Wherter Santana/Estadão
Wherter Santana/Estadão

Formação ruim também afasta sonho da F-1

País não tem categorias de base que ajudem de fato o piloto a evoluir de maneira consistente

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2016 | 17h00

A desistência de Gabriel Casagrande antes mesmo da primeira oportunidade na F-1, como aconteceu com outros, como Diego Nunes e Tuka Rocha, ajuda a explicar por que o Brasil tem emplacado tão poucos corredores na categoria. Pela primeira vez desde 1969, o País poderá ficar sem representantes em 2017.

Dentre os atuais pilotos nacionais na categoria, Felipe Massa encerra sua carreira no fim do ano, e Felipe Nasr ainda não garantiu seu lugar no grid da próxima temporada. Trata-se de algo incomum, uma vez que o Brasil já contou com até cinco representantes na competição, nos anos de 2001 e 2004.

Dos novatos, talvez seja Sette Câmara, um mineiro de 18 anos, quem está mais perto da elite. Isso pelo fato de fazer parte do programa de formação de talentos da Red Bull.

Câmara é exceção. Jovens pilotos ainda sonham com a F-1, mas abandonam seus projetos por vários problemas, entre eles a falta de patrocinadores. Mas não só. As causas vão desde a deficiência na formação no País até a falta de preparo psicológico dos que chegam na Europa.

“De dez, 15 anos para cá, a formação dos nossos pilotos morreu. O kart diminuiu de volume, de corredores, absurdamente”, diz Diego Nunes, que chegou a negociar com a Williams para ingressar na F-1 em 2009. “Nossa formação para a F-1 está destruída”, reforça Tuka Rocha, que tentou entrar na categoria no fim da década passada. Em vão. 

Para Luiz Razia, que chegou mais perto do que ambos, “o Brasil não tem nada a ver com formação”. O piloto, que ficou fora da temporada 2013 na última hora após negociação frustrada com a Marussia, diz que jovens pilotos devem ir para a Europa a fim de receber formação adequada. “Se quer ser piloto de F-1, tem de fazer kart no Brasil e ir direto para a Europa.”

O “salto” do kart no Brasil direto para a Europa se deve ao maior gargalo do automobilismo nacional, que é a transição para os carros de monoposto, segundo avaliação de ex-pilotos e especialistas ouvidos pelo Estado. No País, esta modalidade é representada pela Fórmula 3 Brasil, considerada fraca para o aprendizado. 

“A F-3 tem custo alto para ser aprendizado e o carro é rápido demais para um menino que saiu do kart. É o segundo passo, e não o primeiro após o kart. Além disso, quando for para a Europa, o piloto teria de correr num carro mais fraco”, diz Felipe Giaffone, comissário internacional da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). 

A dificuldade do País com categorias de monoposto é reconhecida pelo presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), Cleyton Pinteiro. “A CBA vem trabalhando em prol de incrementar os grids com reuniões sistemáticas com promotores e os próprios chefes de equipe em busca da redução nos custos de participação”, diz o dirigente, que vê evolução na F-3. “A F-3 Brasil pôde sair de um grid com cinco pilotos, em 2012, para um campeonato com 20 pilotos, em 2015.”

Uma das últimas tentativas de reforçar os torneios de monoposto veio de Felipe Massa. Ele tentou emplacar a Fórmula Futuro, com carros menos potentes e de menor custo, mas a categoria durou duas temporadas, entre 2010 e 2011. “Fiquei surpreso com o fim porque não era um custo tão alto. Foi uma pena”, lamenta Giaffone.

Sem a chance de consolidar uma base em monoposto no Brasil, os jovens rumam para a Europa. E aí as dificuldades são outras: o alto custo para competir e os resultados obtidos. “Dá para notar que os pilotos que saem de monoposto do Brasil chegam lá despreparados. O nível da Europa é muito alto. O pessoal que sai do Brasil vitorioso chega lá e ‘toma pau’”, diz Bruno Senna, com a experiência de ter feito quase toda sua carreira fora. O sobrinho de Ayrton disputou três temporadas na F-1.

FRUSTRAÇÃO

Na Europa, o desafio não é apenas técnico. É necessário superar a distância da família e amigos. E a falta de maturidade e o despreparo psicológico diante das primeiras derrotas causam desistências. “É um salto grande para quem é recém-saído do kart. Você acha que está pronto, vai para a Europa e toma umas ‘porradas’. Acaba se desiludindo”, atesta Gabriel Casagrande.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.