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Senna vibra com vitória em Mônaco, uma das suas seis na temporada de 1990 Lionel Cironneau/AP

TÍTULO POLÊMICO DE SENNA NO GP DO JAPÃO COMPLETA 25 ANOS

Em 1990, acidente na primeira curva dava bicampeonato mundial ao brasileiro

Ciro Campos, Guilherme Moraes, Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2015 | 07h00

Japão, 21 de outubro de 1990. O público no autódromo de Suzuka e milhões de fãs da Fórmula 1 não precisaram de mais do que 10 segundos para conhecer o desfecho de um dos momentos mais tensos da história da categoria. Em uma manobra polêmica, o acidente entre Ayrton Senna e Alain Prost logo na primeira curva garantia o bicampeonato mundial ao brasileiro.

A história começa em 1989, segundo ano do "Dream Team" da McLaren formado por Senna e Prost. Após o primeiro título do brasileiro, no ano anterior, a relação dos pilotos começou a estremecer no Grande Prêmio de San Marino, quando o brasileiro teria descumprido um acordo entre os dois de não atacar quem chegasse na frente na primeira curva.

Meses depois, na penúltima prova da temporada, a rivalidade ganhou outra dimensão. Caso Senna não terminasse aquele Grande Prêmio do Japão, o francês seria tricampeão do mundo. Pole position, o brasileiro perdeu a ponta para Prost logo na largada. Após uma disputa acirrada durante toda a corrida, os dois se tocaram a seis voltas do fim, ao dividirem a freada em uma chicane.

Enquanto Prost abandonava, Ayrton Senna pedia que os comissários de pista empurrassem seu carro para retornar à prova. Em uma recuperação impressionante, o brasileiro venceu a corrida, mas acabou desclassificado por uma decisão da Fisa contestada por muitos até hoje. O presidente da entidade, Jean-Marie Balestre, compatriota e amigo de Prost, alegou que Senna não poderia ter retornado à corrida pela pista de escape.

Em 1990, o francês trocou a McLaren pela Ferrari, enquanto Ayrton permaneceu na equipe inglesa. Com uma disputa ponto a ponto dentro das pistas, a tensão entre os dois só aumentava ao longo da temporada. Até que, novamente no GP do Japão, a situação do campeonato anterior se repetiu, com uma exceção: se Prost não terminasse, era Senna quem seria campeão.

À FLOR DA PELE

O clima, antes da corrida, ganhava contornos dramáticos. Não bastasse a tensão criada pela polêmica do ano anterior, a reunião da direção de prova com os pilotos antes da corrida ficou marcada por um protesto de Senna. A pedido de Nelson Piquet, ficou decidido que a manobra que rendeu a desclassificação de Ayrton no ano anterior – de contornar a chicane pela área de escape – agora seria permitida. “Não posso aceitar isso. É uma piada”, disse Senna, enquanto se levantava para abandonar a reunião.

Na pista, a disputa terminou 800 metros após a largada. Assim como em 1989, Senna largou na pole, mas acabou sendo ultrapassado por Prost. Logo na primeira curva, uma nova disputa de freada voltava a tirar os dois pilotos da prova. Com o abandono de ambos, o brasileiro chegava ao segundo título mundial, após seis vitórias, 11 pódios e dez poles nas 16 etapas do Mundial.

Prost deixou o Japão revoltado com a manobra do brasileiro. O francês reclamou e acusou ter sido alvo de um toque proposital. O próprio Senna nunca se sentiu à vontade para falar do acidente e sempre conviveu com críticas pela manobra na primeira curva daquela em Suzuka.

Entrevista de Jackie Stewart com Senna logo após o GP

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Corrida marcou a última dobradinha brasileira na Fórmula 1

Piquet e Roberto Moreno levaram a Benetton aos primeiros lugares

Ciro Campos, Guilherme Moraes, Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2015 | 07h00

Ainda que o título de Ayrton Senna não tenha vindo da maneira que os fãs esperavam, a penúltima etapa da Fórmula 1 em 1990 traz ótimas recordações aos brasileiros. Foi naquele Grande Prêmio do Japão que o País conquistou sua última "dobradinha" na categoria.

Após o acidente entre Senna e Prost, Gerhard Berger assumiu a ponta, mas também acabou abandonando ao perder a direção do carro e rodar já na segunda volta. Nigel Mansell, novo líder, manteve a ponta até a 26ª volta, quando entrou no pit stop para trocar os pneus. Ao retornar à pista, seu carro perdeu potência no motor e o inglês também deixou a prova.

A partir daquele momento, os dois primeiros lugares não mudaram: Nelson Piquet, na ponta, e um surpreendente Roberto Pupo Moreno na segunda colocação. Os dois guiaram até o fim e subiram ao pódio acompanhados de Aguri Suzuki, da Larrousse, o primeiro japonês a terminar uma prova entre os três primeiros.

Moreno foi chamado às pressas pela Benetton após o grave acidente de helicóptero de Alessandro Nannini, que coincidentemente havia herdado a vitória no Japão em 1989, após a desclassificação de Senna. O italiano, que chegou a ter o braço direito amputado e reimplantado, depois retomou a carreira e competiu em campeonatos de turismo.

Com a bandeirada, a Benetton conquistou sua primeira dobradinha e o Brasil, a 11ª e última. José Carlos Pace e Emerson Fittipaldi, duas vezes em 1975, e Ayrton Senna e Nelson Piquet, oito vezes entre 1986 e 1990, foram os responsáveis pelas outras dez.

