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Teliana é a melhor dos últimos 25 anos Divulgação

Teliana Pereira, a campeã de tênis que veio do sertão

Melhor brasileira dos últimos 25 anos superou a seca

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2015 | 17h00

Uma das lembranças que Teliana Pereira guarda da infância é sua casa branca, pequena, simples, cercada de mato seco, com um quintal de chão de terra batido. Sem luz e sem água, os pratos de arroz, feijão e farinha eram escassos no povoado de Barra da Tapera, município de Águas Belas, Pernambuco, encostado em Alagoas. Ela conta que, como não conhecia um lugar diferente, achava tudo bom. Vinte e seis anos depois, a pernambucana conheceu outras realidades. A melhor tenista brasileira das últimas duas décadas consolidou na semana passada uma trajetória improvável de Barra da Itapera para as principais quadras do mundo. 

Na Colômbia, ela venceu seu primeiro torneio da WTA, a Associação Mundial Feminina de tenistas.  “Eu me sinto vitoriosa. Quando começo a reclamar de algo, penso duas vezes e volto atrás. Pela vida que nós tivemos não dá para reclamar de nada”. diz a 81ª do ranking mundial. 

Teliana se lembra da casinha branca, mas não do resto. “Durante seis meses eu plantava milho, feijão e mandioca para comer. Quando não dava lavoura por causa da seca, eu ia cortar cana em Alagoas”, conta o José Pereira, o pai, chamado de Pernambuco. Nessa época, eram ele, Maria Nice e mais cinco filhos: Renato, Teliana, Leila, Júnior e Valdelice. Depois, nasceram Juliana e Renan. 

Não foi no sertão que Teliana aprendeu a jogar tênis. Em 1991, seu pai foi visitar o irmão em Curitiba e arrumou um bico como servente na construção de uma academia de tênis no bairro de Santa Felicidade. Teliana se lembra do ônibus cambaleante ao longo de 2701 quilômetros de Barra da Tapera até Curitiba. “Foi aí que eu comecei a entender o que era a cidade grande”, diz.  

No final da obra, Pernambuco foi contratado pelo francês Didier Rayon, proprietário do local, para cuidar das quadras, e todos os filhos foram ajudá-lo. Ganhavam R$ 30 por dia. “Era quase metade da nossa renda”, conta José Pereira.  

 

Para entrar na quadra foi um pulo. Literalmente. A família Pernambuco se tornou uma família de tenistas. José Pereira Júnior virou profissional e ocupa a 400ª posição no ranking; Renato acabou se tornando o treinador da própria irmã prodígiio. “Aos 12 anos ela ganhava das meninas de 18”, conta Alexandre Zornig, namorado e gestor da carreira da campeã. 

Depois de passar pela seca, os pratos de arroz, feijão e farinha e os perrengues da viagem, Teliana ainda teve de enfrentar sérias contusões. Chegou a ser submetida a duas cirurgias no joelho direito, uma de menisco e outra de cartilagem. Foram quase dois anos parada, e os patrocinadores sumiram. Foi o sogro, pai de Alexandre, quem bancou as viagens. Em 2012, por, exemplo, ela pegou emprestado R$ 10 mil. Mas pagou. 

O resto da vida de Teliana faz parte da lista de casos de sucesso do esporte brasileiro. Desde 2005, quando iniciou sua carreira profissional, Teliana soma US$ 496,8 mil (R$ 1,5 milhão) em premiações. Só o título do WTA em Bogotá lhe rendeu US$ 43 mil (R$ 130 mil). Ela já conquistou 22 títulos de simples no circuito ITF, série secundária no circuito mundial. Ganhou a medalha de bronze, nas duplas, nos Pan-Americanos do Rio em 2007. “Não é sorte vencer um torneio da WTA. Isso mostra que ela é diferenciada”, afirma o ex-tenista Fernando Meligeni. 

O pai de Teliana também teve sucesso. De servente de pedreiro chegou a empresário de construção de quadras de tênis. No ano passado, fez cinco, e cada uma custa R$ 25 mil. Mas Pernambuco conta que seu forte é a manutenção. Cada quadra precisa de R$ 350 por mês para ficar tinindo. 

A trajetória de Teliana reacende também a discussão sobre os perrengues dos atletas brasileiros. Quando ela perdeu os patrocínios, dez amigos mais chegados de Curitiba fizeram vaquinhas, com valores entre R$ 200 a 800, para as viagens. 

