A F-1 analisa seu tetracampeão

Personagens históricos da modalidade relatam suas impressões acerca da performance de Vettel

Livio Oricchio , O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2013 | 13h27

NICE - Os tempos eram outros, ninguém questiona. A história registra que Juan Manuel Fangio foi campeão pela quarta vez no GP da Itália de 1956, com Ferrari, aos 45 anos. Michael Schumacher, em Budapeste, em 2001, também de Ferrari, quando tinha 32 anos. E Alain Prost, na corrida do Estoril, em Portugal, aos 38 anos, pela Williams. Já Sebastian Vettel conquistou o tetra com apenas 26 anos.

Dentre os profissionais da Fórmula 1, na ativa ou mesmo campeões do passado, esse é um dos pontos mais destacados na análise exclusiva que fizeram sobre esse fenômeno das pistas para o Estado.

O promotor da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, dá a impressão de orgulhar-se ao falar do piloto da Red Bull: “Desde o início acreditei que se tivesse um carro rápido seria campeão. Só não imaginei que se transformaria num piloto completo tão rapidamente. Hoje é o piloto que todas as equipes mais desejam, um dos maiores da história”.

Já para o diretor técnico da Red Bull, Adrian Newey, o engenheiro com mais títulos mundiais na Fórmula 1, dez, há duas razões principais para não aceitar os convites milionários que recebeu da Ferrari e Mercedes: “Quando vim para cá precisei primeiro montar toda a estrutura física da equipe e contratar o grupo de trabalho. Isso me dá muito prazer, pois começamos quase do zero”, disse. E completou: “O relacionamento com Sebastian é muito especial também. Venci o campeonato com outros pilotos, mas ele é muito jovem. Sebastian me impressiona e as vezes me emociona”.

O companheiro de Vettel na Red Bull, Mark Webber, chama a atenção que também será abordada por outros entrevistados. “Sebastian é um homem muito inteligente.” Niki Lauda, campeão em 1975, 1977 e 1984, destaca o mesmo fator. “Sebastian é capaz de compreender como tem de reagir no carro para extrair o seu máximo, bem como dos pneus. Tem um equipamento excelente, não há dúvida. Mas Webber também tem. Essa combinação entre seu talento, inteligência e time o torna, hoje, imbatível.”

Lauda explica que em 2011, com o escapamento aerodinâmico, melhor explorado pela Red Bull, havia emissão de gases enquanto o piloto freava, a fim de continuar gerando pressão aerodinâmica. “Aquilo exigia uma técnica especial de pilotagem, não simples de ser executada. Vettel a compreendeu e venceu 11 etapas. Já Webber se perdeu, ganhou apenas a última.”

O italiano Giorgio Ascanelli foi engenheiro de Ayrton Senna, na McLaren, Nelson Piquet, na Benetton, e trabalhou com Vettel, em 2008, na Toro Rosso. “Sebastian me lembra Ayrton. Muito veloz, quase nunca erra, determinado, trabalhador, comprometido com a Fórmula 1. Demonstra paixão. E quando não vence realmente se sente atingido, não gosta de perder. Gosto disso.”

Vettel tinha 11 anos de idade quando começou a se relacionar com o ex-piloto austríaco Helmut Marko, responsável pelo programa júnior da Red Bull. Época do kart, ainda. Hoje, 15 anos depois, os dois têm orgulho dessa relação que se estende além das responsabilidades profissionais. Nos autódromos, é quase como pai e filho. Poucas coisas dão tanto prazer a Marko quanto falar do pilotos que diz ter descoberto.

No GP da Coreia, depois do segundo treino livre, na sexta-feira, o Estado falou com Marko. Reagiu dessa forma ao analisar o alemão: “Sem os quatro décimos do kers ele foi o segundo. O que mais podemos esperar de Sebastian?, questionou, sorrindo, levando os braços para o alto, feliz da vida. “Sebastian tem conquistado tudo o que estamos assistindo porque tem uma coisa que poucos sabem, é o piloto mais forte mentalmente do grid.” A exemplo de outros pilotos do passado, em oposição ao que muitos pensam hoje, Marko entende a atual Fórmula 1 como Jackie Stewart, Niki Lauda, Bernie Ecclestone. “Foram bem raras as oportunidades que houve quatro supertalentos ao mesmo tempo, como agora, com Sebastian, Lewis (Hamilton), Fernando (Alonso) e Kimi (Raikkonen). É uma geração das melhores que já houve. E Sebastian tem vencido a todos.”

Apesar de ter abandonado a Fórmula 1 em 1973, depois de ser três vezes campeão, o escocês Jackie Stewart ainda é um profissional bastante ativo no paddock. Ele falou sobre Vettel ao Estado: “Não é justo afirmar que com seu carro qualquer um faria o que Sebastian faz. Está errado. Ele corre numa época em que há quatro supercampeões juntos e os vence. Não tenho certeza se Fernando, Lewis ou Kimi conseguiriam ser tão eficientes quanto Sebastian. Não refiro apenas à velocidade, mas todas as muitas qualidades necessárias para ser tetracampeão aos 26 anos de idade. Tanto que até hoje ninguém havia conseguido.”

 

RESPEITO DOS RIVAIS

Por duas vezes, em 2010 e 2012, Fernando Alonso, da Ferrari, perdeu o título para Vettel na última etapa. Em 2010, em Abu Dabi e no ano passado, em Interlagos. “Sebastian merece o sucesso que está fazendo porque é muito capaz. Não é apenas porque possui o melhor carro. Mas entendê-lo melhor será preciso esperar chegar a época em que não vai dispor de um carro tão bom como o dos últimos quatro anos, e irá acontecer. Aí teremos uma visão mais profunda do que é capaz.” Outro espanhol famoso, o tenor Placido Domingo, apaixonado por Fórmula 1 e presente em vários Gps, fez análise semelhante. “Ninguém pode questionar os títulos de Sebastian. Não venceu apenas o carro, mas o piloto também. Mas gostaria de vê-lo com o mesmo carro numa disputa com Fernando (Alonso), Lewis Hamilton e Kimi Raikkonen.”

Felipe Massa demonstra ter respeito e admiração por Vettel. “Piloto fantástico. Talentoso, rápido, inteligente, constante. Está vencendo tanto não somente por dispor de um carro competitivo. Ele correu também pela Toro Rosso, e ganhou corrida lá. Sebastian merece o seu sucesso.”

No seu melhor estilo, Kimi Raikkonen respondeu ao ser questionado pelo repórter do Estado: “Eu já falei sobre isso. Ele é um bom piloto”. Em seguida, virou as costas, incomodado com a pergunta.

O primeiro piloto de Fórmula 1 a competir com um carro projetado pelo atual diretor técnico da Red Bull, Adrian Newey, foi o italiano Ivan Capelli, junto do seu companheiro na March, em 1988, o brasileiro Mauricio Gugelmin. “Sua dedicação ao trabalho é máxima. Hoje teve um problema no kers, mas não ficou se justificando. É um verdadeiro 'uomo squadra' (trabalha em equipe) e sabe estimular a todos.” Capelli diz mais: “ Além de fechar com seu grupo, é rápido, preciso. Tem na força mental, seguro a temporada toda, o seu grande ponto de força”.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.