Montagem com fotos de Andrew Kelly e Tony O'Brien/Reuters
Montagem com fotos de Andrew Kelly e Tony O'Brien/Reuters

Quem é o maior de todos os tempos?

Rafael Nadal, campeão recentemente do US Open, e Roger Federer, dono de 19 Grand Slams, disputam a condição de maioral do tênis mundial

O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2017 | 07h00

A disputa continua aberta. Rafael Nadal e Roger Federer, os dois titãs que dominaram o tênis masculino entre 2005 e 2010, vivem em 2017 um retorno memorável, dividindo igualmente entre si os quatro Grand Slams do ano. Federer ficou com o Aberto da Austrália (derrotou Nadal numa final em cinco sets) e Wimbledon. Nadal conquistou seu décimo título em Roland Garros e venceu o Aberto dos EUA.

O espanhol passeou em Nova York, onde perdeu apenas um set depois da segunda rodada, e coroou o triunfo com uma vitória fácil sobre o sul-africano Kevin Anderson: parciais de 6/3, 6/3 e 6/4. Foi o 16.º Grand Slam do espanhol, que agora tem apenas três títulos em “majors” a menos que os 19 de Federer.

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Faz alguns anos que os comentaristas dão como praticamente encerradas as carreiras dos dois rivais — em especial a de Federer, que completou 36 anos no mês passado —, mas não parece haver fim à vista para a disputa que ambos travam pela condição de maior tenista de todos os tempos.

Um dos melhores argumentos de que os fãs de Nadal dispõem para defender sua superioridade é o de que Federer teve vida fácil entre 2003 e 2007, quando Djokovic e Murray ainda não haviam chegado ao auge da carreira e o espanhol concentrava suas vitórias nas quadras de saibro. O maestro suíço pôde fortalecer suas estatísticas jogando contra tenistas menos dotados, ao passo que as de Nadal foram acumuladas principalmente em embates contra Djokovic e Murray.  A chave de Nadal no Aberto dos EUA de 2017 foi uma das mais fracas dos últimos 30 anos. Nas primeiras cinco rodadas, o espanhol não precisou enfrentar nenhum cabeça de chave; nas semifinais e na final, seus adversários foram o 24.º e o 28.º cabeças de chave, respectivamente. Não bastasse a ausência de alguns dos principais tenistas da atualidade — Stan Wawrinka, campeão do ano passado, também não disputou o torneio —, Juan Martín del Potro facilitou ainda mais a chave ao eliminar Federer nas quartas de final

Vista assim, essa última conquista de Nadal pode parecer uma coisa meio sem graça. No conjunto, porém, o torneio contribuiu para conferir um pouco mais de equilíbrio — em termos de dificuldade — entre as chaves que o espanhol disputou ao longo dos anos e as disputadas por Federer. Em Grand Slams, o espanhol enfrentou os três outros integrantes dos “quatro grandes’’ em 13% das ocasiões, vencendo impressionantes 74% desses confrontos. Já o suíço enfrentou um dos quatro em 9% de suas partidas de Grand Slam, tendo vencido apenas 42% delas.

A fim de determinar o grau de dificuldade das chaves disputadas por cada um dos campeões desses torneios, The Economist utilizou o Elo — ranking baseado no histórico de vitórias e derrotas dos tenistas, assim como na qualidade de seus adversários. Isso permitiu estabelecer a “força” de um campeão médio de Grand Slam. Em seguida, estimou-se as chances que tal tenista teria de vencer suas sete partidas contra os adversários que cada campeão de Grand Slam enfrentou em sua campanha. Cada vitória confere ao campeão um valor que é a diferença entre 1 e a projeção calculada com base no Elo: se a chance que o campeão médio tem de vencer determinada partida é de 90%, ele recebe 0,1 ponto (1 menos 0,9); se a probabilidade fosse 20%, o valor atribuído seria 0,8. Somando-se todas as partidas e aplicando-se o algoritmo às últimas décadas de Grand Slams, chega-se a crédito médio de 1,23 por campeão. Assim, a fim de padronizar os resultados, cada soma foi dividida por 1,23.

Na maior parte das campanhas, o campeão tende a escapar por um triz de ser derrotado em uma ou duas partidas difíceis. No caso da chave de Nadal em Nova York, a fragilidade dos adversários fez com que o Elo projetasse vitórias tranquilas para um campeão típico em todas as sete partidas. Segundo o algoritmo criado por The Economist , o título do Aberto dos EUA de 2017 valeu apenas 0,62 de um Grand Slam — valor mais baixo atribuído a um “major’’ desde o Aberto da Austrália de 2006 (0,6), vencido por Federer.

Nadal não costuma ter tanta moleza: o título de Roland Garros que conquistou em 2013, quando enfrentou Wawrinka e Djokovic, respectivamente, nas quartas e nas semifinais, valeu 1,65 de um “major”. Em mais de 40 anos, só três títulos de Grand Slams apresentaram grau de dificuldade maior do que esse.

Ao longo dos anos, tanto Federer, como Nadal disputaram chaves fáceis e difíceis. Isso é da natureza de uma modalidade esportiva em que os torneios começam com chaves definidas por sorteio e são disputados no formato mata-mata. Mas, de maneira geral, Federer foi mais beneficiado pelos sorteios — e pelas trajetórias de seus rivais mais fortes — do que Nadal. A conquista de um título médio de Grand Slam exige que o tenista vença adversários que o campeão típico derrotaria em 23% das ocasiões. Em apenas oito de seus 19 Grand Slams, Federer teve confrontos com grau de dificuldade maior do que esse. Mas em 13 de seus 16 títulos, Nadal enfrentou obstáculos com dificuldade acima da média. Isso torna menos categórica a diferença entre 16 e 19 títulos.

De fato, ajustando-se esses dois números pelo grau de dificuldade, o Rei do Saibro parece ser candidato ligeiramente mais forte ao trono de maior tenista de todos os tempos. Em média, os títulos de Nadal valem 1,18 Grand Slam cada, ao passo que os de Federer correspondem a apenas 0,98. Em outras palavras, pelos cálculos de The Economist, o espanhol faz jus a 18,8 títulos de Grand Slam; o suíço, a 18,7.

Outro tenista que é beneficiado pelo algoritmo é Novak Djokovic, que passa de 12 títulos para 15,3 e rouba de Pete Sampras o 3.º lugar no pódio. É uma promoção que o sérvio faz por merecer: todos os seus 12 Grand Slams foram conquistados em chaves com grau de dificuldade acima da média. Os esforços de Wawrinka por um lugar ao sol no tênis também são valorizados: seus três títulos estão entre os dez mais difíceis da história.

Critérios como o de número de semanas no topo do ranking da ATP, títulos de torneios Master ou liderança na classificação Elo — em que Djokovic é o melhor colocado, graças a cinco títulos em seis Grand Slam disputados entre 2015 e 2016 —, raramente são utilizados nas discussões sobre o maior tenista de todos os tempos. O destino da métrica em que o número de Grand Slams é ajustado pelo grau de dificuldade da conquista não deve ser outro. De qualquer forma, trata-se de medida bem mais precisa do que o “achismo” que leva alguns fãs a atribuir maior ou menor importância a este ou àquele título.

Todos os grandes tenistas da história tiveram sua cota de sorte e azar nos Grand Slams. Mas é importante lembrar que chaves tão fáceis quanto a que o espanhol disputou este ano em Nova York são exceções e que seu histórico em Grand Slams é no mínimo tão bom quanto o de Federer.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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