Alana Holmberg / The New York Times
Alana Holmberg / The New York Times

Renovada aos 39 anos, Serena Williams se prepara para confronto com Naomi Osaka

Williams despachou Simona Halep e se aproxima de mais uma chance de chegar ao recorde de títulos de simples em Grand Slam

Karen Crouse, The New York Times

17 de fevereiro de 2021 | 18h03

As opções de entretenimento são limitadas sob lockdown, mas Naomi Osaka tinha planos concretos para sua terça à noite. Depois de estender sua sequência de vitórias para 19 partidas ao vencer Hsieh Su-wei, de Taiwan, e avançar para as semifinais do Aberto da Austrália, Osaka disse que planejava ficar acordada para assistir à partida noturna entre Serena Williams e Simona Halep, ainda que não necessariamente para descobrir quem ela iria enfrentar. “Sempre assisto à Serena jogar”, Osaka disse.

A Serena Williams que ela enfrentará na quinta-feira é uma lenda que de repente está em sincronia com seu passado distante. A competidora veterana que se apresentou numa Rod Laver Arena quase vazia tinha pouca semelhança com a Williams que Osaka vencera em sets diretos na final do U.S. Open de 2018, nem com a que Halep derrotou na final de Wimbledon em 2019. Se Osaka sonhava em enfrentar Williams no seu melhor, ela foi dormir feliz.

As vitórias de Williams por 6-3 e 6-3 nas quartas-de-final não foram tão cirúrgicas quanto o desmembramento que Halep lhe aplicou naquele encontro em Wimbledon, uma performance que Billie Jean King descreveu como “uma das partidas mais perfeitas que eu já vi”.

Na terça-feira, Williams pôs apenas 55% de seus primeiros saques em jogo, uma taxa muito menor do que esperava de si mesma. E terminou com mais erros não forçados (33) do que pontos vencedores (24). Mas, nos momentos cruciais, a força motriz de Williams ganhou o dia.

Com Halep sacando para 3-3 no segundo set, Williams venceu um rali de 20 lances para ganhar um break point, depois garantiu a quebra com um ponto de 12 trocas de bola. Dois dias depois de ter jogado três sets intensos e mais de duas horas com Aryna Sabalenka, Williams, 39 anos, foi ágil o suficiente para se superar e durar mais que Halep, que é 10 anos mais jovem.

“Estou me sentindo muito bem com esse desempenho”, disse Williams. “Sinto que precisava ter um bom desempenho hoje, claro, especialmente depois da minha última partida contra ela”.

A final de Wimbledon de 2019 foi a terceira das quatro finais de Grand Slam que Williams jogou desde que venceu o Aberto da Austrália de 2017, conquistando um título importante para igualar o recorde da carreira de Margaret Court.

Ela está a uma vitória de ter mais uma chance contra o recorde de Court, e para chegar lá Williams tem mais um encontro em sua trajetória de vingança. Depois de despachar a segunda do ranking, Halep, quem a espera na quinta-feira é a terceira do ranking, Osaka, com a primeira colocada Ashleigh Barty surgindo como uma potencial adversária na final do campeonato. A última vez que Williams enfrentou uma sequência dessa magnitude em seu caminho para um título de Grand Slam foi em 1999, quando ela derrotou as jogadoras nº 1, 2 e 4 para vencer o U.S. Open.

Nos anos seguintes, à medida que Williams ficava cada vez mais famosa por seu saque de foguete e seus golpes de mísseis guiados, ela perdeu de vista o fato de que, antes de ser campeã, ela era uma lutadora. A pandemia de coronavírus, agora em sua segunda volta no calendário, deu a Williams, assim como a tantas outras pessoas, tempo suficiente para refletir.

E o que ela percebeu, disse ela na terça-feira, foi o seguinte: “Sou boa de ralis e tenho que abraçar as coisas em que sou boa. Sou boa de jogar com força, sou boa em rebater cem bolas. E isso é uma coisa única, que eu só preciso aceitar e abraçar e só ser boa nisso”.

