Marcos Medeiros
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Tenista Bruno Soares investe em remédios de cannabis e vê preconceito cair

Brasileiro segue os passos de Bob Burnquist, Kevin Durant e Mike Tyson e se coloca como 'embaixador' da causa

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2022 | 10h00
Atualizado 19 de julho de 2022 | 10h15

O que Bruno Soares, Bob Burnquist, Kevin Durant e Mike Tyson têm em comum, além do esporte? O tenista e o skatista brasileiros e os dois americanos se tornaram tão entusiastas dos medicamentos à base de cannabis que se tornaram investidores. O mais novo integrante do grupo é o tenista vencedor de seis títulos de Grand Slam.

Bruno Soares liderou a última rodada de investimentos da Ease Labs, empresa mineira que se tornou pioneira da cannabis no Brasil. O fundo MadFish, que pertence ao tenista em parceria com seu treinador, Hugo Daibert, e Maísa Feital, contribuiu com parte dos R$ 12 milhões aportados no mês passado. Foi a primeira investida de Soares na área, mas não seu primeiro contato com a planta. 

O tenista decidiu entrar neste mercado por ser ele mesmo consumidor de remédios à base de canabinoides, que são as substâncias químicas encontradas na Cannabis sativa, nome científico da maconha. E conta que Bob Burnquist foi sua primeira inspiração. O skatista, um dos primeiros atletas a investir neste tipo de medicamento, fundou em 2020 a Farmaleaf em sociedade com o badalado chef de cozinha Alex Atala.

"Um dia li uma matéria sobre o assunto com Bob Burnquist. E três coisas me chamaram a atenção sobre os efeitos da cannabis: auxilia no combate à inflamação, controla a ansiedade e ajuda no sono. São três coisas que fazem parte da minha vida há 30 anos como atleta. Temos muita dor, pressão por resultados e dificuldade para dormir por causa das viagens, mudanças de fuso horário…”, lembra Soares, em entrevista ao Estadão

Os efeitos sobre sua saúde são visíveis, segundo o atleta, que até atribui sua longevidade no circuito à opção por estes remédios. “A cannabis está presente no meu dia a dia, continuo jogando em alto nível. Tenho 40 anos, sem dor. Tudo que tracei como objetivo para mim pode ter sido fruto do meu treinamento, pode ser o cannabis, pode ser outra coisa. Mas a combinação de tudo me fez chegar onde cheguei.”

O ex-número dois do mundo nas duplas começou a usar medicamentos do tipo em 2017, quando começou a estudar o assunto. Comprava os remédios nos Estados Unidos e não fazia segredo. Defende tanto este tipo de medicamento que admite ter se tornado um “embaixador” da causa. “Eu não analisei o investimento pelos números ou pelo possível retorno financeiro. Eu uso há cinco anos. Sou referência dos benefícios na própria pele. E estou feliz de fazer parte deste movimento. É algo que faz parte da minha vida, tenho propriedade para falar sobre o assunto.” 

Preconceito contra medicamentos à base de cannabis

Um dos atletas mais bem relacionados do circuito profissional, Soares revela que o preconceito contra medicamentos à base de cannabis tem caído a cada ano. “Desde o início, eu enfrentei zero preconceito. E havia um nível de curiosidade gigantesco sobre o tema. Todo mundo vinha conversar comigo sobre o assunto. Isso me surpreendeu demais porque achei que seria o contrário. Hoje conheço vários que usam, que me contaram”, diz o tenista, que é membro do Conselho de Jogadores da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP). 

Não por acaso, diz Soares, este tipo de medicamento vem crescendo entre os atletas. A lista não para de crescer: tem Megan Rapinoe (futebol), Floyd Landis (ciclismo) e os brasileiros Laís Nunes (wrestling) e Pedro Rizzo (MMA). Kevin Durant, astro da NBA, investe em diferentes frentes, tanto em medicamentos quanto em iniciativas para acabar com o preconceito. Mike Tyson tem uma plantação em sua fazenda nos Estados Unidos - no Brasil, plantar a erva é proibido.

Há ainda aqueles atletas, na ativa ou já aposentados, que investem em indústria especializada em medicamentos de cannabis sem revelar se consomem os produtos em seus tratamentos de saúde, caso de David Beckham (futebol) e Carmelo Anthony (NBA). 

Para Bruno Soares, o maior apelo destes medicamentos aos atletas é o menor número de efeitos colaterais. “Eu tinha um pé atrás com o medicamento sintético, porque tem muito efeito colateral. Geralmente, exige outros remédios para combater os efeitos colaterais.  E isso sempre me incomodou demais.” Os principais problemas tratados pelos atletas com estes remédios são dores, inflamações, insônia e ansiedade. 

Gustavo Palhares, CEO e um dos fundadores da Ease Labs, acredita que o crescimento destes medicamentos têm relação direta com a busca por hábitos mais saudáveis. “As gerações mais recentes têm um entendimento da saúde de uma maneira diferente, os médicos novos têm um olhar mais holístico”, explica o empresário. “As pessoas querem ter uma alimentação mais saudável, querem praticar esporte, querem ter saúde mental. E a cannabis anda em sinergia com tudo isso, principalmente nesta transição que está havendo entre o uso de medicamentos sintéticos para os medicamentos naturais.”

A empresa mineira está se tornando referência nacional pela transição que fez entre ser apenas uma importadora de medicamentos para virar uma indústria farmacêutica especializada em cannabis. Com a mudança, a Ease Labs pretende massificar o acesso a estes produtos, vendendo diretamente em farmácias. O primeiro deve estar à venda em setembro, segundo planejamento da empresa, que pretende crescer 300% neste ano diante deste processo de massificação. 

“Nosso papel como ‘embaixador’ e como empresa é levar informação e não somente acesso. Preconceito zero e muita curiosidade. Acho que está havendo um movimento muito grande. O que eu sinto é que o mundo está muito mais consciente desta parte natural das coisas, seja para corpo ou para a sociedade”, diz Bruno Soares.

Doping ainda preocupa

Nem todo medicamento à base de cannabis pode gerar problemas para os atletas nos testes antidoping. Um dos canabinoides mais conhecidos, o canabidiol ou CBD, foi liberado pela Agência Mundial Antidoping (Wada), em 2018. Em Tóquio, a Olimpíada do ano passado foi a primeira a ter liberado o consumo de remédios à base de CBD. 

Agora o movimento dos atletas é pela liberação do THC, substância que tem efeito psicoativo. No tênis, por exemplo, o consumo só é vetado durante as competições. “Hoje há um movimento grande, nas grandes ligas americanas, por exemplo, para liberar totalmente. Perceberam os benefícios (dos medicamentos) e sabem que o próprio uso da cannabis de forma recreativa não traz nenhum benefício na prática do esporte”, afirma Soares. “A tendência é liberar 100%. É um movimento que não tem volta.” 

Enquanto a substância não é liberada totalmente, o tenista toma os devidos cuidados. “Eu faço uso dos medicamentos com THC só em casa, fora do circuito. Nas viagens, só uso os de CBD.”

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