Meligeni afirma que esse não é um problema só do tênis. “São poucos os atletas que possuem uma estrutura profissional. Hoje a Teliana tem tranquilidade, mas já teve de fazer rifa de raquete para conseguir recursos. No caso do tênis, faltam quadras públicas. Todos os esportes são elitizados”, critica. “Nunca construí uma quadra pública”, concorda o pai de Teliana. 

Jorge Lacerda, presidente da Confederação Brasileira de Tênis, concorda com a falta de espaços públicos. “A situação melhorou bastante nos últimos anos. Temos vários bons jogadores de classe média baixa.” 

A tranquilidade financeira é garantida por quatro patrocinadores que permitem que Teliana viaje com fisioterapeuta, técnico e preparador físico para os torneios. “Ela tem várias atributos que já foram identificados pelo mercado. É a número 1 do Brasil, jovem, bonita, com uma linda história de superação e vai disputar o Pan e a Olimpíada”, diz Márcio Torres, empresário da tenista. 

Os recursos que Teliana conquistou já são suficientes para realizar seu principal projeto de curto prazo: comprar um apartamento. A casa branca em Barra da Tapera vai ser cada vez mais só uma orgulhosa lembrança. 

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Sucesso de Teliana impulsiona tênis feminino no Brasil

Especialistas apostam em nova safra de tenistas

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2015 | 17h00

O ex-tenista Fernando Meligeni acredita que os resultados de Teliana podem significar um novo impulso para o tênis feminino no Brasil. Ao ser campeã do WTA de Bogotá, Teliana se tornou a primeira brasileira a levantar o troféu de um torneio de primeira linha desde 1988. A última brasileira vencedora havia sido Niege Dias, em Barcelona. 

Ontem, ela conseguiu uma nova façanha e alcançou sua 11.ª vitória seguida. Teliana passou pela norte-americana Sanaz Marand por 2 sets a 0, com parciais de 6/2 e 6/0, pelo qualifying do Torneio de Marrakesh. Agora, Teliana está a uma vitória de alcançar a chave principal da competição marroquina. Para isso, ela precisará passar pela russa Marina Melnikova, que derrotou a dona da casa Ghita Benhadi na estreia do qualifying por 2 sets a 0, com parciais de 6/0 6/4.

“Há três ou quatro anos o tênis feminino praticamente não existia no Brasil. É preciso que haja um desbravador, alguém que comece. Depois que o Guga foi campeão em Roland Garros, por exemplo, eu fui semifinalista dois anos depois. O que a Teliana fez será lembrado para sempre”, diz o comentarista. “O tênis feminino estava numa situação bastante complicada, mas agora os resultados estão acontecendo”, diz Jorge Lacerda, presidente da Confederação Brasileira de Tênis. 

Para o dirigente, os resultados de Teliana fazem parte de um contexto de valorização da modalidade. Segundo ele, o patrocínio dos Correios, o projeto olímpico (que apoiou a viagem de vários jogadores e treinadores) e o aumento do número de torneios da WTA no Brasil são os principais fatores dessa retomada. “Os investimentos na base também são importantes”, diz Jorge Lacerda. 

Além do título de Teliana, o Brasil comemorou a conquista do WTA de Bogotá nas duplas com Paula Gonçalves e Bia Haddad. Foi o primeiro título de Bia nas duplas em um WTA.

Para a lendária Maria Ester Bueno, o grande nome da história do tênis feminino brasileiro, Teliana está no caminho certo. “A vitória em Bogotá representa um grande salto. Ela venceu a Schiavone, Svitolina na semifinal e Schedova na final. Sem perder um set. Isso é muito bom para o tênis feminino no Brasil”, afirma a vencedora de 19 torneios de Grand Slam. 

Agora Teliana Pereira parte para Marrakech, no Marrocos, Cagnes Sur Mer e Saint Gaudens, antes de chegar a Paris para a disputa de Roland Garros entre maio e junho, seu maior objetivo. No ano passado, em sua primeira disputa, ela conseguiu avançar à segunda rodada da competição vencida três vezes por Gustavo Kuerten. “Amo Roland Garros e vou fazer de tudo para ir o mais longe que puder”, afirma Teliana. 

“Ela já demonstrou firmeza no fundo de quadra, como manda a tradição sul-americana. Gosta de contra-atacar em vez de atacar, mas precisa aprimorar a agressividade, machucar o adversário, como se diz na gíria do tênis”, diz Meligeni.

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