Abertura para um novo futuro na F-1

Enquanto os carros percorriam o circuito de Albert Park, mas madrugadas da última sexta-feira e deste sábado, nos treinos para a prova de abertura do Mundial de 2003, uma outra competição estava em curso: os dirigentes, cada um defendendo seus interesses, discutiam o futuro da Fórmula 1. Na última quarta-feira, em Genebra, o homem que gerencia tudo, Bernie Ecclestone, encontrou-se, surpreendentemente, com os representantes das montadoras européias que investem no campeonato e até criaram uma empresa, a Grand Prix World Championship (GPWC). Na sexta, Jean Todt, diretor-esportivo da Ferrari, definiu, em Melbourne, como positivo o resultado do primeiro encontro. ?No mês que vem haverá uma nova reunião?, explicou.O impasse que existe entre as montadoras e Ecclestone é simples de ser compreendido: essas empresas querem mudanças no Acordo da Concórdia, conjunto de regras que regulamenta, dentre outras coisas, a distribuição do dinheiro arrecadado pela Fórmula 1, proveniente principalmente da venda dos direitos de TV, estimados em meio bilhão de dólares anualmente. Essas regras foram definidas, ao menos sua última versão, em 1997, e sua vigência é de dez anos, portanto até o fim de 2007. Apesar de estar amparado pelo Acordo da Concórdia, que lhe dá o direito de ficar hoje com 53% do arrecadado, Ecclestone mostrou-se disposto a revê-lo. Frank Williams abordou o tema na Austrália: ?Estamos lavando nossa roupa suja em público. É hora de revermos nossa postura?. Ele se referia aos conflitos seguidos entre eles, donos de equipes, e Ecclestone e Max Mosley, presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA).Ron Dennis comentou o caso: ?O Acordo da Concórdia já nos ajudou muito, mas sua base é antiga e precisa ser revista. É isso que estamos propondo?. Dennis defende os interesses da Mercedes, sua sócia na McLaren. Esta sexta-feira, na Inglaterra, enquanto Dennis se explicava para a imprensa, Ecclestone fazia o mesmo, mas com ameaças: ?A partir de agora, os envolvidos na competição que se pronunciarem de forma irresponsável, depreciando a Fórmula 1, serão processados?. É mais ou menos o que sugeriu Frank Williams: ?Vamos lavar nossas roupas em casa?. Williams também alertou Ecclestone, em Melbourne, de que os três bancos que hoje são seus sócios na holding que detém o poder de comercialização dos direitos de TV, Slec, estão esperando uma proposta do dirigente para readquirir os 75% que são deles. ?Os bancos o aguardam?.Esses bancos caíram na Fórmula 1 de pára-quedas, porque financiaram para o alemão Leo Kirch a quantia de US$ 1,6 bilhão para a aquisição dos 75% da Slec. Ocorre que Kirch quebrou e os bancos assumiram a sociedade na holding. O que Frank Williams disse na Austrália é que Bernie deve logo comprar de volta os 75% porque as montadoras ? Frank Williams defende os interesses da BMW - desejam negociar com Ecclestone e não com quem não tem nada a ver com o negócio, no caso os bancos. Nem Frank Williams sabe se Ecclestone fez mesmo já uma proposta aos bancos, como se comenta, na casa de US$ 1,6 bilhão, o que parece pouco provável. Ecclestone pode até ser iniciado negociações com eles, mas com certeza sob valores inferiores ao que vendeu.A importância para a Fórmula 1, do ponto de vista prático, se for acertado um novo Acordo da Concórdia, é grande. De cara, as equipes receberão bem mais dinheiro que hoje. E as três equipes que não são associadas a montadoras, Sauber, Jordan e Minardi, não mais correriam riscos de não terminar a temporada, em especial Jordan e Minardi, um risco existente hoje. Depois, esse novo acordo estabeleceria novas regras para tudo, a começar pela forma de se criar regulamentos. As equipes teriam participação bem mais direta em qualquer decisão. Em resumo: seria um grande negócio para a Fórmula 1 e depois de um longo período de conflitos, essa nova fase é agora possível. Depende do que ocorrerá nos próximos encontros de Ecclestone com os representantes da GPWC.

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