Andrew Couldridge/Reuters
Mesmo sendo o segundo do mundo no ranking da WTA, Rafael Nadal será o 3º cabeça de chave em Wimbledon Andrew Couldridge/Reuters

Treino mental dá força aos favoritos em Wimbledon

Rafael Nadal, Roger Federer e Novak Djokovic aliam à técnica e à forma física um grande poder de superar obstáculos

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 04h32

Rafael Nadal, Roger Federer e Novak Djokovic. Além de títulos, conquistas e feitos históricos, os três tenistas têm em comum uma poderosa força mental dentro de quadra. Uma capacidade psicológica diferenciada que permite a eles superar lesões e problemas do mais variados para brilhar no saibro, nas quadras duras e, a partir de hoje, também na grama de Wimbledon e suas duras batalhas de até cinco sets. Parte do segredo deles é o chamado treino mental, que se tornou essencial em equipes, clubes e até entidades, como o Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Por caminhos diferentes, os três principais favoritos ao título em Londres investiram tempo e energia em formas de cultivar a força mental. Atual número 1 do mundo, Djokovic é quem mais se dedicou a um trabalho mais formal. Seu treino se baseia na meditação do tipo mindfulness, que poderia ser traduzido como “atenção plena”.

“É uma forma de meditação em que, em vez de buscar o silêncio e encontrar a ‘paz interior’, você permite e aceita o próprio fluxo de pensamentos, objetivamente, sem julgá-los, enquanto se mantém com plena consciência daquele momento naquele tempo da realidade”, explica o tenista, em seu livro Sirva para Vencer. O sérvio, que atribui sua ascensão no circuito também a este treino mental, diz praticar a meditação por ao menos 15 minutos por dia.

 

Federer nunca expôs publicamente sua técnica para manter a concentração. Mas já indicou que segue padrão semelhante ao de Djokovic, na tentativa de conviver com os pensamentos negativos que lhe ocorrem ao longo de uma partida. “Não importa quão positiva seja uma pessoa, a negatividade estará em torno de você em algum momento e você começa a pensar: estou perdendo por 6/4, fiz tudo errado, deveria ter feito isso e aquilo”, disse o suíço após dura vitória em Roterdã em 2018. Foi no torneio holandês que ele recuperou o posto de número 1.

Nadal aposta numa atitude mental que parte “de fora para dentro”, seguindo orientação do seu tio e então técnico Toni. Para o hoje ex-treinador, o tenista deve se apresentar com uma “cara boa” para o jogo. A técnica influenciaria e condicionaria a confiança do atleta por exigir um rosto sem expressão, sem a irritação por um erro no ponto anterior ou a empolgação pelo acerto. A ideia é manter o pensamento somente no presente.

As técnicas usadas pelos grandes tenistas vão ao encontro do que pregam os especialistas. Para eles, a força mental pode até compensar limitações técnicas. É o que diz Marcelo Abuchacra, psicólogo especializado em tênis, a respeito do espanhol campeão de Roland Garros pela incrível 12.ª vez, este ano. 

“A força mental dele sobressai em relação aos demais tenistas. Tecnicamente, ele pode ser inferior ao Federer ou ao Dominic Thiem, que foram derrotados por ele em Paris e são mais completos. Mas o Nadal compensa isso com suas habilidades psicológicas”, explica Abuchacra, que atua com tenistas e jogadores de futebol tanto no consultório quanto nos treinos. “Um atleta não precisa treinar sua técnica e o físico? Então tem de treinar a parte mental também. E, da mesma forma, precisa de um treinador para isso. É preciso conhecimento científico para ir a fundo.”

Uma das três preparadoras mentais do COB, a psicóloga Alessandra Dutra reforça que o trabalho mental deve fazer parte da rotina. “É mais ou menos como ir para a academia. Você reserva uma hora por dia para treinar, assim como treina outros aspectos, como o físico e o técnico.” A repetição se justifica: “A performance depende muito do autoconhecimento. Quanto mais se conhece, mais o atleta consegue entender as suas forças. E isso lhe dá ferramentas para lidar com as adversidades”.

Além da meditação, os especialistas ensinam outras técnicas, como a respiração diafragmática e a dessensibilização, que consiste em deslocar o foco do atleta, principalmente quando está com lesão. Há ainda exercícios neurocognitivos, de visualização, para a chamada “acomodação emocional”. O objetivo é fazer com que a performance esportiva não prejudique a saúde mental do atleta.

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Roger Federer joga sob pressão forte de Rafael Nadal em Wimbledon

Suíço tem 'apenas' dois títulos de vantagem sobre o rival e amigo na corrida por troféus de Grand Slam

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 04h33

Principal favorito em Wimbledon, Roger Federer entra em quadra nesta semana sob uma pressão incomum. Pela primeira vez, o suíço tem apenas dois títulos de vantagem sobre Rafael Nadal na disputa pelo recorde de troféus de Grand Slam, principal referência para definir aquilo que os especialistas e os fãs de tênis chamam de “melhor de todos os tempos”. O espanhol chegou a sua 18.ª conquista em Roland Garros. No saibro, sua especialidade. Agora será a vez de o suíço tentar fazer o mesmo na grama, seu piso favorito.

