Edgar Su/Reuters
Edgar Su/Reuters

Por que a China não consegue esconder Peng Shuai e seu escândalo #MeToo

Acostumada a impor suas mensagens para o público no país e no exterior, a máquina de propaganda chinesa ainda não aprendeu como criar uma narrativa que resista ao debate

Li Yuan, The New York Times

25 de novembro de 2021 | 20h00

O governo chinês se tornou extremamente eficaz no controle do que 1,4 bilhão de pessoas pensam e falam no país. Mas influenciar o resto do mundo é uma outra questão, como o caso de Peng Shuai demonstrou com propriedade. A mídia estatal chinesa e seus jornalistas vêm oferecendo uma evidência após a outra para provar que a estrela do tênis chinês está sã e salva, apesar de sua acusação pública de agressão sexual contra um poderoso ex-vice-premiê.

Um meio de comunicação controlado por Pequim afirmou ter obtido um e-mail que ela escrevera e no qual negava as acusações. Outro apresentou um vídeo de Peng em um jantar, no qual ela e seus convivas discutiam abertamente a data do dia, para provar que o vídeo fora gravado no fim de semana passado.

O clamor internacional se fez ainda mais audível. Em vez de convencer o mundo, a desajeitada resposta chinesa se tornou um exemplo clássico de sua incapacidade de se comunicar com um público que o país não consegue controlar por meio de censura e coerção. O Partido Comunista se comunica por meio de mensagens unilaterais de cima para baixo. Parece ter dificuldade em compreender que narrativas persuasivas devem ser apoiadas por fatos e verificadas por fontes confiáveis e independentes.

Em seus comentários oficiais, o Ministério das Relações Exteriores da China se esquivou de perguntas sobre Peng, alegando primeiro não ter conhecimento do assunto, depois que o problema estava fora de seu alcance. Na terça-feira, o porta-voz Zhao Lijian recorreu a uma tática familiar: questionar os motivos por trás da cobertura sobre as alegações de Peng. “Espero que certas pessoas acabem com a propaganda maliciosa e também com a politização do assunto”, disse ele a repórteres.

Nos últimos anos, a China se sofisticou no uso do poder da internet para promover uma narrativa mais positiva e menos crítica - um esforço que parece funcionar de vez em quando. Mas, no fundo, a máquina de propaganda chinesa ainda acredita que a melhor maneira de fazer os problemas desaparecerem é gritar com o outro lado. Ou ameaçar com o fechamento do acesso a seu vasto mercado e economia em expansão para silenciar empresas e governos que não compram suas histórias.

“Mensagens como estas são uma demonstração de poder: ‘Estamos dizendo a vocês que ela está bem, e quem são vocês para dizer o contrário?’”, Mareike Ohlberg, pesquisadora do German Marshall Fund, um instituto de pesquisa de Berlim, escreveu no Twitter. “Não se trata de convencer as pessoas, mas de intimidar e demonstrar o poder do estado”.

A China tem um histórico de testemunhos nada críveis. Uma proeminente advogada, depois de presa, denunciou seu próprio filho, em rede de televisão estatal, por fugir do país. Um gerente de livraria de Hong Kong detido por vender livros sobre a vida privada de líderes chineses disse depois de sua libertação que teve de fazer uma dúzia de confissões gravadas para que seus captores ficassem satisfeitos.

Desta vez, o mundo do tênis feminino não está comprando a história e sugeriu que não vai mais realizar eventos na China até que Peng esteja realmente livre do controle do governo. Os maiores nomes do tênis - Serena Williams, Naomi Osaka e Novak Djokovic, entre muitos outros - também não parecem ter medo de perder o acesso a um mercado potencial de 1,4 bilhão de fãs do esporte. A reação é problemática porque os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim devem começar em apenas algumas semanas.

O enorme exército de propagandistas do país desapontou as expectativas de seu líder, Xi Jinping, de que assumiria o controle da narrativa global sobre a China. Mas nem tudo é culpa sua: o fracasso está enraizado na natureza controladora do sistema autoritário da China.

(A propaganda oficial) pode obrigar Peng Shuai a representar qualquer papel, até mesmo uma encenação de que está livre”, escreveu Pin Ho, empresário de mídia radicado em Nova York, no Twitter.

Para as autoridades chinesas encarregadas da gestão de crises, continuou ele, esse controle é rotina. “Mas para o mundo livre”, disse, “isso é ainda mais assustador do que confissões forçadas”.

Um dos maiores indícios de que Peng não tem liberdade para falar o que pensa é que seu nome permanece censurado na internet chinesa. “Enquanto as coberturas sobre ela dentro e fora da China forem divergentes, ela não estará falando livremente”, disse Rose Luqiu, professora assistente de jornalismo na Universidade Batista de Hong Kong.

