Salvatore Edinolfi / EFE
Salvatore Edinolfi / EFE

Para proteger seu futuro, o tênis busca a união, mesmo no Aberto da França

Disputas envolvendo dinheiro e espaço no calendário já estão em andamento, e o bairrismo não deve parar por aí

Christopher Clarey, New York Times

04 de abril de 2020 | 05h30

Com os torneios de tênis cancelados em meio à pandemia do coronavírus, o esporte segue pensando no seu futuro enquanto Roger Federer treina bolas difíceis na neve contra uma parede, sozinho, em sua casa na Suíça.

Ao ser anunciado na quarta feira, o cancelamento de Wimbledon, pela primeira vez em 75 anos, deixou claro que o restante da temporada de 2020 corria perigo. Disputas envolvendo dinheiro e espaço no calendário já estão em andamento, e o bairrismo não deve parar por aí.


Mesmo se as partidas forem retomadas em julho, como planejado atualmente, uma pausa forçada de quatro meses representa um imenso prejuízo para a maioria dos jogadores, todos eles prestadores de serviços autônomos, e para suas equipes de apoio. Sem seguro, alguns torneios correm o risco de desaparecer, principalmente os eventos menos prestigiados, sem nenhuma garantia de resgate financeiro por enquanto.

Os jogadores de posição mais baixa nos rankings estão se unindo em torno de uma petição por auxílio financeiro, e alguns solicitaram que os torneios paguem adiantado ao menos a quantia estipulada para a primeira rodada, para ajudá-los a superar esse momento difícil. Com base em sua sólida posição financeira, Wimbledon pode até fornecer assistência direta a jogadores e a outros torneios.

“Ainda estamos debatendo tudo isso", disse John Isner, jogador americano de classificação mais alta e membro do conselho de jogadores da ATP, a liga masculina. “Os melhores jogadores do mundo devem ficar bem. Pessoalmente, ficarei bem, mas há outros que dependem do salário semanal para sobreviver. Nesse sentido, os jogadores aspirantes não estão em situação muito diferente daqueles que foram dispensados ou demitidos em outras profissões por causa da situação.”

Mas, entre os que precisam de ajuda nessa emergência, quem terá prioridade? Os jogadores e suas equipes de apoio? Os torneios e os funcionários de suas organizações?

“A ATP depende igualmente dos jogadores e dos torneios e, assim sendo, se os jogadores receberem um resgate, será necessário resgatar também os eventos", disse Chris Kermode, que dirigiu a liga masculina de 2014 a 2019.

A questão é se os jogadores vão aproveitar a oportunidade para mudar essa equação e finalmente criar uma organização própria, sem estarem diretamente vinculados aos torneios.

“Algo que sempre nos atrapalhou foi o fato de estarmos sempre jogando, sempre ocupados, e agora temos mais tempo para avaliar a situação", disse Isner. “Sei de muitos que andam falando na criação de um sindicato. Vamos estudar a possibilidade. Não consigo imaginar uma situação mais propícia para algo do tipo.”

Por enquanto, a disputa mais intrigante nessa quadra de incertezas é entre os organizadores do Aberto da França e as demais potências do tênis.

A decisão unilateral anunciada pela liderança do torneio no dia 17 de março, abandonando as datas tradicionais no fim de maio e início de junho e adiando sua realização para o fim de setembro e início de outubro criou um mar de ressentimentos.

A mudança de data invade outros torneios já marcados e tira de outros eventos a oportunidade de usar o mesmo período.

“Pelo que ouço, o Aberto da França reconheceu logo o erro de ter pisado no pé dos outros sem dar aos demais um aviso antecipado", disse Jim Courier, bicampeão do Aberto da França e ex-número 1 do mundo. “Me parece que os dirigentes debateram bastante o assunto desde então.”

Isso foi confirmado pelas autoridades do esporte, incluindo David Haggerty, presidente da Federação Internacional de Tênis.

“Acho que eles perceberam a necessidade de cooperar em decisões de tamanha importância para o tênis", disse Haggerty, referindo-se aos dirigentes do Aberto da França em entrevista pelo telefone concedida de Londres na quinta feira. “A boa notícia é que os sete principais envolvidos conversaram recentemente, debatendo o impacto para a temporada e o futuro do esporte.”

Os sete principais envolvidos são a diretoria dos quatro torneios do Grand Slam, da liga masculina, da liga feminina e da FIT, de Haggerty. Cada uma controla partes diferentes do calendário e do ecossistema do tênis, o que ajuda a explicar por que os conflitos internos são uma parte tão característica do esporte quanto a largadinha na rede.

Embora Kermode acredite que os patrocínios e o mercado de direitos de mídia permaneçam algum tempo em recessão, ele também vê esperança no potencial de união entre os afetados pela crise. A jogada do Aberto da França parece ter ajudado a vender essa ideia, nem que seja pelo fato de ter alinhado todas as demais organizações contra os franceses.

“Acho que, se isso durar todo o ano de 2020, acabando com essa temporada de tênis", disse Kermode, “será um ponto de virada para o esporte, um momento radical".

Após a rodada de cancelamentos da quarta feira, que incluiu Wimbledon e todos os eventos preliminares na grama, o esporte foi totalmente paralisado até 13 de julho, pelo menos.

A pausa pode ser consideravelmente maior a não ser que a situação do coronavírus melhore significativamente na Europa, que abriga a maioria dos torneios, e na América do Norte, onde ocorre a temporada principal de piso duro a partir de julho, culminando no Aberto dos Estados Unidos, em Nova York.

O que se sabe é que, no curto prazo, preservar os eventos mais rentáveis deve ser a prioridade.

No momento, as quadras do Aberto dos EUA estão sendo convertidas em um hospital temporário de 350 leitos, e o All England Club, onde é realizado o torneio de Wimbledon, deixou suas instalações à disposição das autoridades britânicas.

Mas, a essa altura, o Aberto dos EUA pretende manter as datas estipuladas, de 31 de agosto a 13 de setembro. O cancelamento seria um duro golpe para um torneio com receita total de quase US$ 400 milhões. Diferentemente de Wimbledon, acredita-se que o seu seguro não cubra a maior parte do prejuízo causado por uma pandemia.

A renda do Aberto dos EUA ajuda a financiar o esporte no país em todos os níveis e ao longo do ano. Wimbledon, que ajuda a financiar o tênis na Grã-Bretanha, pode resistir melhor ao golpe porque tem seguro abrangente e reservas generosas.

O Aberto dos EUA deve sem dúvida explorar todas as alternativas antes de seguir o exemplo de Wimbledon, mas as opções são limitadas em parte por causa da jogada do Aberto da França e em parte por causa do clima em Nova York (partidas ao ar livre não funcionam bem depois de certa altura do ano).

Com uma receita anual estimada em US$ 300 milhões que é vital para o tênis francês, o Aberto da França anunciou suas novas datas: de 20 de setembro a 4 de outubro. Mas os organizadores estão sob intensa pressão para atrasar sua realização em pelo menos mais uma semana, dando aos jogadores mais tempo de recuperação após o Aberto dos EUA e a volta às quadras de saibro na Europa. / Tradução de Augusto Calil

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.