A seu favor, Federer terá uma chave mais tranquila que o rival e amigo. Em busca do 21.º título de Grand Slam, e o nono na grama londrina, o suíço de 37 anos poderá voltar a cruzar com Nadal na semifinal, como aconteceu em Paris, onde o espanhol não deu chances para surpresa.

 

Federer também tem como vantagem uma preparação melhor do que Nadal e Novak Djokovic para a grama de Wimbledon, seu maior objetivo da temporada. Foi o único dos três a disputar um torneio preparatório - em Halle, que venceu. Em relação ao sérvio, Federer só poderá enfrentá-lo na final.

Na chave feminina de Wimbledon, a checa Karolina Pliskova é uma das principais candidatas ao título. Estão na briga também a nova número 1 do mundo, a australiana Ashleigh Barty, campeã em Roland Garros, a japonesa Naomi Osaka e a checa Petra Kvitova, dona de dois títulos em Londres. Correndo por fora, ainda longe de exibir a forma física e técnica do auge, Serena Williams sonha com o 8.º título em Londres.

Brasileiros

A chave principal terá Thiago Monteiro e Bia Haddad, de volta a um Grand Slam após se machucar no quali de Roland Garros. Nas duplas, Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot despontam como os cabeças de chave número 1. Campeão em 2017, Melo é a maior aposta do País. 

Bruno Soares fará sua estreia em torneios deste nível com o croata Mate Pavic. Eles estão iniciando a parceria. Marcelo Demoliner, com o indiano Divij Sharan, terá a missão de encarar os campeões de Roland Garros, os alemães Kevin Krawietz e Andreas Mies.

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Força mental do revezamento garantiu bronze em Sydney-2000, lembra Gustavo Borges

Aposentado desde 2004, após disputar a Olimpíada de Atenas, o agora ex-nadador vê na preparação mental o grande segredo dos grandes esportistas

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 06h26

Não é só no tênis que a força mental faz a diferença. Um dos maiores nadadores da história brasileira, Gustavo Borges lembra até hoje do poder deste recurso exibido pelo revezamento brasileiro nos Jogos Olímpicos de Sydney-2000m na Austrália. Na ocasião, o time nacional conquistou a medalha de bronze no 4x100 metros livre, apesar de lesão sofrida por Fernando Scherer, o Xuxa.

"O Xuxa estava com um pé machucado. E tínhamos dois calouros na equipe. Foi a força do time que trouxe a medalha", lembrou o ex-atleta, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. O time brasileiro, na Austrália, contou também com Carlos Jayme e Edvaldo Valério, o Bala.

Aposentado desde 2004, após disputar a Olimpíada de Atenas, na Grécia, o agora ex-nadador vê na força mental o grande segredo dos grandes esportistas. "Com certeza, a força mental é um grande aliado do resultado. É quando você está preparado emocionalmente, com confiança. E, às vezes, a questão mental supera as questões físicas, um problema que você tem ou algum problema com um parceiro do time. Na força no grupo, você acaba superando isso".

A definição do ex-atleta ecoa entre os especialistas. "A força mental é uma forma de regular os pensamentos, uma capacidade de gerenciar as emoções, de poder se comportar de uma forma mais produtiva, apesar de todas as adversidades, como insegurança, ansiedade", explicou a psicóloga Flávia Vernizi Adachi, professora da Faculdade Evangélica Mackenzie Paraná.

Hoje palestrante motivacional, Gustavo Borges acredita que qualquer atleta pode desenvolver estas capacidades mentais no alto rendimento. "Essa habilidade você desenvolve de várias maneiras. Ou com você mesmo, em termos de concentração, foco e vontade de chegar a algum lugar. Ou através da psicologia do esporte".

No quesito mental, o dono de quatro medalhas olímpicas diz ter várias referências esportivas, como o brasileiro Ayrton Senna e o ex-nadador norte-americano Michael Phelps. "Tem o Michael Jordan, o Michael Schumacher, o Michael Phelps, o Ayrton Senna, alguns times de vôlei que já vi jogar", enumerou o ex-atleta, antes de lembrar episódio de superação vivido por Phelps.

"Numa prova da Olimpíada de 2008, em Pequim, o óculos dele caiu durante os 200 metros borboleta. Ficou entrando água durante toda a prova. Mesmo assim, ele foi campeão. Essa questão de se superar, a garra, você vê a energia e a concentração nos olhos, no corpo, na expressão das pessoas", recordou.

No Brasil, os treinos mentais já são encampados por atletas individuais, equipes, clubes e até pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB), que conta com três preparadoras mentais. A entidade passou a reforçar a parte mental a partir de 2014, de olho nos Jogos Olímpicos do Rio-2016.

"Em 2016, reunimos 30 psicólogos das confederações para fazer o trabalho durante a Olimpíada. E verificamos que, de todas as modalidades que medalharam, apenas duas não tinham a preparação mental. Outras, que não medalharam mas tiveram performances significativas, também tinham acompanhamento psicológico. A partir disso, o COB colocou esse departamento como uma de suas prioridades do COB", disse a psicóloga Alessandra Dutra.

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