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'Tive uma luz para chegar em 2º lugar', conta Moreno

Ex-piloto por pouco não correu o GP do Japão em 1990

Entrevista com

Roberto Moreno

Ciro Campos e Guilherme Moraes, Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2015 | 07h00

Muita gente se surpreendeu quando a Benetton, então terceira melhor equipe da Fórmula 1, chamou o brasileiro Roberto Pupo Moreno para o lugar de Alessandro Nannini, que sofrera grave acidente dias antes do Grande Prêmio do Japão de 1990. Já com 31 anos, o experiente piloto havia passado apenas por equipes pequenas e disputado só duas etapas naquela temporada pela EuroBrun. Após a bandeirada, o segundo lugar no pódio só não chamou mais a atenção do que a sequência quase inacreditável de acontecimentos que o colocaram no cockpit do colorido carro da Benetton.

Dos Estados Unidos, onde mora com a família há 17 anos, Moreno conversou com o Estado por telefone e relembrou o feito. Carioca radicado em Brasília, assim como o amigo Nelson Piquet, o piloto afirma que uma "força sobrenatural" o ajudou a manter a segunda colocação em Suzuka, no resultado que trouxe a última "dobradinha" brasileira na categoria.

Como surgiu o convite da Benetton?

Ao contrário do que muitos pensam, foi antes do trágico acidente do Nannini. Estava insatisfeito com minha equipe à época e viajei para a Inglaterra para conversar sobre a temporada de 1991 com a Brabham. Como já estava lá, liguei também para o John Barnard (projetista da Benetton) para me oferecer. Por coincidência, ele estava trabalhando no carro do ano seguinte e precisava que algum piloto sentasse no protótipo para acertar os detalhes antes de fabricar o cockpit com fibra de carbono. Combinei que passaria na sede da equipe no final do dia. Quando cheguei na Benetton, percebi que havia algo de errado quando o John veio me buscar no carro, com o cabelo em pé. Quando entramos em sua sala, o telefone tocou e o nome do Michael Andretti (piloto americano, que guiaria a McLaren em 1993) foi falado. Só depois soube que era o presidente do departamento esportivo da Ford.

Em um certo momento, o John tirou o fio do telefone e me explicou que o Nannini havia sofrido um acidente e perdido o braço. Ele me disse: "Como você viu, todo mundo está ligando para se oferecer para correr. Você foi o único a ligar antes do acidente e ainda veio aqui fazer um favor para a gente. Você quer dirigir?".

E como ficou a situação com a EuroBrun?

Estava insatisfeito desde quando descobri, sem querer, que a EuroBrun não queria que eu passasse para a segunda parte dos treinos de classificação. Isso porque a parte suíça da equipe, que investia o dinheiro, enviava a mesma verba para a parte italiana, responsável pela operação, se passássemos ou não para a qualificação. Foi essa situação que me motivou a ir para a Inglaterra buscar outro time. Mas, depois de acertar com a Benetton para as últimas duas corridas do ano, ainda tinha contrato vigente. Então liguei para a EuroBrun e a secretária disse que também estava me procurando, porque a equipe havia decidido não correr no Japão e na Austrália por falta de verba. A sequência foi essa: às 10h cheguei na Inglaterra, às 14h acontece o acidente do Nannini, às 18h eu acerto com a Benetton e às 19h a antiga equipe me avisava que eu não precisava correr mais. Foi uma coisa de Deus.

E então o contrato foi desfeito?

A história não acaba por aí. Quando pedi uma carta da EuroBrun dizendo que não a equipe não ia correr nas últimas duas etapas, soube que eles descobriram que eu havia acertado com a Benetton. Por causa disso, tentaram me "vender" para a Benetton para conseguir dinheiro para correr no Japão e na Austrália, escapando das multas da FIA. Diante dessa situação, viajei para a Itália para fazer o macacão da Benetton e fui para o Japão na segunda-feira, mas não sabia se ia correr no fim de semana seguinte. Esperei até a quinta-feira para ver se a EuroBrun não apareceria no paddock. Como não apareceu, comecei a treinar normalmente com a Benetton na sexta.

E a corrida, foi muito difícil?

Quando guiei o Benetton, não acreditava no quanto aquele carro freava, acelerava e fazia curva. Em competição, foi o melhor que eu havia dirigido até então. Mesmo assim, como havia participado de apenas duas etapas naquele ano, não estava no melhor da forma física e fiquei muito cansado logo após o primeiro treino. Cheguei até a pedir ajuda para um amigo carateca do Brasil, que me recomendou ler a Bíblia. Na hora, esnobei. Mas depois fui ler a passagem que ele havia me indicado. Durante a corrida, quando já estava em segundo, o Nelson começa a abrir vantagem, porque eu havia cansado. Foi quando eu lembrei do trecho e ganhei forças para continuar. Eu tive uma luz.

Da sua posição, o que viu do acidente entre Senna e Prost?

Não deu pra ver muita coisa porque, logo após o toque, os dois saíram da pista. De dentro, não deu pra ver de quem era a curva. A melhor imagem é mesmo a da transmissão da TV.

Qual a chance de uma nova dobradinha brasileira nos próximos anos?

Não tenho bola de cristal, mas posso dizer que a formação do piloto mudou muito em relação à minha época. Hoje eles queimam etapas e querem guiar logo um carro com asa e potência para chegar às principais categorias rapidamente. Eles esquecem quantos anos o Senna andou de kart, que ele fez um ano inteiro de Fórmula Ford, com pneu de rua e sem asa. Eu acredito os brasileiros possam se destacar, mas a tendência é que não, por conta desse cenário.

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