Osaka não estava sozinha assistindo de perto à partida de Williams. Era proibido ter torcida dentro da Rod Laver Arena, por causa de um lockdown de cinco dias imposto depois que as autoridades australianas detectaram um foco de infecções por coronavírus na área. Mas, mesmo assim, Williams e Halep tinham uma multidão de cerca de cinco dúzias de espectadores, uma vez que pessoas ligadas ao torneio tinham aparecido para ver a partida pessoalmente, junto com a comitiva das jogadoras.

“Acho que todo mundo do torneio está de olho nela”, disse Osaka, referindo-se a Williams. “Tipo, sempre que eu vou para o vestiário ou qualquer outro lugar, sempre tem gente parando para ver a partida dela”.

Desde a última vez que Williams ganhou um título de Grand Slam, grande parte da atenção do tênis feminino se voltou para Osaka. Em 2020, ela superou Williams como a mulher mais bem paga dos esportes, com mais de US $ 30 milhões em patrocínios fora das quadras. Sua ascensão levou um repórter, na véspera deste torneio, a perguntar como ela estava lidando com o fato de ser vista como a cara do tênis feminino.

“Enquanto Serena estiver aqui”, Osaka respondeu, “acho que ela é a cara do tênis feminino”.

Quem é Williams para negar? Ela usou um colar com palavra “QUEEN”  incrustada em diamantes durante todas as suas partidas.

A partida de quinta-feira com Osaka será a quadragésima semifinal de Grand Slam de Williams. Também será a primeira vez que ela enfrentará Osaka num evento de Grand Slam desde a final de 2018 em Nova York, uma partida que ficou turbulenta quando Williams discutiu com o árbitro da cadeira, que denunciou três violações do código de conduta. O incidente virou a multidão contra o árbitro e, indiretamente, contra Osaka, azedando seu momento de vitória.

Depois da vitória nas quartas-de-final, o sorriso de Williams não vacilou quando ela foi questionada sobre seu relacionamento com Osaka.

“Acho que nós duas superamos aquele momento”, disse Williams sobre a final de 2018. Ela acrescentou: “Acho que ela é uma grande competidora e uma pessoa muito bacana”.

Williams e Osaka poderiam ter se enfrentado em outra final do U.S. Open no ano passado, se não fosse a lesão no calcanhar que prejudicou Williams em sua derrota para Victoria Azarenka na semifinal. Ao contrário de Osaka, que ficou de fora do Aberto da França no outono passado por causa de uma distensão na coxa, Williams jogou em Roland Garros menos de três semanas depois do Aberto. Ela venceu sua primeira partida antes de desistir do torneio, uma decisão que se mostrou providencial.

Quando o início do Aberto da Austrália foi adiado em três semanas por causa da pandemia, Williams ficou com três meses livres em seu calendário, um bloco de tempo bem-vindo que ela usou para curar sua lesão e melhorar seu condicionamento.

De acordo com Patrick Mouratoglou, que é técnico de Williams desde 2012, ela se dedicou novamente ao trabalho nada glamoroso de melhorar seu condicionamento físico, com ênfase no trabalho com os pés e a velocidade.

“São muitos pequenos detalhes que fazem uma grande diferença”, disse ele.

A rotina diária de condicionamento que ela suportou durante novembro e dezembro permitiu a Williams correr para alcançar bolas baixas e estender mais os ralis em fevereiro. Embora seja conhecida por seu estilo de ataque, seu melhor ataque nas últimas duas partidas foi a defesa.

“Ela está se movimentando melhor”, reconheceu Halep. “Está muito mais fácil para ela acertar as bolas. E mais difícil para as oponentes finalizar o ponto”.

Williams “está com um jogo muito bom”, disse Halep. Aí ela de conteve. E, rindo, acrescentou: “Sempre teve”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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