Andes e Deserto do Atacama desafiam brasileiros no Rali Dacar

Pilotos esperam um caminho duro no novo traçado da prova, que começa no dia 3 de janeiro de 2009

Valéria Zukeran, O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2008 | 23h10

A altitude e os precipícios da zona montanhosa dos Andes, as dunas íngremes do Deserto do Atacama, o forte calor do verão no Hemisfério Sul, os riscos constantes de atropelamento e de interferência dos torcedores... Não serão poucos os desafios dos pilotos brasileiros que, com suas motos, carros e caminhões, se aventurarão a partir do dia 3 de janeiro no Rali Dacar Argentina-Chile, que terá percurso de 9.578 quilômetros, dos quais 5.656 de etapas especiais. Veja também  Mapa do percurso oficial do Rali Dacar 2009 Entre os anos de 1979 e 2007, a prova ficou conhecida como o Rali da Morte por causa do alto grau de dificuldade do percurso, que tinha como maior obstáculo a travessia do Deserto do Saara. Em janeiro deste ano, a competição foi cancelada por causa de ameaças terroristas aos pilotos. Para 2009, os organizadores transferiram a prova da África para a América do Sul. Esta será a primeira edição em novo continente e a promessa é de manter a reputação de rali mais difícil do mundo. Os brasileiros vão adotar estratégias diferentes de trabalho. Alguns competirão com estrutura estrangeira, caso de André Azevedo, da equipe Petrobrás-Lubrax. "Como meu caminhão é checo, o veículo, os mecânicos e a equipe de apoio vieram da Europa". A equipe Mitsubishi Brasil, de Guilherme Spinelli e Marcelo Vívolo, terá carro japonês e equipe de apoio brasileira, treinada no exterior. Reinaldo Varela, da Rally Brasil, vai usar o veículo que já teve bom desempenho no Rali dos Sertões, equipe 100% nacional. Paulo Pichini, da Offtech Rally Team, vai de carro nacional e infra-estrutura estrangeira enquanto Hélio Rodrigues Filho, da Honda Brasil, vai com moto e equipe do País. Uma das maiores novidades do rali será a altitude, uma vez que os competidores precisarão passar pela Cordilheira dos Andes. Segundo o piloto Azevedo, o ar rarefeito altera o desempenho dos veículos. "O pouco oxigênio afeta os motores. Se a regulagem não for a adequada, eles podem superaquecer", explicou. "O problema não deve afetar tanto no meu caso, que competirei de caminhão, ou as motos. Os carros, que tem muitos comandos eletrônicos, são mais sensíveis". Zé Hélio está preparado para a dificuldade. "Minha moto tem mais de uma opção de regulagem que eu mesmo posso acionar durante o percurso", contou. Os pilotos também podem sofrer os efeitos do pouco oxigênio. "Fiz um treino físico lá nos Andes e senti dores de cabeça", contou Marcelo Vivolo. Azevedo também ressalta um problema extra para os competidores: o rali passará em áreas muito povoadas. "Quando passamos por Portugal, em 2007, o publico bloqueava o caminho para os estrangeiros para beneficiar os portugueses. Isso aumentava o risco de atropelamentos. Se acontecer de novo, será preciso atenção". Todos os pilotos concordam que a parte mais difícil da prova será o Deserto do Atacama. Por isso, têm treinado pilotagem nas dunas. "O mais importante que aprendi foi como desatolar", contou Spinelli, que foi se aperfeiçoar em Fortaleza. "As dunas do Atacama são conhecidas como as mais altas do mundo, maiores até do que as do Saara", conta Pichini, que foi se preparar no Marrocos. Outro consenso entre pilotos é que o calor deve ser um grande adversário. Preparo físico será fundamental para evitar perda de concentração e acidentes. Lembram que, se no Saara competiam no inverno, no Atacama será verão. "A expectativa é de 45°C fora do carro e dentro, com os uniformes, deve chegar a 60°C", disse Spinelli. "Os organizadores estarão obrigando os competidores a levar 3 litros d’água, um a mais do que quando a gente competia no Saara", lembrou Azevedo. Mais um ponto no qual todos concordam: não há favoritos. "Se não andei por lá, ninguém andou", afirmou Varela. MECÂNICOSAo contrário do que acontecia nas edições africanas do Rali Dacar, os pilotos brasileiros que competirão no Dacar Argentina-Chile contarão com equipes de apoio formadas por mecânicos também brasileiros. Para a maioria, será a estréia no rali mais famoso do mundo e a palavra de ordem é mostrar serviço. "Acho que nosso diferencial é a pegada. Temos muita disposição para trabalhar", disse Carlos da Cruz, o Negão, da equipe Mitsubishi Brasil. O chefe dos mecânicos, Cleyton Ananias, foi para a França aprender a fazer a manutenção do carro com o qual irá trabalhar. "Queremos mostrar que não ficamos nada a dever aos outros", afirmou.

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