Apesar da manifestação de preocupação com o bem-estar de Peng no Twitter e em outras plataformas online que estão bloqueadas na China, a população chinesa tem pouco conhecimento das discussões.

Na noite de sexta-feira, enquanto o ímpeto da hashtag #whereispengshuai estava crescendo no Twitter, não consegui encontrar nenhum relato sobre a questão nas redes sociais chinesas. Ainda assim, Peng claramente chamou a atenção de chineses politicamente atentos. Mandei uma mensagem para uma amiga em Pequim que geralmente está a par dos temas mais falados do momento e perguntei, em palavras codificadas, se ela tinha ouvido falar de uma grande campanha para encontrar alguém. “PS?”, minha amiga adivinhou, usando as iniciais de Peng.

É difícil estimar quantos chineses souberam das alegações de Peng, as quais ela detalhou em uma postagem na mídia social chinesa no início deste mês. Sua postagem - que apontava o nome de Zhang Gaoli, um ex-líder do Partido Comunista, como seu agressor - foi excluída em minutos. Um usuário da mídia social Weibo perguntou em um comentário se salvar uma captura de tela da postagem de Peng seria crime. Outro usuário do Weibo, também em comentário, disse que estava com muito medo de compartilhar a postagem.

E tinham bons motivos para sentir medo. Pequim facilitou que se prenda ou acuse pessoas pelo que elas dizem online. Muitas pessoas têm suas contas de mídia social excluídas simplesmente por compartilharem conteúdo que os censores consideraram impróprio, como posts relacionados ao #MeToo.

A China está ressentida com sua má imagem na mídia ocidental e há anos vem falando em assumir o controle da narrativa. Xi Jinping, o líder máximo, disse que espera que o país tenha a capacidade de moldar uma narrativa global compatível com seu crescente status no mundo. “Conte bem a história da China”, ele instruiu. “Crie uma imagem credível, amável e respeitável da China.”

A mídia oficial sugeriu que a covid-19 saiu de um laboratório nos Estados Unidos e espalhou essa alegação não comprovada no Facebook e no Twitter. A China divulgou milhares de vídeos no YouTube e em outras plataformas ocidentais nos quais os uigures se diziam “muito livres” e “muito felizes”, enquanto o Partido Comunista executava políticas repressivas contra eles e outras minorias étnicas muçulmanas na região de Xinjiang.

Na realidade, a China está menos respeitada e suas narrativas menos confiáveis desde que Xi assumiu o poder há nove anos. Ele reprimiu os meios de comunicação relativamente independentes e eliminou as vozes críticas online dentro do país. Xi também incitou diplomatas e jovens nacionalistas que passaram a rugir contra qualquer sugestão de crítica ou depreciação. “Há três coisas inevitáveis na vida: a vida, a morte e a humilhação da China”, comentou um leitor em uma coluna minha.

Apesar do crescimento econômico relativamente rápido e da resposta relativamente competente à pandemia, a deterioração dos direitos humanos na China e sua postura internacional intransigente não estão ajudando sua imagem. As visões negativas sobre o país na grande maioria das economias avançadas do mundo atingiram um pico histórico no ano passado, de acordo com o Pew Research Center.

A China não consegue responder às perguntas sobre Peng de forma eficaz porque não consegue nem abordar o problema diretamente.

Zhang, objeto das alegações de agressão sexual de Peng, foi uma das autoridades mais poderosas do Partido Comunista antes de se aposentar. O partido vê as críticas a um líder importante como um ataque direto a toda a organização, então não divulga as acusações de Peng. Como resultado, os jornalistas da mídia estatal que estão tentando argumentar que Peng está bem não podem nem mesmo se referir ao assunto diretamente.

Para Hu Xijin, editor do tabloide nacionalista Global Times, a acusação contra Zhang se tornou “a coisa”. “Não acredito que Peng Shuai tenha sofrido a retaliação e a repressão especuladas pela mídia estrangeira por causa dessa coisa que as pessoas estão comentando”, escreveu ele no Twitter.

Zhang nem pode ser discutido online na China. As poucas pessoas que chegam a mencioná-lo preferem chamá-lo de “kimchi” porque seu nome soa como o de uma antiga dinastia coreana.

Se Hu pudesse falar mais claramente e se o povo chinês tivesse liberdade para debater o caso de Peng e sua alegação, a mídia oficial conseguiria entender como construir uma narrativa. Em vez disso, Hu alterna entre tentar mudar de assunto e tentar encerrá-lo completamente.

“Para aqueles que realmente se preocupam com a segurança de Peng Shuai, suas aparições nestes dias são o suficiente para aliviá-los ou eliminar a maioria de suas preocupações”, escreveu ele. “Mas, para aqueles que desejam atacar o sistema da China e boicotar as Olimpíadas de Inverno de Pequim, os fatos, não importa quantos, não serão suficientes”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

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