?Outro Guga? Nunca mais!?, diz Meligeni

Falta informação. Não se joga tênis profissional como se faz no Brasil, diz Fernando Meligeni, o Fininho, de 32 anos, mirrado com 1,80 m e 64 kg, que este ano deixou de ser tenista profissional, depois de conquistar a medalha de ouro no Pan-Americano de São Domingos ? mas não perdeu a garra e o prestígio. Seu rosto vem aparecendo cada vez mais em comerciais (de apartamentos a roupas da Side Walk) e ele comanda o programa MTV Sports, mas seu negócio principal continua sendo o tênis.Seu primeiro empreendimento agora como empresário é a Copa Fino, torneio infanto-juvenil que está sendo disputado na Unisys Arena, na Avenida Nações Unidas, na Capital. Depois dos jogos, à noite, há palestras. Nesta quinta-feira fala Ana Pereira, especialista em marketing esportivo. Sexta, Marcelo Saliola promete contar por que largou a carreira tão cedo.Para Meligeni, há muita euforia e pouca consistência entre os jovens brasileiros que entram no mundo do tênis depois que Gustavo Kuerten se tornou número 1 do mundo. ?Eles têm de entender que não vai ter outro igual ao Guga. Ele é fora-de-série, é o nosso Michael Jordan, um Senna. Recebo e-mails de garotos de 12 anos querendo patrocínio. Eles vão precisar de patrocínio quando tiverem 16, 17 anos.?São toques que Fininho acha que faltam para pais e candidatos a jogadores. Leia o que ele disse à Agência Estado.Esporte para cachorro - ?O mais legal no tênis é a oportunidade de amadurecer muito jovem. O Dácio Campos (ex-tenista profissional e comentarista de tevê) costuma dizer que jogar tênis não é para santo, não é para bunda mole. Tênis é esporte para cachorro. Por quê? Porque você passa o tempo todo fora de casa. Com 17 anos tem aprender a lidar com sua grana, já é uma empresa, tem neguinho trabalhando para você. Tem patrocinador enchendo o saco se você perde, tem imprensa pressionando para você ganhar. Com 27, 28 anos dá para ter estrutura e agüentar, mas com 17... Você é obrigado a amadurecer na porrada muito cedo, vira um homem de negócios muito cedo, conhece o mundo, abre portas. O lado ruim é o lado pessoal. A maioria no circuito fica naquele bambolê, viaja nove meses por ano. A vida pessoal fica muito complicada.?Corpo mole - ?Existe uma tendência de o tenista brasileiro só sair na certa. O argentino, o uruguaio, o chileno encaram mais a dificuldade. O brasileiro só sai para jogar se souber do hotel onde vai ficar, se tiver grana para gastar e souber o torneio que vai jogar. Já falei com muito tenista brasileiro que diz ter US$ 1 mil e não sabe o que fazer. Eu digo: pega uma passagem de US$ 500, consegue mais US$ 300 ou US$ 400 e vai jogar campeonato na França. Sai daqui, passa na federação francesa, pede uma classificação e a partir daí, se vira.Dormir em trem - ?Tem uns que dizem: ?Ah, se for assim, paro de jogar?. Os argentinos encaram mais, dormem em trem na Europa. É horrível, mas quando o cara entra em um ATP, entra matando a pau. Já morou na rua. Tem jogador que me falou: ?Mas isso é f...? Na Alemanha dá para jogar interclubes e ganhar US$ 4 mil por mês. Viajar com técnico? Só com 22 anos. Se quiser crescer, vai ter de ralar, tomar porrada.?Cartolas não ajudam - ?Estamos passando por um momento complicado. Não falo mais nem na falta de um centro de treinamento. Não é possível que não sobre nenhuma verba da Confederação (CBT) no final do ano. Desde 1997, quando o Guga estourou, não se tem feito nada. Agora que estou do outro lado, dá para ver. Fiz um campeonato infanto-juvenil com 630 inscritos. Quem é federado pagou R$ 35 de inscrição. Quem não é, R$ 75. Faz a conta. Toda essa grana vai para a federação (FPT). É assim com qualquer torneio.?Centro de Treinamento - ?Não precisa nem fazer centro de treinamento. Não tem dinheiro, o governo não ajuda, seja qual for a desculpa, (a Confederação Brasileira) deveria pegar dois técnicos, pagar um salário para cada um e colocar em um clube, qualquer um, e dizer: ?A partir de hoje, esses serão técnicos e os jogadores interessados em ter um ranking na ATP vão ao clube tal?. O técnico vai estar lá à disposição. Todos os países têm isso. A Argentina tem. No Buenos Aires Lawn Tennis, o Gustavo Luza, que virou técnico da equipe na Copa Davis, e o Carlos Gattiker, que virou técnico do Mariano Zabaleta, ficavam lá à disposição. Não custa grana, custa idéia.?E a culpa... - ?Os ex-jogadores também tiveram muita culpa por essa situação. Por ser um esporte muito individual, a gente sempre foi muito amigo, mas nunca se juntou. Desde os meus 14 anos vejo as mesmas pessoas na CBT.Cobranças - ?A gente vai pagando e qual a renovação? Todo mundo coloca uma baita pressão no Guga, baita pressão no (Flavio) Saretta, no André (Sá). Precisa ter pressão em cima da estrutura. É muita injustiça cobrar só o jogador.?Guga - ?Todo mundo acha normal o Guga ser número 1 do mundo, se acostumou mal. Se tivesse ganhado mais um jogo de Masters Series terminaria o ano entre os 10 do mundo. Essa exigência tem um lado legal, tá puxando ele, dá motivação. Agora em dezembro ele vai treinar como um cachorro.?

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