1º campeão traz glamour às Mil Milhas

Enquanto o Lister-Jaguar do escocês Jemie Campbell Walter e dos brasileiros Alcides Diniz, Alfredo Guaraná e Belmiro Júnior estabelecia, nesta sexta-feira à tarde em Interlagos, a pole position para a 30.ª edição das Mil Milhas, o gaúcho Breno Fornari, de 76 anos, vencedor da primeira edição da prova, em 1956, chegava ao autódromo. Ele é convidado da organização para acompanhar a corrida que ajudou a fazer sua história, com três vitórias: 1956, 1958 e 1959, todas com a lendária Carretera-Ford. "Lembro-me muito bem, como não?", diz ele. "Tudo se aperfeiçou, claro, mas a agitação, o nervosismo continuam os mesmos." Os cerca de 600 cavalos do avançado Lister, equipado com motor V-12 Jaguar, campeão do mundo FIA GT, em 2000, mostrou sua força, em Interlagos. Com o tempo de 1min38s899, média de 156,2 km/h, a equipe de outro vencedor das Mil Milhas, Alcides Diniz, obteve o melhor tempo da primeira sessão de treinos classificatórios. Como choveu forte entre uma tomada diurna e a outra, o tempo acabou sendo o melhor do dia. À noite, as marcas em geral são mais baixas. Breno Fornari e o maior vencedor da prova, Zeca Giaffone, cinco vezes campeão e que volta a disputar a corrida este ano, assistiram à escuderia de representantes da nova geração de competentes pilotos brasileiros obter o segundo tempo nos treinos. Nelsinho Piquet, Juliano Moro, Vitor Meira e Arialdo Pinho registraram, com o Aldee-VW 2.0 a marca de 1min39s301. A largada das Mil Milhas será à meia noite deste domingo. Estima-se que a prova termine neste domingo entre 11 horas e meio dia, se não chover. "Um dos problemas mais sérios que tínhamos na minha época era a visibilidade", recorda Breno Fornari. "Hoje não há morros em Interlagos, enquanto naquela época a pista corria entre taludes." Para complicar ainda mais a já difícil tarefa de pilotar sem saber o que haveria na saída da curva, Fornari disse que a neblina, por vezes, não o permitia enxergar nada. "Nos aproximávamos da curva 3, no fim do retão, onde ainda se via alguma coisa, mas a partir daí, próximo ao lago, eu contava até 8 e começava a virar o volante para a esquerda, porque sabia que estava na curva 4, apesar de não vê-la." O carro do campeão da primeira edição das Mil Milhas era um modelo Ford 1938 Coupé, mas todo trabalhado. "O motor, por exemplo, era um V-8 com 300 cavalos." A gasolina usada já em 1956 foi obtida no aeroporto de Congonhas. "Nos testes vimos que a verde não servia para nosso motor. A Shell, um dos nossos patrocinadores, nos autorizou a retirar em Congonhas a roxa, usada no Constelation, o melhor avião da época.? O maior desafio na preparação do carro, no entanto, era tentar economizar os pneus. ?Era um salve-se quem puder." Nada menos de cinco jogos eram substituídos ao longo das 14 horas da competição. Fornari fez dupla com outro gaúcho famoso por suas carreteiras, Catarino Andreatta. "As pessoas não têm idéia do problema que tivemos com os cavalos nessas provas." Interlagos é famoso pelas constantes invasões de pista. "Um piloto veio tirar satisfações comigo porque eu consegui desviar de um cavalo, na saída do Pinheirinho, e ele não." Como seu adversário estava muito próximo, não houve tempo para não atingir em cheio o animal, destruindo o carro. Michael Schumacher não é um nome que diz muito a Fornari. Extremamente lúcido e atento a evolução do automobilismo, o campeão das Mil Milhas diz que o alemão tem méritos "inquestionáveis", mas também é verdade que surgiu num momento em que "os ídolos da Fórmula 1 já tinham ido embora." Quanto a seus próprios dotes de piloto, Fornari lembra de uma conversa com Camilo Christófaro, vencedor em 1966. "Como você consegue fazer a curva 3 por baixo? ele me perguntou", diz o gaúcho. "A curva 3 era muito inclinada e os pilotos a faziam por cima.?

Agencia Estado,

25 de janeiro de 2002 | 20h27

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