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Reginaldo Leme
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Tchau!

Meus amigos, costumo escrever a última coluna do ano fazendo um resumo do que passou, uma perspectiva do que pode vir na F-1 e esporte a motor em geral, e me despedindo de vocês para um mês de descanso das viagens, estúdios, satélites, redações, ou seja, o descanso é mesmo da tensão que acompanha o jornalista minuto a minuto. Desta vez é um pouco diferente. É a própria coluna que está se despedindo. Depois de 25 anos, ela está sendo publicada pela última vez. Se eu somar os dez anos de meu início de carreira como repórter no Estadão a esses 25 de coluna, dá três décadas e meia. É um belo período de tempo em que nos correspondemos através das páginas deste jornal onde comecei a minha vida profissional e, posteriormente, retomei a caminhada como colunista, desta vez paralelamente à da TV Globo.

REGINALDO LEME, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2015 | 03h09

Não dá para esquecer o começo da coluna. Estava chegando a semana de um GP de Mônaco. Havia acabado de assumir a editoria de esportes do Estadão o velho amigo Guilherme Cunha Pinto, que havia sido integrante do grupo de jornalistas de grande talento que criaram o Jornal da Tarde. Um dos textos mais brilhantes do nosso jornalismo, ele se tornou referência para minha geração, embora fosse o mais novo daquele grupo (por isso mesmo, chamado de Jovem Gui). Fazia menos de dez anos que eu havia deixado o Estadão para trabalhar na Globo, e a Fórmula-1 atravessava aqueles anos de ouro que só o Brasil teve (oito títulos mundiais em 22 anos, quando a Alemanha nem sabia vencer corrida). O Gui me propôs começar uma coluna semanal e, claro, naquela mesma semana já escrevi a primeira, dia 10 de maio de 1991, contando o que o GP de Mônaco representava para a F-1, apesar da incoerência de se correr naquelas ruas apertadas com um carro que já representava o máximo de sofisticação mecânica que se poderia alcançar.

Dali em diante, foram cerca de 1.300 colunas, o que já me levou a pensar em escolher cem para editar um livro. E se der certo o livro, ainda sobra material para alguns outros. A coluna não viveu a era Emerson, mas eu vivi e, muitas vezes, contei passagens desses tempos. Na época em que a coluna nasceu, quem estava no auge era Ayrton Senna. E Nelson Piquet, no último ano de carreira. Encerrava-se o período da geração mais talentosa da história da F-1, em que despontavam Piquet, Prost, Mansell e Senna. Portanto, entre quatro gênios, dois brasileiros. Por mais que tenhamos novas gerações em formação, jamais voltaremos a ter esse privilégio. Este quarteto conquistou 11 títulos.

Depois disso ainda tivemos outros dois vencedores de GPs (Barrichello, 11 vezes e Massa, também 11), o mundo continua acreditando e esperando muito do talento natural do brasileiro. O último a alcançar a F-1 foi Felipe Nasr, que este ano conseguiu ser o melhor estreante entre os 31 brasileiros a pilotar um F-1 (5.º lugar na Austrália). Há uma nova geração a caminho. Como um bom capricorniano, mantendo o pé no chão, acredito em novos vencedores. Como sempre me disse Piquet, o primeiro objetivo de um piloto é alcançar a Fórmula-1. Quando consegue isso, ele tem que lutar para obter a primeira vitória. Pensar em título é uma fase que vem bem depois dessas. O talento, por maior que seja, pode não bastar. E é isso o que torna o automobilismo a carreira mais difícil de um atleta. Cada vez mais o piloto vai depender não apenas dele, mas do conjunto mecânico-elétrico-eletrônico.

O nosso sucesso no automobilismo vai continuar. A F-1 ainda é uma paixão do brasileiro. E eu sigo nesse barco. Vi tantos chegarem ao topo, outros ficarem pelo caminho apesar do talento, e ainda tenho muito a ver. Estava pensando em como me despedir de vocês, e acabei encontrando no diálogo com dois jovens companheiros, Glauco de Pierri e Raphael Ramos, que aguardavam a coluna na Redação. Disse a eles o que queria dizer a toda a nova geração: “Acreditem no bom jornalismo, ele preenche nossas vidas”. Estão vendo como é a vida? Desta vez foram dois jovens me mostrando um caminho. Então, vamos ampliar este pensamento também aos leitores: “Amigos, vale a pena acreditar no bom jornalismo”. Tchau!

 

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