesar da vitalidade e dos títulos recentes, Roger Federer já reconheceu não ter muito mais tempo de circuito. Mas uma data para aposentadoria ainda é incógnita em sua carreira.

“Acho que nem ele sabe quanto tempo ainda poderá jogar. Em Indian Wells, disse para crianças que poderia jogar até os 40. Mas, se sofrer uma nova lesão, tudo poderá acabar muito rapidamente”, diz o biógrafo René Stauffer. Ele acredita que o prazer de jogar e a “dosagem” na escolha dos torneios poderão render mais algumas temporadas ao suíço. “É o amor pelo tênis que o mantém seguindo em frente. E ele consegue dosar sua fome pelo jogo ao não jogar tanto. É o que vai acontecer agora, com um longo descanso que vai ajudá-lo a chegar faminto em Paris, Wimbledon e Nova York”, afirma o jornalista, que acompanha a carreira de Roger Federer desde a infância.

O tenista suíço decidiu, após vencer em Miami, que ficaria fora da maior parte da temporada de saibro na Europa. Só deve competir em Roland Garros.

A ausência, contudo, não deve preocupar os fãs. “O que mais chama a atenção no Federer hoje é que ele está curtindo o jogo. E a primeira coisa que faz um jogador parar é a cabeça, não o físico”, diz Thomaz Koch. “Quando ele cansar do circo, quando for um sacrifício treinar, aí sim ele vai cair fora.”

Para Stauffer, o que motiva Federer são os títulos importantes e a competitividade. “O ranking agora não é mais fundamental. Mas atingir a marca de 100 títulos poderia ser uma boa meta.” O suíço tem 91 troféus.

Enquanto mira a grande marca, Federer inspira o mundo esportivo. “Roger serve de exemplo para quem está dentro e fora do tênis. Um jogador que já obteve tantos títulos, o maior vencedor de toda a história da modalidade, continua disposto a melhorar, a aprimorar. Isso é absolutamente incrível”, comenta Gustavo Kuerten.

Para veteranos do tênis brasileiro, a importância do suíço para a modalidade é incalculável. “Hoje ele é um ícone que transcendeu a barreira do esporte, se tornou uma personalidade. E isso dá muita publicidade e exposição para o tênis”, afirma André Sá. “São caras como ele que fazem as pessoas verem mais tênis na TV, que fazem o público consumir mais tênis”, concorda Fernando Meligeni.

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